Solidariedade firme pela Paz e a Palestina independente
“Fim ao genocídio, fim à ocupação, a nossa luta é pela libertação”, “De Lisboa à Palestina, acabar com a chacina”, “Israel é violência, Palestina é resistência” e “Palestina vencerá!” foram algumas das palavras de ordem ouvidas na manifestação que, no sábado, desembocou no Fórum Lisboa para um concerto solidário. Esta foi mais uma acção da campanha de solidariedade com o povo palestiniano “Todos pela Palestina! Fim ao genocídio! Fim à ocupação”, que já envolve cerca de 140 organizações de várias áreas de intervenção.
Aderiram à campanha, até ao momento, cerca de 140 organizações de várias áreas de intervenção
A manifestação, iniciada na Praça do Areeiro, culminou a meio da Avenida de Roma, junto ao local onde se realizou o Concerto pela Paz e de Solidariedade com a Palestina, promovido por duas das entidades que dinamizam a campanha, o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) e o Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e a Paz no Médio Oriente (MPPM).
Durante a manifestação, sobressaía também a presença da CGTP-IN e de várias estruturas sindicais nela filiadas e do Projecto Ruído – Associação Juvenil. Às pombas gigantes empunhadas pelos jovens do Ruído somava-se logo atrás um longo pano negro, que incluía os nomes e as idades de algumas (poucas, muito poucas) das mais de 16 mil crianças assassinadas por Israel na Faixa de Gaza nos últimos dois anos. O candidato a Presidente da República, António Filipe, seguiu na manifestação como expressão da sua solidariedade com o povo palestiniano e da defesa de uma solução assente no direito internacional e em sucessivas resoluções das Nações Unidas, que consagram a criação de um Estado da Palestina nas fronteiras anteriores a Junho de 1967, com capital em Jerusalém Oriental e o direito dos refugiados a regressar às suas terras.
Ao longo do percurso, reafirmou-se a exigência de paz no Médio Oriente, uma paz que se quer justa e duradoura, só possível com o fim do genocídio e da ocupação e o respeito pelos inalienáveis direitos nacionais do povo palestiniano – algo que o presente cessar-fogo está longe de assegurar: trata-se, sim, como a dada altura se referiu no Concerto, de uma «pausa entre injustiças». Alcançar esta paz é algo que só a resistência do povo palestiniano (e que poderosa tem sido) e o alargamento da solidariedade internacional poderão concretizar. Quanto a esta última, é certo que se continuará a desenvolver em Portugal, como o demonstra a própria campanha, que não cessa de se alargar com a adesão de novas organizações.
A cultura é uma arma
O que se passou depois no interior do Fórum Lisboa foi bem demonstrativo do poder da música, da arte e da cultura no estabelecimento de pontes entre povos e na exaltação dos mais nobres sentimentos humanos: das danças palestinianas de Handala Dabke à música de raiz popular portuguesa dos Boémia; do hip-hop poético e acutilante de Prétu aos ritmos reggae de Freddy Locks; das baladas emotivas de Jorge Barata à fusão de influências e sonoridades de Expresso Transatlântico, passando pela poesia de Refaat Alareer, Fadwa Tuqa a Vinícius de Moraes, na voz da actriz Joana Figueira. Todos estes artistas aceitaram participar no Concerto de forma generosa e solidária.
Os Handala Dabke foram os primeiros a pisar o palco, não sem antes denunciar que «o cerco continua, um laço que se aperta em torno da própria vida». Quanto à dança, é ritmada e sobretudo intensa, como é a vida dos palestinianos – quer vivam sob ocupação quer se encontrem espalhados pelo mundo, ansiando pelo regresso a uma pátria que, sendo deles, muitos nunca pisaram. O líder do grupo, Nour El Tibi, é ele próprio descendente de refugiados da Nakba.
Depois das intervenções de Isabel Camarinha e Carlos Almeida, respectivamente do CPPC e do MPPM (ver texto nestas páginas), o palco foi de Prétu, alter-ego do rapper Chullage, que partilhou com a extensa plateia a sua solidariedade com o povo palestiniano e a denúncia das precárias condições de vida que tantos enfrentam em Portugal: a Revolução, garante, «não vai ser um tweet, ela vai ser na street».
O artista que se seguiu foi o cantautor lisboeta Jorge Barata, que enfrentou sozinho o vasto público, tendo a acompanhar a sua voz poderosa apenas o ritmo marcado pelas suas palmas – e das muitas outras que, da plateia, logo as acompanhariam. «Negro, bairro negro, onde não há pão não há sossego», cantou, numa magnífica versão do tão actual tema de José Afonso. Com a sua guitarra esteve Freddy Locks, que trouxe ao Fórum Lisboa os ritmos reggae, presença regular quando se trata da solidariedade aos povos vítimas do colonialismo e do imperialismo: cantou o conhecido Get Up, Stand Up, de Bob Marley, uma bem conseguida versão de Traz outro amigo também e um tema original, escrito aos 17 anos, Freedom is My God.
