Projecto 2025, da negação à ditadura

António Santos

A paralisação do governo federal nos EUA, que já entrou na segunda semana, não é só mais um mero impasse orçamental nas guerrinhas entre democratas e republicanos: é o gatilho que dispara uma arma de contra-revolução social que estava guardada, na gaveta do capital, há quase um século.

Republicanos e Democratas concordam ao menos nas causas do “encerramento” do governo: Trump reclamava um brutal encolhimento orçamental das leis de saúde que levam o nome do seu inventor, o Obamacare. Quando os Democratas se recusaram a viabilizar os orçamentos anuais ou a resolução temporária que incluíam esses cortes, o governo federal, ficou, literalmente sem dinheiro.

Até aqui, nada parece substancialmente diferente da história das 11 paralisações federais anteriores: mais de 800 mil trabalhadores “não-essenciais” ficaram em lay-off e muitos mais continuam a trabalhar sem receber; Democratas e Republicanos culpam-se mutuamente; multiplicam-se os jogos de sombras nos corredores do Congresso. A novidade é que, desta vez, Trump tem a faca e o queijo na mão – a paralisação do governo é só uma desculpa para concretizar a sua agenda.

Durante a campanha presidencial, Trump desmentiu quaisquer afinidades com o Projecto 2025, o manual de instruções da tenebrosa Fundação Heritage para privatizar a Segurança Social, erradicar os principais programas de saúde pública, o Medicare e o Medicaid, e desmantelar as principais agências federais. Com a desculpa da paralisação, Trump assume publicamente reuniões com a Heritage para concretizar o Projecto 2025, avança com a possibilidade de despedir todos os trabalhadores em lay-off e já fala em encerrar permanentemente todas as agências federais paralisadas – mesmo que o governo “reabra”.

«Os Democratas deram-me uma prenda» – escreveu Trump na sua rede social – «se calhar esta é a sua maneira de me ajudarem a tornar a América grande outra vez». Deixemos as conspirações para Trump, mas afigura-se óbvio que, em vésperas de eleições intercalares, os Democratas irão ceder: a paralisação do governo é uma greve de congressistas em que são os trabalhadores que perdem o salário. Por outro lado, Trump já admitiu recorrer a meios mais fascizantes para garantir o êxito: anunciou que quaisquer manifestantes que o contestem poderão ser julgados por terrorismo, prometeu invocar a “lei da insurreição” para desobedecer aos tribunais e anunciou a iminente ocupação militar de Chicago e de Oakland.

 



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