Brigada Victor Jara

A “cultura do encontro” é a maior riqueza da Festa do Avante!

A comemorar meio século, a Brigada Victor Jara leva à Festa (onde já actuou tantas vezes) a celebração do seu percurso em prol do desenvolvimento e divulgação da música popular portuguesa e da afirmação dos valores da cultura, da liberdade e da paz. Quanto à Festa, consideram que a sua maior riqueza é a «cultura do encontro», para a qual esperam uma vez mais contribuir.

O papel cultural da Festa do Avante! não se esgota no significado dos muitos acontecimentos que promove

A Brigada Victor Jara está a celebrar cinquenta anos de actividade. Este espectáculo na Festa do Avante! faz parte da celebração dessa história? Como é que está concebido?

A Festa do Avante! é um lugar essencial de toda a vida da Brigada. Ao longo de 50 anos de existência, a Brigada apresentou-se muitas vezes na Festa (estivemos presentes em quase todos os recintos da Festa), a solo e com convidados como o Manuel Freire, o Zeca Medeiros, o Coro dos Antigos Orfeonistas de Coimbra. O convite para que a Brigada esteja presente na Festa, no ano do nosso 50.º aniversário, honra-nos tanto quanto nos responsabiliza – por isso queremos que o espectáculo que vamos levar à Festa possa acrescentar sonoridades à rica e diversificada programação musical da maior realização político-cultural do nosso país. É um trabalho feito para a Festa, para celebrar o percurso da Brigada, na celebração que a Festa sempre é.

A Brigada é um dos grandes nomes artísticos de um estilo, com raízes na música tradicional, que nas décadas de 1970 e 80 se convencionou chamar de Música Popular Portuguesa e que foi muito popular. É um estilo que entrou em crise no século XXI ou é apenas desfavorecido pelos media e pelo negócio da música?

Quando a Brigada se apresentou pela primeira vez na Festa, era muito residual a presença da música de inspiração tradicional no panorama musical português. Havia a Brigada, o GAC, o Almanaque, o Terra a Terra e creio que mais nenhum grupo “urbano” daquilo a que Michel Giacometti chamava, carinhosamente, “música popular em segunda mão”. E havia, sobretudo, a presença do cancioneiro popular com que o Zeca e o Adriano traziam a canção tradicional para o lado da luta pela afirmação da cultura popular portuguesa. O resto era, no fundamental, herança sonora da sementeira do SNI.

É sabido que, hoje, o grande público da nossa terra está mais familiarizado com os clichés e géneros da cultura de massas anglo-saxónica e com outras expressões musicais comerciais do que com a música do seu próprio povo. No entanto, aquilo que era, nos anos 70, uma raridade exótica – uma gaita de foles, uma braguesa, um cavaquinho, uma moda de Cante –, está hoje mais presente nos círculos musicais do que então estava.

Sendo certo que nas ondas da rádio e nos ecrãs da TV a música popular portuguesa quase não tem presença, também é certo haver, hoje, muito mais experimentação das sonoridades populares, mobilizando muito mais músicos, do que então acontecia. De resto, a Festa do Avante! tem revelado, ano após ano, esta realidade na sua programação. A sonegação de espaço mediático à música não comercial é, como se sabe, uma opção política. Nada de novo, portanto – em 24 de Abril de 1974, quem, fora dos círculos da oposição democrática, conhecia as cantigas do Zeca, do Adriano, do Cília e de tantos mais, ou as Heróicas de Lopes-Graça? A alteração de uma tal situação passa, de novo e necessariamente, pela alteração da situação política.

Para além de um legado musical, a Brigada tem também um legado político, expresso desde logo no nome, que, como se sabe, homenageia um artista assassinado pela ditadura de Pinochet no Chile. Esse envolvimento político, iniciado em 1975, mantém-se nos dias de hoje?

A Brigada começou por ser um grupo de militância política, num contexto histórico em que a música popular era um argumento revolucionário, de afirmação nacional e internacionalista – em que o nome de Victor Jara era elemento tutelar. A Brigada não foi o único grupo enquadrado no trabalho político de organizações como o MFA e o PCP, mas terá sido aquele que mais tempo permaneceu num tal enquadramento. E já muito depois do chamado PREC experimentámos, em alguns lugares do nosso país, a violência contra as forças progressistas, o boicote a iniciativas políticas comprometidas com a revolução.

Mas também tivemos a honra da participação nas Conferências da Reforma Agrária, em comícios, sessões de esclarecimento, congressos, campanhas eleitorais por todo o País. A História – do país e do grupo - foi diversificando os palcos da Brigada e, ao mesmo tempo, profissionalizando uma actividade que teve uma vida inicial quase só de militância – foi na militância que nos encontrámos tantas vezes com o Adriano Correia de Oliveira e com o Carlos Paredes, para referir dois nomes maiores da militância cultural-política (a par do de Lopes-Graça).

O envolvimento político militante, que foi a razão de ser da Brigada inicial, transformou-se num envolvimento político artístico, em que o engajamento já não é o motor essencial. Mas quando se responde pelo nome de Victor Jara, quando se sobe ao palco para celebrar o centenário de Álvaro Cunhal – com quem partilhámos palco tantas vezes – não se faz mais do que dar coerência aos gestos de uma vida longa. Como na Festa, daqui a poucos dias.

Convidaram para este espectáculo o grupo feminino Segue-me à Capela. Já tinham actuado juntos antes? Como é que vai ser essa participação?

Convidámos as Segue-me à Capela – um coro de mulheres que canta as polifonias tradicionais – pelas razões estéticas, de ser o canto polifónico feminino uma parte essencial do cantar do nosso povo, e pelas razões políticas de se tratar de um canto ligado à vida – ao trabalho, à devoção, à festa, ao desejo de uma vida justa. Já estiveram connosco numa das apresentações na Festa do Avante! e noutras ocasiões (e já estiveram na Festa, em duas ocasiões, com espectáculo em nome próprio).

Neste espectáculo vamos “coser” repertório dos dois grupos num canto só, procurando o reencontro com o público já ganho para as sonoridades da Música Popular Portuguesa, desejando que, quem a desconheça, possa ficar seduzido pela música na qual, como povo, nos fundamos.

Ao longo da vossa história apresentaram-se várias vezes na Festa do Avante!. Qual é a vossa opinião sobre o papel da Festa do Avante! na cultura portuguesa desde que, há 49 anos, ela se realizou pela primeira vez?

A Festa do Avante! não tem “um” papel – na nossa leitura chega a ter tantos papéis quantos os visitantes, os militantes, os artistas, os desportistas, os escritores, os conferencistas, os activistas das delegações estrangeiras. O que é extraordinário na Festa do Avante! é que o seu papel cultural não se esgota no significado dos muitos acontecimentos que promove.

Há, na Festa, uma cultura do encontro que é, seguramente, a sua maior riqueza – encontro de amigos, encontro com as Artes (em que a Música tem lugar destacado e diversificado), encontro com os sabores, com o conhecimento, com a mensagem sonegada, encontro com uma vivência livre, pacífica e fraterna que é o contrário daquilo que o dia-a-dia nos disponibiliza fora daquele território. É esse, também, neste ano de cinquentenário, o privilégio da Brigada – o de podermos ser um dos pontos de encontro da Festa do Avante!.

 



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