Não existem «assuntos encerrados» para os estudantes
No dia da votação do Orçamento do Estado, 28, e sob um forte temporal, largas centenas de estudantes marcharam do Rossio até ao Parlamento, em luta contra o aumento da propina e pela gratuitidade do Ensino Superior. Sob o mote “Ninguém fica para trás! Gratuitidade já!”, estudantes de todo o País recusaram as intenções do Governo e exigiram o caminho de Abril.
estas opções «não são inevitáveis e têm de ser revertidas»
Os estudantes do Ensino Superior voltaram a mostrar toda a sua força na passada terça-feira, em mais uma manifestação nacional. Tal como têm feito por várias vezes ao longo dos últimos anos, os jovens seguiram firmes e convictos da justeza das suas reivindicações: a grande luta de há um ano travou o anunciado aumento das propinas, cujo perigo regressa hoje pelas mãos dos mesmos executantes.
Na manifestação de anteontem, participaram dezenas de associações de todo o País: do Algarve a Trás-Os-Montes e Alto Douro, passando por Coimbra, Minho e muitas outras instituições. Fica cada vez mais claro que a força do movimento associativo estudantil é tão mais expressiva quão mais ligadas estiverem as suas acções às aspirações daqueles que frequentam o Ensino Superior. O aumento das propinas, que para o ministro da Educação Fernando Alexandre é um «assunto encerrado», foi um dos principais catalisadores para o desenvolvimento desta luta. A prepotência e arrogância deste Governo que, com muita pressa, quer privatizar o ensino no País, bateu de frente com a resistência daqueles que se recusam a abdicar do seu futuro.
Pouco depois da hora de almoço, eram já muitos os autocarros que se encaminhavam para o Rossio, assim como estudantes que, a partir das faculdades de Lisboa, se começavam a concentrar. Entre eles, os estudantes da FCSH-UNL, casa de uma das associações subscritoras do apelo “Ninguém fica para trás. Gratuitidade já!” e organizadoras da manifestação. Os estudantes desta faculdade, enquanto rumavam ao metro de São Sebastião, erguiam duas grandes faixas: numa delas, deixavam uma clara mensagem ao Governo: «Derrotámo-los no passado. Derrotaremos novamente.»
Já no Rossio, concentravam-se centenas de jovens que afirmavam que «a propina é para acabar, não é para aumentar» e que «se aumenta tudo, aumenta a luta»! Por volta das 15h00, assim que a chuva se voltava a intensificar, seguiram caminho, enchendo a Rua do Carmo com a sua força.
Misturando cartazes, impermeáveis, faixas e guarda-chuvas, os estudantes seguiam preenchendo as ruas, tornando-se o foco de atenção de centenas de pessoas que, abrigadas da chuva, filmavam esta impressionante marcha, rendidas à sua resistência.
«Faça sol ou a chover, a luta vai acontecer» – assim se afirmou e assim foi, num dia que certamente ficará para a história da luta dos estudantes do Ensino Superior.
À chegada, já em frente da Assembleia da República, onde os estudantes foram saudados pelo Secretário-Geral do PCP, intervieram dois dirigentes associativos. Joana Regadas, da Académica de Aveiro, afirmou que «muitas vezes o ensino é descurado», mas os estudantes «estão presentes e exigem mais», até que o «ensino seja para todos». Já Guilherme Vaz, presidente da AEFCSH, na sua intervenção, falou por todos os estudantes do País quando gritou que «não vamos permitir que aumentem a propina»! «Não nos esquecemos, não permitimos que nos façam de tolos.»
O que irá o Governo dizer aos milhares de estudantes que construíram esta luta durante mais de um mês e às centenas que saíram à rua no dia 28 de Outubro? Independentemente da resposta, conhecida já à partida, uma coisa é certa: os estudantes do ensino superior continuarão a afirmar convictamente o caminho que se exige, independentemente dos ventos e contrariedades que tiverem de enfrentar.
Em todo o lado se luta
Esta grande manifestação esteve longe de ser uma marcha convocada por decreto ou um desfile de dirigentes associativos. Bem pelo contrário. Ao longo dos últimos meses, os estudantes do Ensino Superior têm construído este dia nas suas escolas, seja esclarecendo através do contacto e denunciando as intenções do Governo com o aumento da propina, seja também na construção de várias acções de luta que contribuíram para o engrossar de um caudal de contestação que se quer cada vez maior e que, tendo culminado a 28 de Outubro, não se esgota nessa manifestação.
Desde manifestações em Coimbra e no Porto com centenas de estudantes, concentrações na Universidade do Minho, na ESAD.CR, FLUL e FLUC a manifestações e tribunas na Universidade de Aveiro, Universidade da Beira Interior e FPCEUC, foram muitos os momentos reivindicativos que precederam a manifestação nacional da passada terça-feira.
Continuam a crescer as fileiras daqueles que reconhecem na luta organizada e em unidade o único caminho possível para a concretização dos seus anseios e o combate às injustiças. Sendo como sempre foram, criativos, ousados e corajosos, serão certamente cada vez mais.
Derrotar esta política
No apelo que lança a campanha “Ninguém fica para trás! Gratuitidade Já!” ficam claras as posições dos estudantes do Ensino Superior. Confrontados com uma política elitista e de retrocesso social, reafirmam o caminho de Abril, com uma política educativa radicalmente diferente e verdadeiramente democrática. Este apelo foi construído de forma ampla pelo movimento associativo estudantil, tendo sido subscrito pelas associações de estudantes da FCSH-UNL, FLUL, FBAUP, ISPA, ESML, ESAD.CR, ESCT, FPIE-UL, IST, FBAUL e ESES.
Neste documento, os estudantes apontam o caminho – «a gratuitidade, mais alojamento estudantil público (cumprindo e alargando o PNAES), o reforço verdadeiro da acção social escolar e uma gestão democrática das instituições». Contrárias a estas exigências são as intenções do Governo, que procura «elitizar e privatizar ainda mais o Ensino».
Contrariando a narrativa dominante que se deseja afirmar, os estudantes sabem muito bem que estas opções «não são inevitáveis e têm de ser revertidas». Sabem também que só «com a luta e com a unidade de todos os estudantes» se podem desbravar os trilhos que se procuram caminhar, os trilhos que consagrarão, finalmente, a construção de um Ensino Superior Público, Gratuito, Democrático e de Qualidade.




