Skaparapid

«Voltámos com uma força que só a morte nos pode tirar»

Pioneiros da cena “Ska-Punk” de Valência, o Skaparapid cantam sobre a vida, a luta antifascista e anti-racista, o anseio de dignidade e justiça e também sobre o amor – garantem –, pois «a vida sem amor não é nada». Do concerto que darão na Festa do Avante!, prometem alegria e empenho.

Skaparapid é uma banda fundada nos anos 90. Podem falar-nos um pouco da sua história?
Skaparapid é a primeira banda de Ska-Punk liderada por uma mulher, no início dos anos 90, começando a criar música e canções compostas por ela própria, Karmen Cercós, em 1991. O projecto foi depois deixado em repouso porque foi viver para Londres. Regressou em 1992 e começou a materializar tudo com os seus companheiros em 1993, lançando a sua primeira demo anos mais tarde, em 1995, pela Soroll, uma distribuidora da Kasa Okupada onde Skaparapid nasceu e cresceu, “El Kasal Popular”, realizando inúmeros concertos de solidariedade para angariar dinheiro para os fundos da resistência, para o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), para o apoio aos presos políticos, tudo em prol do antifascismo.

Como surgiu a “onda ska” em Espanha, da qual vocês foram pioneiros juntamente com bandas como Ki Sap e Obrint Pas?
Tivemos o privilégio de estar no momento exacto em que o Ska teve o seu maior “boom” na história de Espanha, no início dos anos 90, seguidos por Obrint Pas algum tempo depois. Cerca de cinco anos mais tarde, apareceu outra banda no “País Valenciá” onde também havia uma mulher a cantar, Suka. Tocávamos todos os fins-de-semana numa ou noutra festa, festas de aldeia ou de organizações não governamentais para apoiar diferentes causas – contra o racismo, o feminismo e o antifascismo. No “Kasal Popular” também tocávamos sem parar, era raro o fim-de-semana em que não tocávamos. Também íamos a outros centros sociais e ao estrangeiro. A nossa primeira viagem fora de Valência foi a Friburgo, na Alemanha.

Têm muitas canções com letras sociopolíticas, anti-racistas, antifascistas e sobre direitos humanos. A intervenção política é uma das suas motivações artísticas? Como é que isso é compatível com o entretenimento e a alegria da vossa música?
Sim, Skaparapid é isso: é reivindicação, denúncia, posição política e uma posição sobre a vida, senão não seria Skaparapid. Também cantamos sobre o amor, porque a vida sem amor não é nada. Falamos de amor pela vida, de relações não tóxicas, de amor pela humanidade, de bem-estar e justiça social, de culturas e pessoas em geral que respeitam e amam. Pensamos que a vida tem esta dicotomia, que não só temos de estar conscientes da luta e da seriedade que esta exige, mas também da diversão, da festa, da alegria, do amor (como já referi). Fazemos Ska combativo com paixão e sem compaixão, dependendo de quem ou do que estamos a cantar.

Para além do castelhano, algumas das vossas canções têm letras em valenciano, que penso ser uma variante do catalão. Porque o fazem?
Nós somos defensores das línguas de todos os países do mundo, temos canções em valenciano, não é uma variante do catalão, é uma língua muito parecida, mas a língua valenciana e a língua catalã existem, são como se estivéssemos a dizer línguas irmãs. Cantamos em português, algumas também, outras em basco, outras em italiano e vamos lançar uma em inglês, é a primeira canção em inglês dos Skaparapid. É importante para nós a riqueza das línguas.

Os Skaparapid fizeram uma pausa em 2007 e regressaram aos palcos em 2022. O que vos motivou a voltar com força?
Parámos por motivos pessoais meus (Karmen Cercós). Perdi um filho e tive uma grande depressão, da qual demorei muitos anos a recuperar. Voltámos em 2016, não em 2022, e como digo na canção que escrevi sobre os 30 anos de Skaparapid, ressurgimos cada vez mais fortes, como a fénix. Parar os Skaparapid não foi um acto porque não queríamos tocar mais ou não tínhamos nada para dizer. Felizmente ou infelizmente, as coisas estão piores do que antes, parece que estamos a andar para trás em vez de andar para a frente, o racismo e o fascismo estão cada vez mais latentes e temos de estar todos unidos e lutar até à morte contra este flagelo e os loucos que estão a mandar neste mundo, com as guerras, etc…

O que está a acontecer na Palestina é horrível e doloroso, um genocídio às claras e ninguém o consegue parar. Já ninguém respeita os direitos humanos... Finalmente, voltando ao que estava a dizer, partimos por razões pessoais e necessárias ao meu bem-estar físico e mental. Por isso, assim que tudo ficou bem e estávamos prontos para compor e dar tudo de novo e gritar tudo o que precisávamos de vomitar... Voltámos com uma força que só a morte nos pode tirar, como neste caso alguns dos camaradas que fomos perdendo pelo caminho, um deles o meu querido companheiro Jipy, parceiro de canto há tantos anos.

O que é que o público da Festa do Avante! pode esperar do vosso espectáculo?
Para além de boa música e festa, boas vibrações brutais do nosso amor pelo vosso País. Em Portugal, graças ao nosso querido amigo Jonhie, dos Simbiose, que sempre nos chamou para tocar lá, fomos uma ou duas vezes por ano. Graças a isso, Skaparapid tem uma família lá, muito bons amigos e colegas que sempre nos apoiaram incondicionalmente. Vamos dar-vos alegria, empenho, festa e amor. Vamos amar-nos uns aos outros! Muito obrigado pela vossa entrevista, vemo-nos no dia 6 de Setembro com muito entusiasmo.

 



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