António Borges Coelho – homem de causas e de luta

O historiador e resistente antifascista António Borges Coelho faleceu, dia 17, aos 97 anos. O seu funeral realizou-se segunda-feira, 20, em Alcabideche.

«Uma importante perda», assim avalia o PCP o desaparecimento desta figura com uma vida «dedicada à cultura e ao pensamento» , «destacado intelectual, homem vertical, solidário, homem de causas e de luta pela liberdade, pela emancipação social, por um Portugal democrático, de progresso e de justiça».

«António Borges Coelho foi, tomando os versos de Brecht, um homem que interveio ao longo da vida levantando a bandeira dos “condenados da Terra”, daqueles que tinham sido arredados

para as notas de rodapé dos compêndios da história», salienta o Partido em nota do seu Gabinete de Imprensa emitida no mesmo dia do falecimento.

Nela se recorda que o seu primeiro contacto com o PCP ocorreu ainda na sua vila natal – Murça, em Trás-os-Montes -, mas foi através dos colegas da Faculdade de Direito de Lisboa que veio a integrar o MUD Juvenil, de cuja comissão executiva foi membro, tendo participado na campanha presidencial de Norton de Matos.

Integrando as fileiras do PCP em 1949, foi seu funcionário na clandestinidade. Na prisão do Aljube, onde esteve preso, passou «por duras sevícias, que enfrentou com grande coragem até ao julgamento», realça a nota de imprensa, onde se refere que embora «condenado a dois anos e nove meses de prisão, acaba por cumprir seis anos e meio no Forte de Peniche».

«A decisão de Borges Coelho de se desvincular do PCP já depois de reconquistada a liberdade não o impediu de manter um posicionamento de estreita colaboração com o Partido e a sua actividade», salienta-se no comunicado, no qual são enumeradas algumas das suas obras iniciadas ainda no Forte de Peniche e concluídas já em liberdade. Livros como As Raízes da Expansão Portuguesa, apreendido nas livrarias e que o levou a ser submetido a novos interrogatórios pela PIDE, A Revolução de 1383,História de Portugal, bem como a sua visão sobre

Os Lusíadas e Luís de Camões.

Sublinhando que o labor «constante» de António Borges Coelho foi o de «um “operário das Letras” e está expresso na poesia, no teatro, no ensaio e na História, a sua paixão», o PCP faz notar que, apesar das «injustiças e discriminações» a que foi sujeito, «teve uma notável intervenção académica e foi um dos mais distintos intelectuais do nosso tempo».

No entender do Partido, Borges Coelho «“trouxe a arraia-miúda para a história”, a visão não só dos dominantes mas também dos dominados e explorados, chamando também a atenção para o facto de que a “História não é uma linguagem matemática”, “que nela cabem várias texturas, que é uma sinfonia composta de vários sons e tocada em vários instrumentos, num resultado em que o todo é mais que a soma das partes, mas em que para perceber essa mesma História não se pode reduzir tudo ao barulho dos tambores”».

Por fim, depois de salientar o contributo de «grande valor» dado «pelo seu exemplo e pelos seus trabalhos na procura da verdade histórica, para a luta do povo português», o PCP conclui que a vida de António Borges Coelho «dedicada à cultura e ao pensamento e a sua visão histórica são particularmente importantes numa altura em que, face à promoção de forças e projectos reaccionários, se impõe a afirmação dos valores de Abril».

A Universidade do Algarve decretou três dias de luto pelo falecimento do historiador, a quem tinha concedido o título de Honoris Causa em História. O Presidente da República enviou condolências à família e publicou uma mensagem na página oficial da Presidência da República.

 



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