Ainda estavam a subir ao palco e já os Boémia apelavam ao fim do genocídio e à liberdade para a Palestina – um “sonho lindo” como o da canção do Fausto, que interpretariam pouco depois. Ali mostraram também “Nem Jeová vai lá, Palestina”, um single lançado no Verão de 2024, que as rádios «fizeram questão de não passar». A terminar, Expresso Transatlântico fez o que melhor sabe – misturar múltiplas influências para criar novas sonoridades. A raiz é portuguesa, como a guitarra de Gaspar Varela, mas os ramos são imensos, prolongando-se até à música electrónica. Uma das canções partia de Movimento Perpétuo, de Carlos Paredes, que ali estaria com eles – e com todos quantos encheram o Fórum Lisboa –, pois nunca deixou de lutar do lado certo da História.
Palavras que mobilizam
A apresentação do Concerto ficou a cargo da actriz Joana Figueira, presença assídua e activa nas lutas de todos os dias – pela paz, a dignidade e a justiça social: chamou os artistas ao palco e agradeceu a sua generosidade, lembrou o que ali unia tanta e tão brava gente e leu poemas de luta e resistência.
Num deles, de Refaat Alareer, lê-se: «Se eu tiver de morrer/ que isso traga a esperança/ que seja uma história.» Outro, da palestiniana Fadwa Tuqa, afirma com esperança que «os pássaros voltarão/ Sim, os pássaros voltarão com certeza./ Voltarão.» Joana Figueira leu ainda Vinícius de Moraes a lembrar que «Cada uma em seu dia, duas rosas bastaram/ para varrer cento e trinta mil amigos/ (…) O cogumelo venenoso era uma rosa sem rosa, diria o poeta. Nem de espinhos, nem de espinhos essa rosa americana precisou».
A campanha com o povo palestiniano vai prosseguir e termina a 29 de Novembro, com manifestação nacional em Lisboa e no Porto.
A solidariedade não cessa até a Palestina ser livre
Pelo palco do Fórum Lisboa passaram dirigentes das duas organizações promotoras do Concerto. Em nome do CPPC, Isabel Camarinha afirmou que «milhões de pessoas são vítimas da guerra, enfrentam uma realidade dramática e assistimos a uma escalada belicista que desvia biliões para a chamada “defesa” à custa dos direitos dos trabalhadores e dos povos. A Paz é um direito fundamental da Humanidade sem o qual nenhum outro está garantido e é necessário e urgente pôr fim à confrontação e à guerra, seja na Palestina ou na Ucrânia, sejam as ameaças e bloqueios a países soberanos (como está a acontecer na América Latina e Caraíbas, ou com a ocupação como do Sara Ocidental) ou tantos outros conflitos e agressões em muitas partes do mundo».
Carlos Almeida, do MPPM, reafirmou a defesa do «direito à resistência» do povo palestiniano e garantiu não se estar perante um «cessar-fogo», mas sim de uma «pausa para respirar». Além disso, denunciou, Israel não está a cumprir a sua parte do acordo, pois não deixa entrar a ajuda humanitária necessária, continua a efectuar ataques na Faixa de Gaza e entregou cadáveres de prisioneiros palestinianos com sinais evidentes de tortura. Mas a Palestina «não é só a Faixa de Gaza», lembrou. Também na Cisjordânia se intensifica a violência dos militares e dos colonos contra a população palestiniana, acusou.
Ambos exigiram a libertação, por Israel, de Marwan Barghouti, da Fatah, e de Ahmaad Saadat, da Frente Popular de Libertação da Palestina, e garantiram que a solidariedade não cessará até que a Palestina seja livre.
Concerto em Coimbra
O Convento de São Francisco, em Coimbra, acolheu na sexta-feira, 17, um Concerto pela Paz promovido pelo CPPC. Participaram em solidariedade os artistas e grupos Dixie Gringos Jazz Band, Cooperativa Bonifrates, Coro do Ateneu de Coimbra e Grupo Corrente, muito aplaudidos pelos presentes, que em diversas ocasiões entoaram palavras de ordem: «Paz sim! Guerra não!» e «Palestina vencerá!».
Para além da música, houve ainda a leitura de poemas, dois dos quais escritos e lidos por crianças, e a intervenção de Isabel Camarinha, da Direcção Nacional do CPPC, que afirmou a determinação em prosseguir a luta em defesa da paz e pela solidariedade, neste momento de tão graves perigos para a Humanidade. Destacou ainda a importância do alargamento e reforço do movimento da paz em Portugal.




