Ataques de Israel à cidade de Gaza agravam situação humanitária dramática

Forças israelitas continuam a bombardear violentamente a cidade de Gaza para forçar a população a deslocar-se para sul, mais de 150 mil nas últimas semanas. A situação humanitária agrava-se, com centenas de pessoas – grande parte delas crianças – a morrerem de fome.

A cidade de Gaza, no norte da Faixa de Gaza, continuava no começo desta semana sob intenso fogo do exército israelita, como parte dos preparativos para uma operação terrestre. Há registo de ataques aéreos israelitas, dos mais violentos desde o início da agressão, que causaram dezenas de mortes e numerosos feridos. Na segunda-feira, 15, as Nações Unidas condenaram a «escalada mortal» dos ataques militares na cidade de Gaza e registavam 150 mil deslocações para o Sul do território. Permanecerão ainda na maior urbe do território cerca de 750 mil, muitos dos quais se recusam a sair.

Fontes palestinianas denunciam que desde meados do mês passado as forças israelitas demoliram cerca de 1600 edifícios na cidade, danificaram outros dois mil e destruíram cerca de 13 mil tendas de campanha. A ONU refere que um terço das instalações de tratamento de subnutrição na cidade de Gaza já fecharam devido a ordens de deslocação forçada.

A 8 de Agosto, o governo de Telavive aprovou um plano para reocupar toda a faixa, numa campanha militar que começou pelo bombardeamento intenso da cidade de Gaza, a mais povoada do território. Antecipando a ofensiva terrestre, o exército sionista leva a cabo uma vaga de bombardeamentos, utilizando aviões e artilharia.

Os serviços de Protecção Civil da Faixa de Gaza acusam as tropas israelitas de aí executar uma “limpeza étnica”. «A ocupação está a alcançar um nível de loucura cega com os seus bombardeamentos de escolas que albergam pessoas deslocadas à força e edifícios residenciais localizados em bairros densamente povoados», alertou.

«Opção impossível» para população civil
A incursão militar israelita planeada contra Gaza terá consequências devastadoras para uma população já debilitada pela falta de alimento, as perdas humanas e materiais e o repetido deslocamento forçado, advertiu em Ramala uma organização não governamental. «As famílias enfrentam uma opção impossível: risco de morte, ferimentos, doenças e fome, se ficam, ou um deslocamento permanente com pouca esperança de regresso, se vão», denunciou a Acção contra a Fome.

A ONG afirmou que «empurrar centenas de milhares de pessoas para sul [da faixa] em tais condições constitui um deslocamento forçado e uma grave violação do direito internacional». O que estamos a ver na cidade de Gaza não é só uma crise, «é um colapso da sobrevivência humana», considerou.

Desde Outubro de 2023, Israel já matou mais de 64 mil palestinianos na Faixa de Gaza, tendo provocado também centenas de milhares de deslocados. Segundo as autoridades de Saúde de Gaza, o total de vítimas mortais por inanição ascende já a 422 pessoas, entre as quais 145 crianças. Mais de 75 por cento das redes rodoviárias do território foram danificadas, principalmente nas províncias de Gaza e Khan Younis.

O Ministério de Assuntos Exteriores e Expatriados da Palestina acusou os israelitas de tentar aniquilar a vida na Faixa de Gaza, onde vivem mais de dois milhões de pessoas. Criticou a estratégia do exército ocupante de derrubar edifícios residenciais da cidade de Gaza, alvo de uma iminente ofensiva terrestre, para obrigar os seus habitantes a fugir para o sul. Também alertou para a fome no território como consequência do bloqueio e a destruição sistemática de todas as necessidades para viver. «Instamos o mundo a pôr fim às suas posições tradicionais sobre o assunto e, em seu lugar, impulsionar abordagens mais audazes para proteger os civis palestinianos», sublinhou.

Condenação internacional 
Entretanto, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, no dia 12, uma resolução que visa implementar a solução de dois Estados, reconhecendo o Estado da Palestina. A proposta contou com 142 votos a favor, 10 contra (entre eles Israel e os EUA) e 12 abstenções. A Liga Árabe celebrou a decisão, através do seu Secretário-Geral, Ahmed Aboul Gheit, para quem a votação verificada reflecte um crescente consenso internacional sobre o tema. O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, garantiu por sua vez que «não haverá Estado palestiniano».

Anteontem, quando algumas fontes davam como certo o início do ataque terrestre contra a cidade de Gaza, a Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas sobre os Territórios Palestinianos Ocupados apresentava um relatório que concluía que Israel comete genocídio contra o povo palestiniano na Faixa de Gaza.

 

Impedir a participação dos representantes do povo palestiniano nas Nações Unidas é ilegal e ultrajante

O deputado do PCP, João Oliveira, promoveu uma missiva que foi assinada por 50 deputados, que integram diferentes grupos políticos, onde se denuncia a proibição por parte dos EUA da participação de representantes palestinianos na sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que se realiza este mês em Nova Iorque. Os subscritores instam as instituições da União Europeia a adoptar efectivas medidas com vista a assegurar o acesso e a plena participação dos representantes do povo palestiniano.

A carta, dirigida aos presidentes do Conselho Europeu, da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu, denuncia a intenção da administração norte-americana de suspender a emissão ou revogar vistos a representantes da Autoridade Palestiniana e da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), procurando impedir a sua participação na 80.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque.

A meia centena de deputados subscritores da carta considera, ainda, que esta intenção de Washington, além de ser ultrajante, é ilegal nos termos das obrigações internacionais assumidas pelos EUA e do quadro legal da ONU, nomeadamente no âmbito do “Acordo entre as Nações Unidas e os Estados Unidos da América relativo à sede das Nações Unidas”, de 1947.

No quadro desse acordo, os EUA, enquanto país anfitrião da sede da ONU, estão legalmente obrigados a permitir que os representantes dos Estados membros e os observadores da ONU, incluindo a Palestina, acedam à sede da ONU e participem nas suas reuniões. Tal acordo estipula expressamente, aliás, que «as autoridades federais, estatais ou locais dos Estados Unidos da América não colocarão qualquer obstáculo ao trânsito de entrada e saída do distrito da sede» àqueles representantes.

 



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