Um país de lutas, saberes e sabores
Quantos quilómetros quadrados cabem em cada hectare? Se formos pela matemática, apenas 100, mas como as regras parecem mudar na “terra dos sonhos”, podemos afirmar com certeza que, nos 30 hectares da Quinta da Atalaia, couberam todos os 90 mil km2 de Portugal. Isto porque, do Minho ao Algarve, sem esquecer as ilhas, todas as regiões estiveram presentes nos espaços das respectivas organizações do Partido.
E exactamente por serem as representações dos “quatro cantos” do País – com as suas mil e uma lutas, da saúde à educação, passando pelos direitos dos trabalhadores ou a batalha das autárquicas – a diversidade de temas, em exposições e debates, foi imensa.
Viver melhor na nossa terra
As propostas da CDU para as eleições autárquicas e a sua intervenção nos órgãos do poder local democrático foram presença transversal em toda a Festa.
Assim foi nos Açores, adornado com a imagem de uma sorridente baleia, tradicional símbolo utilizado no espaço desta região insular, e onde ficou patente, por uma faixa que percorria toda uma das paredes, que é com o PCP e a CDU que os açorianos podem contar, «pelo futuro da região».
Na Madeira podia ler-se, em letras que preenchiam toda a parede, uma mensagem de apelo ao voto na Coligação (e “escrito com sotaque”): «Autarquias. Deia 12 de Outubre cuaminha de casa e pranta-lhe o vóte na CDU». O stand também albergou uma informativa exposição sobre a presença da cerâmica muçulmana na região, que divulgou a multiculturalidade enraizada na história do arquipélago.
As autárquicas também marcaram presença forte em Setúbal, com um debate sobre o poder local e uma banca pintada de azul CDU (com a mensagem «força de confiança»), e Lisboa, com um debate acerca da água pública, direito das populações. Diversos pavilhões expuseram, igualmente, as fotos e nomes dos seus cabeças-de-lista às câmaras municipais.
Pacote laboral só serve ao capital
Se o patronato e o Governo decidiram, com o pacote laboral, “declarar guerra” aos trabalhadores, estes sabem bem a resposta a dar: a luta!
Foi esta uma das ideias-chave de Lisboa este ano, com um gigantesco mural, que percorria metros e metros de distância, onde se podia ler «São os trabalhadores que constroem, são os trabalhadores que dão vida à vida!». A região acolheu, ainda, as já tradicionais noites no Espaço Fado, Alfarrabista, Feira da Ladra, Pavilhão do Coleccionador, Sai-Sempre e Loja Lisboa, além de murais dedicados à habitação, energia, água e Palestina.
O trabalho e a luta dos trabalhadores foi, igualmente, tema de Setúbal, não só com murais onde se lia «Não ao pacote laboral» e «Aumento geral dos salários e pensões», como com «O Faísca» (bar da célula da Autoeuropa) e um debate sobre turnos e ritmos de trabalho. O pavilhão trouxe, como habitual, o Espaço Bebé e o Sítio da Brincadeira, assim como um mural de solidariedade com a Palestina.
A terra a quem a trabalha!
Numa altura em que é preciso promover a soberania alimentar, os direitos dos trabalhadores e produtores agrícolas foram foco de diversos espaços.
O Alentejo – que congrega Beja, Évora, Litoral Alentejano e Portalegre – trouxe um pavilhão inteiro dedicado aos 50 anos da Reforma Agrária, a mais bela conquista de Abril, tão cedo tolhida pela política de recuperação capitalista. Assim foi com a gigantesca faixa colocada na entrada do espaço («A terra é que dá o pão»), na exposição política (colocada em cima de blocos de feno) e no tractor, que simboliza o trabalho na terra e que foi, durante os três dias, diversão das crianças, que subiram para cima deste importante instrumento agrícola. A região acolheu não só um debate sobre este tema, como debates sobre o modelo económico alentejano e o poder local democrático.
Em Bragança, a pastorícia e os baldios foram o tema principal, tanto com um debate subordinado a este assunto, como com a exposição e um longo mural que representava montes verdejantes, os quais eram observados por um pastor com as suas ovelhas (decoradas com lã verdadeira, trazida por um camarada da região). Ao topo, coroando a cena, versos de Adriano, que os ouviu numa visita a Trás-os-Montes: «Um homem nunca devia mandar noutro homem. / Todos juntos é que vamos mandar na terra!».
A região demarcada do Douro, bem como a crise que vivem os seus pequenos e médios viticultores, foi destaque em Vila Real, traduzindo-se não só em murais (com frases como «A crise do Douro tem culpados: casas exploradoras gananciosas e políticas de direita»), como num debate que ali decorreu.
Viseu trouxe diversos murais sobre agricultura, os quais estiveram lado-a-lado com poesia de Ary dos Santos e uma citação de Conceição Matos, aquando da sua homenagem pela organização regional do Partido: «[…] abracei os ideais comunistas, de uma sociedade sem explorados nem exploradores […]». A região acolheu um debate sobre o assalto ao CT de Viseu em 1975.
Valorizar o que se produz e quem produz
Na Festa, pôde-se conhecer melhor o que se produz no País, por mãos laboriosas que, por vezes encetando práticas ancestrais, apenas querem viver com dignidade.
O Algarve dedicou o seu stand à pesca e ao marisqueiro, presente num debate (onde também se abordou a situação económica e social da região), numa exposição, que caracterizou estas actividades, e num mural com propostas do PCP para o sector, nomeadamente salário mínimo garantido, cálculo justo das reformas, valorização do preço da primeira venda em lota, mais investimento e apoios por paragem e desembarque.
