A Festa do Avante! celebra a democracia, o 25 de Abril, o direito a estarmos juntos

Capicua regressa este ano à Festa do Avante! com um espectáculo em que surge acompanhada por Gisela João – a sua “voz favorita” do fado. Para além das canções já conhecidas, mostrará o seu último álbum, onde estão uma vez mais presentes a indignação com os podres do mundo, a revolta contra as injustiças e a capacidade de sonhar um futuro melhor. «Não podia estar mais feliz por participar na Festa do Avante! de 2025», afirma.

No disco, quis falar sobre utopia, futuro, esperança e encantamento

O último álbum que lançou intitula-se “Um Gelado Antes do Fim do Mundo” e muitas das suas canções reflectem um sentimento de revolta e espanto sobre tensões sociais, ambientais e políticas. Esta afirmação, “antes do fim do mundo”, é a aceitação de que é inevitável uma catástrofe inimaginável? É um alerta para despertar consciências? É, apenas, uma ironia?
Ora bem, este disco é um disco sobre o nosso tempo e o nosso tempo é complexo e há um exacerbar das tensões, dos conflitos e dos problemas e há uma espécie de sensação de “fim do mundo” que acho que é muito óbvia no espírito da época. Mesmo que esse fim seja imprevisível, existe essa sensação dada a complexidade, intensidade e escala dos nossos problemas. Por causa das alterações climáticas e da ameaça dos conflitos escalarem e se tornarem nucleares, digamos assim.

Há muitas coisas que nos ameaçam e, de facto, as pessoas falam muito sobre isso e sentem na pele todos os dias essas tensões, ansiedades e angústias. E este disco, falando sobre esse espírito da época, da complexidade dos nossos tempos e sobre esses problemas, e apesar de aludir ao final do mundo, não pretende ser um disco catastrofista. É um disco que, falando sobre isso, foca-se muito na construção de utopias, de esperança, sobre a importância de pensarmos o futuro… Porque, de facto, acho que esse é um dos traços principais da nossa civilização, falamos muito pouco do futuro como algo possível, como uma coisa desejável.

Nós pensamos o futuro como uma grande catástrofe ou como uma “distopia orwelliana” e, de facto, para a maioria das pessoas é muito mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Nesta ausência de utopias e de um futuro que seja desejável, tornamos-nos numa espécie de civilização suicida e eu acho que isso é um traço muito triste e trágico da nossa civilização. Por isso é que eu queria, falando de tudo isso e não escondendo a complexidade do mundo em que vivemos, falar sobre utopia, futuro, esperança e sobre encantamento. Daí esta expressão: “o gelado antes do fim do mundo”. Porque o gelado é essa proposta de fazer uma pausa, um intervalo no meio do caos, contemplar e procurar as razões pelas quais vale a pena lutar e mobilizar e as coisas bonitas que existem no mundo e na nossa vida, pois se olharmos só para as coisas más, não vamos ter vontade de salvar o mundo.

Aborda muitas vezes o ascenso das ideias fascistas e racistas, associando-as também ao machismo, homofobia e a um tipo de toxicidade ideológica que leva à violência doméstica e à polarização do discurso público. É justo dizer que, de entre todos estes temas, o da condição feminina é o que a preocupa mais?
Não diria que me preocupa mais, mas é aquele em que eu tenho maior lugar de fala e o que eu há mais tempo denuncio, porque está presente transversalmente na minha discografia. Portanto, acho que é aquele que é mais associado a mim, ao meu trabalho e à minha condição, porque sou uma mulher e é a partir dessa condição que eu escrevo e desempenho o meu trabalho artístico.

Mas não acho que seja um problema mais grave do que esses nomeados na pergunta. Acho que faz parte de uma luta plural, acho que não há maneira de mudarmos o mundo por parcelas e, portanto, acho que as lutas têm de ser interseccionais e, obviamente, que a luta contra as desigualdades tem de incluir a luta pelos direitos das mulheres, como tem de incluir a luta pelas pessoas LGBTQIAP+, das pessoas racializadas, das pessoas mais desfavorecidas, das pessoas com deficiências, etc. Não vou hierarquizar os problemas e a sua urgência, mas no meu trabalho se calhar a face mais visível é o discurso feminista, apesar de eu tentar articulá-lo com essas outras preocupações, que acho que são igualmente urgentes.

Sobre a extrema-direita e a tentativa de retrocesso em alguns direitos adquiridos e na repressão de algumas lutas, de facto, os direitos das mulheres, assim como os das minorias, estão na fila da frente, como alvo a abater, por esses movimentos populistas e de extrema-direita. Portanto, acho que temos que estar com a bandeira feminista bem levantada, mas sempre em associação com as outras lutas, pois estas estão todas ligadas, assim como os problemas, as estruturas de opressão, desigualdade e o discurso de ódio não se cingem apenas à causa feminista ou a outra em particular. Estes têm essas causas todas como um alvo definido e é por isso que a resposta e a luta contra esse tipo de movimentos também tem que ser interseccional.

Neste espectáculo da Festa do Avante! terá Gisela João como convidada, que, de resto, também participa no álbum. A vossa geração de músicos, aliás, é muito mais aberta a este tipo de colaborações cruzadas do que foram as gerações anteriores. Como é que a Capicua e a Gisela João se motivaram a colaborar uma com a outra?
Gosto muito da Gisela como artista, é a minha voz favorita do fado e tem um talento e uma profundidade na sua voz que é, de facto, ímpar. E como pessoa também gosto muito dela, já colaborámos muitas vezes. Escrevi para o primeiro disco dela, ela participou no meu segundo disco, “Sereia Louca”, já escrevi, entretanto, para outros trabalhos que ela foi lançando: ela acabou de regravar no último disco dela, o “Inquieta”, a versão que eu fiz do “Que Força É Essa” do Sérgio, na minha versão “Que Força É Essa Amiga”.

Entra também neste disco, mais uma vez, porque a canção pedia a Gisela e a sua voz naquele refrão e quando a canção pede a gente tem que respeitar. É com muita alegria que a tenho neste concerto, assim como no meu disco e em todas essas colaborações. Fico também muito orgulhosa quando ela canta as minhas letras, porque ela é uma intérprete maior e eu adoro escrever para fado, portanto, é uma honra para mim que ela cante as minhas letras.

Já actuou várias vezes na Festa do Avante!, sempre com reacções muito boas do público. Já alguma vez reflectiu sobre o papel da Festa do Avante! na cultura portuguesa desde que, há 49 anos, ela se realizou pela primeira vez? Gosta de ir à Festa?
A Festa do Avante! é um exemplo de como é possível fazer uma festa popular, familiar, com pessoas de todas as gerações, um cartaz muito diverso, muita qualidade e, sobretudo, centrado na música portuguesa, e ter multidões, pessoas muito felizes, um público muito participativo e, portanto, é sempre um prazer estar no palco da Festa do Avante!.

Acho que, de facto, é uma festa que celebra a democracia portuguesa, o 25 de Abril, o direito a estarmos juntos, o direito à cultura e, portanto, não podia estar mais feliz por participar na Festa do Avante! de 2025.

 



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