Juventude tem nas mãos o mundo novo que falta construir
O 13.º Congresso da Juventude Comunista Portuguesa (JCP) irá realizar-se nos dias 15 e 16 de Novembro, no Pavilhão Carlos Queiroz, em Oeiras. Neste momento, em toda a organização é discutido o Projecto de Resolução Política (PRP) do Congresso e são eleitos os delegados. Para falar sobre estes e outros aspectos, o Avante! foi à sede dos jovens comunistas, no Centro de Trabalho Vitória, em Lisboa, onde entrevistou Afonso Beirão, 23 anos, e Inês Guerreiro, 24, ambos do Secretariado e da Comissão Política da Direcção Nacional (DN) da JCP.
O que é que se vai decidir no Congresso e qual a sua importância para a JCP?
Inês Guerreiro (I.G.): O Congresso é o órgão máximo e o momento mais alto da vida da JCP, fundamental para estruturar a organização, aprofundar o conhecimento dos camaradas sobre o seu funcionamento e desenvolver a reflexão. Isto, paralelamente a uma dinâmica de reforço da JCP, com 700 novos militantes e 70 novos colectivos [organizações de base da JCP], responsabilização e formação de quadros… E tem sido um Congresso, também, ligado ao dia-a-dia da juventude, com iniciativas que passam, por exemplo, pela mobilização para a manifestação de dia 28 [ver pág. 9] ou a marcha contra o pacote laboral. Há uma construção que vai além da JCP e que está no seu papel na dinamização da luta.
Afonso Beirão (A.B.): O Congresso parte da definição de 13 objectivos [ver caixa] que permitiram construí-lo ligado à vida e à juventude, estruturar a organização e reforçar a nossa intervenção, nomeadamente junto de prioridades como o Ensino Secundário. A dinâmica de discussão do PRP também foi fundamental, pelo envolvimento que teve de centenas e centenas de militantes e amigos. O documento que a DN irá propor ao Congresso é a síntese da discussão colectiva.
Porque é que o Ensino Secundário é encarado como uma prioridade para a JCP e como é que a organização está a actuar face a essa tarefa?
I.G.: A maioria dos jovens passa por lá, muitos deles filhos de trabalhadores. Depois, é uma camada que ainda está a moldar a sua personalidade e, por isso, é mais aberta à intervenção da JCP. Tem, também, uma grande solidariedade e vontade de luta, sendo possível desenvolver acções de luta muito grandes em muito pouco tempo. Além disso, é uma fase da vida em que ainda não abdicaram dos seus sonhos e é mais fácil ver o mundo novo.
Falaram em 700 recrutamentos e 70 novos colectivos. Tem sido tarefa fácil? Como tem sido a adesão da juventude?
I.G.: A nossa intervenção nunca é fácil, mas diria que isto é fruto de um esforço muito grande de ir ao encontro dos outros, desconstruir preconceitos e ter uma presença regular, contínua e permanente, com o trabalho militante de centenas de camaradas que levantam nomes a recrutar, vão à procura e perguntam «queres fazer parte da JCP?». Essas experiências têm revelado que muitas vezes fazemos essa pergunta menos vezes do que podíamos. Também damos muita importância aos colectivos, pois é necessário que os nossos camaradas percebam que não estão sozinhos, que há um espaço onde podem discutir, evoluir e construir com os outros.
A.B: O número de inscrições e colectivos que se constroem revelam que, mesmo nas condições políticas difíceis em que intervimos, é possível ir mais longe, há muita disponibilidade e há muitos jovens disponíveis a inscrever-se na JCP e, por isso, contribuir para o desenvolvimento da luta. Não há acção de luta consequente em Portugal que não tenha a contribuição dos jovens comunistas.
Qual é a importância da Resolução Política do 13.º Congresso, cujo projecto agora se discute, não só para a JCP, mas para a juventude em geral?