Em Aveiro, o destaque foi dado ao papel do sal na região, produto cuja recolha é uma actividade ancestral (e que, inclusive, justificou a palavra latina salarium, origem de salário). Assim foi tanto num gigantesco mura que pintou as salinas do distrito, como noutro onde se podia ler «O sal da nossa terra é o sal da nossa luta». A organização trouxe também, um tradicional barco da região.
As actividades económicas também marcaram presença no espaço açoriano, onde decorreu um debate sobre os impactos do turismo.
Qual é a próxima paragem?
O direito à mobilidade deveria ser realidade em todo o País mas, como mostraram algumas organizações, tal ainda não ocorre por falta de vontade política.
Em Braga, todo o stand foi decorado com motivos que lembram este direito – nomeadamente um comboio, adornado com uma estrela vermelha, onde se encontravam desenhadas personagens dos livros Uma Aventura, homenagem a Arlindo Fagundes. A temática também se mostrou em murais sobre a luta por um passe intermodal, e num debate acerca da mobilidade pública, acessível e integrada.
No espaço de Castelo Branco e Guarda, o motivo principal foi a ferrovia, patente em dois gigantescos murais pintados nas suas paredes, ambos a representar paisagens trilhadas por caminhos-de-ferro, nas suas palavras, verdadeiramente «ao serviço das populações». O stand, que também teve um mural em defesa do SNS, acolheu um debate sobre o direito a viver melhor na Beira Interior.
Por seu lado, o Porto trouxe, este ano, um pavilhão totalmente decorado com representações do que fazia lembrar um mapa de um metropolitano – espelho da temática presente no espaço, todo ele cruzado por linhas vermelhas e verdes, que cobriam as paredes de imagens referentes a vários meios de transporte que é preciso promover e desenvolver, como os comboios, os aviões ou as bicicletas. A região acolheu um debate sobre mobilidade e transportes ao serviço das populações.
Sem ela nada feito… mas que fazer?
Que a saúde, direito constitucional, está sob ataque, já (quase) todos sabemos. Então, como dar combate a essa política? Foi sobre isso que diversas organizações reflectiram.
Em Coimbra, num espaço todo ele decorado não com murais, mas com panos vermelhos pregados – fruto do trabalho árduo dos camaradas da região – a defesa do SNS e da saúde no distrito foi tema forte, tanto em frases pintadas nas paredes («Salvar o SNS – defender os seus profissionais») como num debate que ali ocorreu.
Com ambulâncias pintadas nas paredes, a par da explicação de que «50% do orçamento da saúde é transferido para o privado», a luta em defesa do SNS foi patente em Leiria, região com dois espaços (um deles dedicado ao tradicional forno a lenha), onde decorreu um debate sobre a Constituição e o direito à saúde.
Santarém trouxe-nos a temática geral dos serviços públicos, abordando, num debate, em painéis de uma exposição e desenhos nas paredes, elementos como a escola pública, as creches, os transportes, a habitação, a água e, claro, a saúde e o SNS. Quanto a este, é de notar um mapa do distrito onde qualquer visitante podia assinalar os concelhos onde reside e não tem médico de família.
Esta região não passava despercebida a qualquer visitante que entrasse pela porta da Festa junto à Quinta da Princesa, podendo logo ler, numa longa faixa que sombreava o espaço, as palavras «Viana do Castelo». Aqui, além da banca de artesanato e de motivos tradicionais e de solidariedade com a Palestina pintados nas paredes, decorreu um debate sobre o SNS.
Um País de saberes e sabores
Assinalam-se alguns exemplos do vasto património cultural de saberes e sabores do País, trazido à Festa pelas diversas organizações, como o queijo de S. Jorge ou a vibrante mistura de morcela com ananás nos Açores, as cortiças, azulejos, “bonecas de trapo” e chocalhos de várias zonas do Alentejo (regados com prazerosos momentos de Cante) ou os mariscos, os D. Rodrigos e os bolos e queijos de amêndoa no Algarve.
Aveiro deliciou os visitantes com os seus ovos moles, moliceiros e pão-de-ló de Ovar e Arouca, tal como Braga, com o tradicional bacalhau da região e peças variadas trabalhadas em palha e madeira, Bragança, com a grande (em todos os sentidos!) posta mirandesa e as suas máscaras de madeira e metal, ou Castelo Branco e Guarda, que trouxe os seus maranhos da Beira Baixa e uma garrafeira com vinhos de diversas cooperativas.
Coimbra deleitou os visitantes com os seus pastéis e queijadas de Tentúgal e a chanfana regional, enquanto Leiria brilhou com o seu pão com chouriço de forno a lenha e a sua banca de produtos de vidro, Lisboa encantou com a sua churrasqueira e hamburgueria, ideais para refeições rápidas em família, e a Madeira deliciou todos quantos por lá passaram com os seus bolos e broas de mel e o seu suculento pudim de maracujá.
O Porto trouxe, novamente, valorosos produtos como a francesinha, os bolinhos de bacalhau ou o vinho do Porto, enquanto Santarém brilhou com a refeição completa de carne de touro bravo e doces como o arrepiado de Torres Novas.
Setúbal encantou com os seus moscatéis e vinhos, bem como com o choco frito (sempre com longas filas), enquanto Viana do Castelo deliciou com o arroz de sarrabulho e os seus lindíssimos bordados de St.ª Marta de Portuzelo, Vila Real trouxe as suas cristas de galo e a vitela assada no forno e Viseu encantou com os rojões, presunto e bifanas da “Taberna Beirã” e doces como os Viriatos.




