- Nº 2706 (2025/10/9)

Autarquias de maioria CDU optam por valorizar mais os trabalhadores

CDU

Palmela, Sesimbra e Seixal são municípios de maioria CDU na Península de Setúbal que decidiram avançar com a aceleração da progressão remuneratória de mais de 1800 trabalhadores municipais. Carlos Faia Fernandes, dirigente do STAL, em entrevista ao Avante!, sublinha que se trata de um acto de justiça e de um investimento estratégico nos serviços públicos.


Que importância tem esta decisão
de avançar com procedimentos de aceleração da posição remuneratória dos trabalhadores?
Esta decisão tem uma importância fundamental, por duas ordens de razão. Primeiro, é um acto de justiça para com os trabalhadores e trabalhadoras municipais, que viram as suas carreiras congeladas durante anos devido às políticas de austeridade. Segundo, é um investimento estratégico na qualidade dos serviços públicos. Ao valorizar quem trabalha, as autarquias estão a valorizar o próprio serviço que prestam às populações.

Estamos a falar de medidas enquadradas na chamada «opção gestionária». Podes explicar em que consiste este instrumento e como se aplica na prática?
A «opção gestionária» é um direito consagrado na lei, mas que, na prática, tem exigido uma grande luta. Este instrumento existe precisamente para permitir que as autarquias possam valorizar os seus trabalhadores, acelerando a progressão na carreira com base nos pontos e menções acumulados na avaliação de desempenho.

No entanto, o STAL sublinha um aspecto crucial: a aplicação deste instrumento não é automática. Depende exclusivamente da vontade política da gestão autárquica. Infelizmente, em muitas câmaras este direito é sonegado aos trabalhadores ou aplicado com critérios restritivos, o que apenas «promove» alguns. Frequentemente invoca-se restrições orçamentais, mas o STAL não aceita essa desculpa quando existem alternativas e, sobretudo, quando há vontade política genuína.

No caso concreto, Palmela contemplou 243 trabalhadores, Sesimbra 541 e o Seixal 1050. Como avalia estes números?
Avaliamos estes números de forma muito positiva. Quando falamos de mais de 1800 trabalhadores abrangidos, apenas nestes três municípios, estamos perante um impacto social e económico significativo.

Revelam que a valorização das carreiras não é aqui um mero discurso, mas uma prática concretizada com meios financeiros e vontade política. É isso que distingue uma gestão que se diz das pessoas de uma gestão que apenas administra «recursos».

As câmaras de maioria CDU distinguem-se nesta matéria?
O que as distingue é, precisamente, a consistência e a prioridade política. Em muitas autarquias, a aplicação destes instrumentos é residual, feita de forma tímida ou até inexistente. Nos municípios da CDU, é uma prática regular e consolidada ao longo dos mandatos. Há um hábito de diálogo permanente com os sindicatos e um entendimento de que trabalhadores valorizados são um dos principais factores para serviços públicos de excelência.

Para os trabalhadores, qual é o impacto concreto?
O impacto é duplo e profundamente positivo. Do ponto de vista material, há uma valorização salarial imediata, que se reflecte no orçamento familiar e no poder de compra – algo crucial nos tempos que correm. Mas, talvez mais importante, é o reconhecimento público do trabalho, da dedicação e da competência. É a sensação de que o esforço é visto e valorizado, o que aumenta a motivação e o orgulho em servir a autarquia.

Estas medidas podem e devem ser aplicadas por todas as câmaras municipais?
Podem e devem, sem qualquer dúvida. A lei é a mesma para todos. O que falta, na maior parte dos casos, é vontade política. Falta a coragem de colocar as pessoas como verdadeira prioridade, desbloqueando verbas orçamentais para este fim. É uma questão de escolhas. Basta olhar para os exemplos já referidos para perceber que é perfeitamente exequível.

A progressão das carreiras é uma reivindicação antiga dos trabalhadores da Administração Local. Que mensagem deixa o STAL ao Governo e às autarquias que ainda não avançaram com estes procedimentos?
A experiência provou que, tal como o STAL reiteradamente denunciou, o modelo do SIADAP (sistema de avaliação de desempenho na Administração Pública) é um instrumento construído para travar e bloquear as progressões, criando um clima de injustiça e arbitrariedade nas avaliações. O SIADAP burocratizou o reconhecimento e transformou o mérito numa moeda de troca, quando não num instrumento de pressão sobre os trabalhadores.

Por isso, a nossa mensagem principal ao Governo é clara: é urgente acabar com o SIADAP e repor um sistema de carreiras e profissões digno, onde a progressão se baseie na antiguidade, na formação e no merecimento objectivo – e não em quotas ou em critérios subjectivos que servem para negar direitos.

Aos autarcas que continuam a esconder-se atrás das supostas «amarras» do SIADAP para não progredirem a carreira dos seus trabalhadores, dizemos que essa já não é uma desculpa aceitável. Os exemplos demonstram que, mesmo no quadro legal actual, é possível fazer opções gestionárias correctas e aplicar mecanismos de aceleração para valorizar os trabalhadores.

Podemos esperar que esta seja uma linha de reivindicação a manter, de modo a garantir que mais trabalhadores tenham acesso a este direito?
Esta é uma reivindicação que nunca abandonámos e que consideramos ter de ser intensificada. A perspectiva do STAL para o futuro imediato é de acção permanente em duas frentes fundamentais.

Em primeiro lugar, ao nível nacional, continuaremos e reforçaremos a luta junto do Governo. O objectivo central é o fim imediato do SIADAP e a reposição de um sistema de carreiras e profissões que garanta progressões dignas, transparentes e justas para todos os trabalhadores da Administração Local. Não vamos recuar nesta exigência, que é condição básica para a verdadeira valorização dos trabalhadores e dos serviços públicos.

Em segundo lugar, e em paralelo, ao nível de cada autarquia, a nossa acção centra-se na exigência de que o direito já consagrado na lei – a opção gestionária – seja concretizado de forma justa e generalizada. Vamos continuar a pressionar e a divulgar as boas práticas para que o exemplo de uns se torne regra para todos.

A luta vai continuar com a mesma determinação. Aos trabalhadores, deixamos a garantia de que o STAL não descansará enquanto houver um só colega a ver o seu direito à progressão travado pela má vontade política ou por um sistema de avaliação injusto.