A.B.: No processo de construção do PRP, para além da avaliação das situações internacional e nacional, temos uma segunda parte que procura responder à pergunta «o que fazer?». E o PRP propõe vários caminhos, identifica debilidades e, a partir delas, traça o caminho que precisamos trilhar. No Secundário, o papel dos comunistas é serem audazes e agir na criação e dinamização de associações de estudantes (AE). No Profissional, é estruturar a organização. No Superior, é intensificar a intervenção nos politécnicos e reforçar a dimensão reivindicativa do movimento associativo. Na juventude trabalhadora, é reforçar o número de jovens operários, com a possibilidade de avançar para mecanismos de articulação nacional. Há também o AGIT, jornal da JCP, que terá uma edição alusiva ao aniversário e ao Congresso da JCP.
I.G.: O PRP é uma ferramenta não só para os jovens comunistas, mas para a juventude em geral. Nós hoje vivemos num tempo em que ninguém pergunta a um jovem o que é que acha sobre a escola, o bairro ou o mundo. Que jovem é que está habituado a participar num momento de discussão sobre o que fazer, como intervir, que papel podemos ter na nossa vida? Não só isso não é estimulado, como é uma coisa que é cada vez mais combatida, apagada e contrariada, porque quando os jovens fazem isto, chegam a conclusões que não interessam ao capital.
Após as legislativas, houve a necessidade de uma adenda ao PRP. O que é que esta adenda acrescenta de novo?
A.B.: O Congresso estava marcado para Maio e teve que ser adiado para Novembro por causa das eleições. Neste período, houve desenvolvimentos na situação política internacional e nacional significativos, como a situaçõa na Palestina ou a correlação de forças saída das legislativas. Em face disso, decidimos acrescentar uma adenda que, na proposta da DN ao Congresso, já vão estar incorporados no texto. Isto não altera qualitativamente a avaliação, mas são elementos que, nalguns aspectos, a comprovam.
Qual o papel que a JCP atribui ao movimento juvenil e a importância da unidade da juventude?
A.B.: A juventude é uma camada heterogénea e o movimento juvenil tem várias expressões (como AE, associações locais ou comissões de festas). Mas é possível identificar interesses e problemas em comum, como o fim de exames, das propinas ou da precariedade. O desafio é, a partir do desenvolvimento da luta e da capacidade de intervenção da JCP, criar uma ampla unidade do movimento juvenil em torno da luta pelos seus interesses concretos. Hoje estamos em melhores condições para contribuir para o desenvolvimento dessa luta, mas há muito caminho por fazer.
I.G.: É muito disto que o Beirão disse. Quem conhece a juventude chega à conclusão de que o que é natural é os jovens juntarem-se para lutar contra as injustiças, e todas estas reivindicações, que apontamos no PRP, e esta realidade que caracterizamos, são identificadas pela juventude. Só que há, simultaneamente, uma campanha e um investimento muito grandes no sentido de condicionar estas características naturais de unidade, força, espírito de iniciativa e solidariedade, porque se reconhece no movimento juvenil um grande potencial para a transformação da realidade. E é uma campanha que é cada vez maior. Mas é preciso valorizar muito a intervenção e a coragem que todos os jovens comunistas têm demonstrado na defesa e afirmação destas características. Efectivamente, às tantas, chegamos a uma situação em que, se não fosse a JCP, quase que a juventude não era autorizada a sonhar e a aspirar a um mundo melhor. Aliás, é isso que diz o lema do Congresso, «Nas nossas mãos o mundo novo».
A.B.: Acho que há um aspecto importante, até indo ao encontro do que a Inês estava a dizer, que é a forma como a JCP se insere no movimento juvenil. Ou seja, a JCP, sendo a organização juvenil do PCP, é também parte constitutiva desse movimento. É uma parte essencial para a dinamização do movimento juvenil e isto coloca, também, a responsabilidade dos jovens comunistas de agir de forma aberta, descomplexada, com os outros, no movimento juvenil. Não perguntar «quem é que tu és?», «de onde é que vens?», «o que é que tu pensas?», mas «quais são os teus problemas?» e «como é que nos vamos poder juntar para os resolver?». Isto é a postura da JCP no movimento juvenil e que precisamos de intensificar ainda mais.
