Culturalmente, a Festa é o acontecimento mais importante realizado anualmente em Portugal
Paulo de Carvalho dispensa apresentações: com uma carreira de 64 anos, cheia de êxitos e de distinções, vê muita qualidade na música que se faz hoje em Portugal e vê a Festa do Avante! como algo que também é seu, ou não fosse visita regular desde a primeira edição.
Está-se a fazer boa música em Portugal
Pode dar uma ideia aos leitores do Avante! sobre o que eles podem esperar nesta sua nova actuação na Festa? Que tipo de canções vão ouvir, como é a banda que o acompanha, que surpresas vão encontrar?
Mais uma vez fui convidado para estar presente na Festa do Avante!. Desde há 50 anos, portanto desde a primeira Festa do Avante! (ainda na antiga FIL, em Lisboa), que tenho marcado presença constante. É uma honra para mim continuar a poder estar junto de tanta gente, de tantos artistas, de tanta gente boa, que normalmente marca presença também na Festa e é por isso que também o slogan faz sentido: não há festa como esta!
Este ano vamos ouvir cantigas antigas, mas também umas quantas novas... É uma banda de oito músicos que irão tocar como eles sabem (e quem sou eu para estar a fazer enormes elogios, não me ficaria bem)... Mas são grandes músicos. Vamos ouvir cantigas conhecidas, mas também cantigas novas porque apesar dos meus 78 anos de idade a vida faz-se a andar para a frente, a vida faz-se a caminho do futuro.
A surpresa que posso dizer que teremos será a Selma Uamusse, grande amiga, grande cantora, que vai representar a música que faz, o seu continente – África –, e a sua terra – Moçambique. E não revelo o que vamos fazer os dois, mas vamos fazer qualquer coisa juntos, quase de certeza.
Quando recebeu o ano passado o Globo de Ouro de Excelência e Mérito declarou, numa entrevista, o seguinte: «Gosto que reconheçam em mim determinados princípios que são importantes para a nossa sociedade. É por aí que começam as revoluções, pela educação e pela nossa forma de estar. Isso foi muito importante para mim.» Pode detalhar os princípios que como artista e cidadão pretende transmitir?
Os princípios que me norteiam sempre foram os mesmos. Foi uma coisa que eu aprendi basicamente em casa, com a família, e que depois servem para o nosso dia-a-dia. Para vivermos uns com os outros... Princípios de seriedade – fundamentalmente isso – que fazem com que possamos tentar que o mundo seja melhor, que a nossa sociedade seja melhor. Acho que não me afastei nunca desses princípios, que aprendi com a minha família e que passo aos mais novos, portanto aos meus filhos. É muito importante que tudo aquilo que aprendemos seja posto em prática com aqueles que vêm a seguir a nós, sobretudo muita seriedade na vida e na profissão também.
Tem frequentemente elogiado a elevada qualidade das novas gerações de artistas portugueses. Essa realidade, simultaneamente, coincide com uma degradação significativa do rendimento dos artistas, mesmo os que têm grande êxito, obrigados a dar cada vez mais espectáculos para sobreviver. Este facto é identificado em várias fontes como, por exemplo, no recente livro de João Gobern “Tira o Disco e Toca ao Vivo”. Sentiu essa evolução ao longo da sua carreira? Como é que lidou com ela?
Eu tenho a sorte e o enorme privilégio de estar há 64 anos numa profissão da qual gosto muito. É-me fácil estar nesta profissão porque gosto dela, respeito-a e, sobretudo, respeito quem fez de mim quem sou artisticamente, que é o público.
Há um enorme respeito da minha parte para com aqueles que gostam do que faço, ainda que os tempos que estamos a viver sejam tempos complicados. Sobretudo no entendimento de tudo isto. Os valores que a sociedade de um modo geral está a defender e está interessada em ter não são exactamente os mesmos de que eu gosto, mas acho que o nosso exemplo é importante. E é nesse sentido que eu digo o que digo: o nosso exemplo é um exemplo que se constrói diariamente e espero que os mais novos nos sigam nesse sentido, porque continua a fazer-se muito boa música em Portugal. Sobretudo algumas pessoas com textos maravilhosos, quase poderia dizer que são textos da altura em que comecei e não me refiro aos meus, estou a referir-me a pessoas como José Carlos Ary dos Santos.
Há muito boa música em Portugal, não vou distinguir nomes porque não me parece bem, forçosamente ir-me-ia esquecer de um ou de outro... Mas está-se a fazer boa música em Portugal. A gente mais nova está muito bem e recomenda-se.
Já actuou várias vezes na Festa do Avante!. Já alguma vez refletiu sobre o papel da Festa do Avante! na cultura portuguesa?
A Festa do Avante é, na minha opinião, o acontecimento cultural mais importante que se realiza em Portugal todos os anos. Na festa há os mais diversos acontecimentos culturais, que vão desde exposições à música – que é muito importante, claro, mas não é só a música: exposições, colóquios, até gastronomia... Portanto, a Festa é feita por muita gente que, no meu entender, é a parte mais importante de tudo: as pessoas.
Culturalmente, tem uma enorme importância esta Festa... a nossa Festa. Acho que posso chamar minha também, porque desde o princípio que tenho estado na Festa do Avante!.




