O imperialismo e o imobiliário

Filipe Diniz

O economista Michael Hudson cunhou a sigla FIRE (Finance, Insurance, Real Estate – Finança, Seguros, Imobiliário). Define-os como a encarnação actual do sector rentista do capitalismo. Se, no seu tempo, Lénine se referia ao rentista como o que “não tem qualquer espécie de participação seja em que empreendimento for, cuja profissão é o ócio”, hoje haveria coisas a completar para a caracterização do FIRE.

Participa – e de que maneira – nos mais criminosos empreendimentos do imperialismo. No seu conjunto, e com particular destaque para o imobiliário, é hoje uma das componentes mais destrutivas da acção do capitalismo. É exemplo extremo da “construção destrutiva” (as nossas áreas metropolitanas que o digam). Constrói vazio sobre a destruição de tecido e vida urbana, de actividade produtiva, de laços sociais.

O genro de Trump, Jared Kushner, e a mulher Yvanka, compraram a ilha Sazan na costa da Albânia. Vão investir aí 1,4 milhares de milhões num “resort de luxo”. A ilha, que foi uma instalação militar, está juncada de placas avisando da existência de minas no terreno. O serviçal governo albanês dispõe-se a tratar da desminagem.

O mesmo Kushner, um sionista militante, propõe também a “Singapura no Mediterrâneo” ou “Riviera de Gaza”. Terá tido ajuda na concepção desse obsceno projecto, entre outros, da consultora de Tony Blair, que Trump propôs para o “governo tecnocrático” que faria a gestão da faixa. A tarefa de Israel para viabilizar tal “Singapura” é mais complexa que a albanesa: o genocídio e o arrasar do terreno à bomba prosseguem, mas restaria um colossal e muito perigoso trabalho de retirada do entulho: este está misturado com dezenas de milhares de bombas e granadas não detonadas.

Seria difícil encontrar melhor ilustração de como o capitalismo financeirizado opera sobre ruínas e cadáveres. Mas também de como um dia o terreno há-de rebentar-lhe debaixo dos pés.



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