I.G.: Sim, e também há uma coisa que é muito impressionante: apesar de todas as injustiças, que são cada vez maiores, há uma característica muito presente no movimento juvenil, e que está também muito presente na construção do Congresso, que é uma grande alegria na luta. Há, efectivamente, uma felicidade em estarmos juntos. E acho que essa alegria também está associada a esse mundo novo que falámos.
A JCP foi há pouco tempo eleita para a presidência da FMJD. Também há pouco tempo foi anunciada a realização, em 2026, de uma nova edição do Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes. Qual é hoje, para a JCP, a importância da FMJD?
A.B.: Nós olhamos para o mundo e vemos o que está a acontecer na Palestina, milhares e milhares de mortos na Ucrânia, a ameaça militar sobre a América Latina… Isto só coloca em cima da mesa, de forma mais clara, a centralidade da luta anti-imperialista. A FMJD é a ferramenta mais importante que a juventude de todo o mundo tem, pela capacidade de juntar organizações tão diferentes e de manter o seu carácter unitário e anti-imperialista. O facto de a JCP ter avançado para a presidência da FMJD e ter sido eleita por unanimidade reflecte o prestígio da JCP. E a decisão do conselho geral da FMJD de convocar, por consenso alargado, o Festival Mundial da Juventude e Estudantes, o 20.º, em Caracas, na Venezuela, demonstra também a contribuição decisiva que a JCP tem no movimento anti-imperialista. É graças à contribuição da JCP que podemos estar a discutir que, em 2026, ao fim de nove anos desde o último Festival, em 2017, se realize um Festival Mundial, num território em que o imperialismo coloca como prioridade uma ofensiva visando atacar o projecto soberano que existe hoje na Venezuela. Nós estamos completamente empenhados no desenvolvimento da actividade da FMJD e na construção de um grande Festival, que não são só os cinco ou seis dias em que milhares de jovens do mundo se reúnem em Caracas. Não é só isso, é o processo que em todos os países os comités nacionais preparatórios do Festival vão desenvolver, designadamente em Portugal, com actividades de vários tipos, com acções e debates, contribuindo para que muitos e muitos jovens se juntem à luta anti-imperialista, pela paz e contra a escala armamentista, com o objectivo de derrotar o imperialismo e construir, finalmente, a paz.
Algumas palavras finais?
A.B.: A única coisa que diria mais é que o Congresso da JCP é um sinal de vitalidade dos valores de Abril na juventude e de vitalidade do nosso projecto, e creio que o Congresso e o PRP exemplificam muito bem que, hoje, lutar pelos valores de Abril e o socialismo é, no Secundário, lutar contra os exames, no Profissional, pelo fim do regime punitivo de faltas e da sobrecarga horária, no Superior, contra a propina, e nos jovens trabalhadores, contra o pacote laboral. A relação que se cria entre as reivindicações imediatas e os objectivos mais profundos da JCP é um sinal da sua capacidade de se afirmar como a organização revolucionária da juventude portuguesa.
I.G.: Há uma coisa que podemos dizer, e que também está muito presente na construção do Congresso, que é um orgulho dos camaradas e dos militantes da JCP de serem comunistas e fazerem parte do nosso Partido, do nosso projecto. Isso também faz com que os camaradas tenham a entrega que têm. Acho que isso é uma coisa que está presente, o orgulho de sermos quem somos e de termos o papel que temos, seja no passado, no presente ou no futuro.
O texto do PRP e o formulário de inscrição para o 13.º Congresso podem ser obtidos nas redes sociais da JCP.
13 objectivos
Construir o Congresso em ligação à realidade, vida, dinâmicas e reivindicações da juventude; afirmar a organização do Secundário como prioritária; reforçar a organização no Profissional e Politécnico e progredir na intervenção junto dos jovens trabalhadores; novos recrutamentos e reactivação ou criação de colectivos de base; avançar na estruturação das organizações regionais; fortalecer o carácter de massas da JCP; discutir e definir locais prioritários de intervenção; desenvolver o trabalho em unidade no movimento juvenil; avançar nos hábitos regulares de recolha financeira; defender os direitos e liberdades e combater a ofensiva ideológica; reflectir sobre o papel, estruturação e massificação do AGIT; e afirmar os valores de Abril e do projecto e ideal comunistas.




