Poemas, de António Borges Coelho
Neste Poemas, António Borges Coelho mostra-nos um poeta na plenitude da sua voz lírica
António Borges Coelho (1928/2025) nasceu em terras transmontanas de Murça. Será essa condição de transmontano que cedo o levará a percorrer a Lisboa salazarenta dos finais dos anos quarenta, vivendo em quartos de amigos e de bucha curta, que a mesada contada a tostões, mas seguro nos seus objectivos, entrando os portões da Faculdade de Direito com distinto acesso, seduzido pela política, revoltado com o País, verificando que a miséria era em Lisboa tão dura de tragar como no seu rincão serrano, O meu Peito é pedra de montanha/sou a montanha que voa/para o alto, para terra estranha/e do mundo para Lisboa.
Com maior ou menor intensidade emotiva, a sua poesia desde Roseira Verde (1962), até este recentíssimo Poemas (2025), onde o lugar de origem, de Comedores de Pedras (a Belisanda rinhava pedras para enganar a fome), está muito presente em inquieta memória, que abarca, sensitiva, todo o percurso de uma longa vida, pela qual a denúncia da usura, a discriminação, a fome e a violência está presente e nos acossa: Homens divididos/como os dois palmos do chão/nunca se sabe onde acaba a jorna/principia a servidão.
Mas também o amor, esse amor de uma vida pela “sua Isaura”, se fixa no belíssimo poema Cravo Branco, no qual o poeta, então preso na Fortaleza/ Prisão de Peniche, recorda o dia 3 de Janeiro de 1959, data em que se ligou à companheira de sempre: Como está pronta a terra para a semente/assim estavas debaixo do meu braço/os nossos corações estavam tão juntos/que não havia entre eles o menor espaço//Na botoeira do meu fato escuro/pregaste um cravo branco/não sabia que no teu peito/nasciam cravos de uma tal brancura//Um funcionário cansado/leu em voz monótona os papéis/Dissemos – Sim! -/e cumpriram-se as leis.//O Sol deitava bagos de arroz amarelo/ondas pequenas vinham rebentar/na muralha/como garotos endiabrados/a pedir rebuçados//As gaivotas pelo céu piavam/voltei para a cela só olhando o mar/a tua falta era um cravo branco cortado/no meu peito a sangrar.
Pelo caminho, longo e difícil, pontuado por perseguições da PIDE, que o levaram ao encarceramento no Aljube, em Caxias, à funesta Rua do Heroísmo e a Peniche, Borges Coelho, num labor contínuo e prolífico, traz no espólio, no que à literatura diz respeito, para além do livro inicial, outros três livros de poemas, Ponte Submersa, (1969), No Mar Oceano (1983) e Ao Rés da Terra (2001); dois textos de teatro, Príncipe Perfeito, que Rui Mendes encenou, em 1989, e Sobre os Rios da Babilónia (2001); um singular romance, Tempo de Lacraus (1999), que não mereceu, por parte da crítica, a atenção que o tema e a desenvolta capacidade narrativa do autor justificavam. Não contamos aqui a sua produção ensaística e histórica, que é vasta e de qualidade ímpar, mas não podemos deixar de registar quatro incontornáveis títulos: As Raízes da Expansão Portuguesa, A Revolução de 1383, Questionar a História e A Inquisição de Évora.
Poemas, publicado quase em fim da vida do grande homem de Cultura, de que Borges Coelho foi um dos seus expoentes, chegou-me com dedicatória escrita já com mão insegura e trémula. Datada de 13 de Setembro de 2025, é uma súmula do muito que terá ficado por publicar, escolha que sabemos exigente, que percorre, com grande fulgor sintáctico e expressivo, toda a temática glosada em livros anteriores a 1974, dado que neste livro-síntese a voz poética é mais incisiva, sabendo-se liberta da vigilância censória que maculou parte da sua obra poética e ensaística, não deixando de nele incluir dois dos poemas que chamaram a atenção para o seu singular modo poético: Paisagem e Sou Barco, ambos gravados por Luís Cília, Adriano Correia de Oliveira e Manuel Freire.
Poemas divide-se em três grandes espaços temáticos, Amor e Morte, Fortaleza e Ao rés da terra. O amor, a morte de companheiros de jornada e resistência, onde encontramos esse pungente poema Morte em Braço de Prata, em que o poeta descreve a morte de vários operários, aquando de uma explosão na fábrica de material de guerra, em Braço de Prata, poema distribuído, nesse dia trágico (23 de Setembro de 1953), de mão em mão, pelos activistas do MUD juvenil: Gonçalves Ilídio Madeira Ulisses/não vireis mais à porta da fábrica/falar da vida nova a construir/Não mais papéis de seda/jornais de sacrifício. Fotaleza fala-nos desse período longo da clausura em Peniche, mas sem desanimar, sabendo que os dias da liberdade hão-de surgir: O chão do Largo passa no meu corpo/no barco novo cheio de crianças/puxado pelos bois até ao mar/embarcamos as nossas esperanças. Ao rés da terra, o poeta regressa à memória dos dias primeiros, aos dias do vento, da neve e da fome, dos homens que lavravam chão de tojos e de pedras, mas de face levantada: Nem que estejas a mascar de fome/fala como quem come/Se te destapam a fraqueza/que morde na barriga/se te ouvem o dente/que falsamente rilha/ensaiam-te uma festa/poem-te uma cilha.
Neste Poemas, António Borges Coelho mostra-nos um poeta na plenitude da sua voz lírica, transportadora de um olhar solidário e humano sobre a condição dos deserdados, dos seus companheiros de jornada em busca de um país outro, solidário e justo, mas igualmente estruturada em altos padrões de consciência social e cívica, imanente à estética que a sanciona. É a poesia de um homem raro, homem maior do que o País que o não soube merecer. A poesia neo-realista está, pela voz de Borges Coelho viva e actuante – e recomenda-se.




