- Nº 2709 (2025/10/30)
Na próxima semana, 42 milhões de pessoas, entre as quais 14 milhões de crianças, estarão em risco de fome no país mais rico do mundo. A administração Trump sequestrou os 13 por cento da população dos EUA que depende do Programa de Assistência Nutritiva Suplementar (SNAP) e já fez saber que, a partir de 1, não alimentará os reféns até o Partido Democrata (PD) aceitar as suas condições. Mas de pouco servem os reiterados apelos dos congressistas democratas a um “acordo bipartidário” que permita reabrir o governo federal paralisado há um mês: isto já não é só sobre o tamanho dos cortes que os republicanos exigem nem sobre a escala dos subsídios do Obamacare de que os democratas não abdicam. A fome tem objectivos mais vastos.
No início do shutdown, o Departamento da Agricultura (USDA na siga em inglês) fez saber que dispunha de 6 mil milhões de dólares em fundos de contingência para manter o SNAP a funcionar durante o mês de Novembro, mas rapidamente concluíram que esses fundos só podem ser usados em “emergências” que não sejam as carências de 14 milhões de pessoas. «Basicamente, o poço secou», pode ler-se no site do USAID, «aproximamo-nos de um ponto de inflexão para os senadores democratas. Podem continuar a fazer finca-pé pelo acesso a cuidados de saúde dos imigrantes ilegais e pelas operações de mutilação de género [sic] ou podem reabrir o governo para que mães, bebés e os mais vulneráveis recebam assistência nutricional crítica».
Mas a realidade é que o governo federal não “fechou” nem está “paralisado”. Está simplesmente recentrado nas suas funções principais: a repressão e a guerra. Em plena paralisação, à beira da maior crise de alimentação desde a Grande Depressão, a Casa Branca foi capaz de realocar 8 mil milhões de dólares (suficiente para mais de um mês de SNAP) para pagar salários nas Forças Armadas, a que se somou a contribuição de um bilionário anónimo doou outros 130 milhões para reforçar a segurança salarial dos soldados. Só com o custo do porta-aviões USS Gerald Ford (18 mil milhões), que, a meio da paralisação foi enviado para o Caribe para intimidar a Venezuela, os EUA poupavam o seu próprio povo da penória durante três meses.
A expansão da fome estava já garantida desde que, há dois meses, foi aprovado um corte de 180 mil milhões de dólares ao longo da próxima década ou quando, mais recentemente, se estreitaram as condições de elegibilidade ao SNAP, deixando sem pão cerca de metade de todos os actuais beneficiários que, quando o governo federal reabrir, continuarão a passar fome.
A fome de milhões de pessoas é mais do que uma arma nas mãos dos segmentos do grande capital que agora dominam a Casa Branca para garantir a capitulação definitiva do Partido Democrata e dos respectivos capitalistas para cumprir a sua visão do sonho neoliberal. Também ambiciona criar uma situação social e política tão incomportável que abra caminho, por meios anti-constitucionais, a uma ditadura que consiga travar a luta de massas gerada pelo incremento da exploração e pela transferência de mais recursos e vidas para a máquina da guerra.
Steve Bannon, estratega de Trump e ideólogo do fascismo internacional, já assumiu que existe um plano para manter Trump no poder para além do último mandato constitucionalmente possível. Em entrevista ao The Economist, disse: «Estamos numa guerra política. No final de contas quem manda somos nós.» O único poço que secou é o da democracia. Eles já não conseguem continuar a governar como sempre fizeram.