«Espoliador, imundo, sangrento»

Filipe Diniz

Há uns anticomunistas que gostam de fazer chacota sobre a “superioridade moral dos comunistas”. A maioria não terá sequer lido o texto de Álvaro Cunhal com esse título, e nem saberá que se trata de um texto teórico. Devem imaginar que se trata de um decreto.

Álvaro Cunhal cita Lénine: «o que distingue o marxismo do antigo socialismo utópico é que este queria construir uma nova sociedade, não com a massa de material humano engendrado pelo capitalismo mercantil, espoliador, imundo, sangrento, mas com seres particularmente virtuosos educados em moldes ou em estufas especiais.»

Afirmação que tem total (ou talvez acrescida) actualidade, e ajuda a identificar melhor não apenas um mas os dois lados em confronto. Não apenas o “material humano” a empenhar na construção de uma outra sociedade, mas o “material humano” apostado em que nada mude no “capitalismo mercantil, espoliador, imundo, sangrento.”

Não será fácil encontrar em épocas anteriores algo semelhante ao “material humano” que preenche as estruturas de poder (político, económico, mediático) das velhas potências imperialistas ocidentais. Gente que é verdadeiramente ilustrativa da «inferioridade moral» do capitalismo na sua fase terminal. Tão «mercantil, espoliador, imundo, sangrento» como sempre foi, agora ainda mais disposto a tudo perante a perspectiva de uma inexorável decadência. Poderá talvez encontrar paralelo no «material humano» que, entre a sangrenta repressão da Comuna de Paris e Hiroshima e Nagasáqui colocou o mundo a ferro e fogo e massacrou centenas de milhões de seres humanos.

Gente que está sempre em guerra: armada, política, social, civil, ideológica. Os trabalhadores e os povos são o seu inimigo principal, e essa guerra trava-se tanto no terreno (Gaza, por exemplo) como em instituições (Assembleia da República, por exemplo).

Mais tarde ou mais cedo, juntamente com a decisiva luta dos povos, a sua própria abjecção moral ajudará a derrotá-los.

 



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