Mamdani e o termómetro de Engels

António Santos

Engels uma vez escreveu que, no sistema capitalista, as eleições são, mais do que qualquer outra coisa, «um termómetro da maturidade da classe trabalhadora». A eleição de Zohran Mamdani para a presidência da cidade de Nova Iorque é extremamente interessante, não por aquilo que o novo autarca individualmente é, mas porque o termómetro de Engels revela que alguma coisa mudou.

Sim, Mamdani é só um social-democrata, mas a política estado-unidense guinou tanto à direita que defender transportes públicos gratuitos, o direito à saúde ou rendas mais baixas, bastou para que fosse apelidado de «comunista» por Trump, que ameaçou, caso Mamdani vencesse, deportar o novo presidente, invadir militarmente a cidade e congelar todos os fundos federais.

Sim, Mamdani é membro do Partido Democrata (PD), o mesmo partido imperialista de Truman, Lyndon B. Johnson, Clinton, Obama e Biden que desiludiu a classe trabalhadora estado-unidense tantas vezes quantas nele ela confiou. Mas também é verdade que Mamdani foi eleito através de um autêntico movimento de massas, que derrotou toda a estrutura interna, a direcção e o financiamento milionário dos capitalistas da cúpula do PD, empurrando uma figura desconhecida para uma arena cuja arquitectura eleitoral só admite dois partidos.

Não, Mamdani não é comunista nem revolucionário, nem sequer anti-imperialista lhe podemos chamar, mas assume-se “socialista” numa cidade cuja cara é o símbolo do capitalismo num país em que o socialismo está a ser criminalizado. Quem o elegeu foi um milhão de trabalhadores das zonas mais pobres da cidade, que decidiram, numa afluência às urnas que não se via há 50 anos, rejeitar todo o lobby sionista, o genocídio na Palestina e a administração Trump, as políticas neoliberais que governam a cidade há décadas.

A experiência da administração de Mamdani ao leme da maior cidade dos EUA pode muito bem acabar numa cooptação pelo grande capital ou até num falhanço encomendado pela liderança do PD e por Trump, para demonstrar que “o socialismo não funciona”. Mas também pode resultar numa vitória controlada, com várias conquistas sociais que demonstrem a capacidade do capitalismo ceder e se adaptar sem se partir. Até é possível que a luta de classes empurre Mamdani para uma ruptura que requeira horizontes mais ambiciosos. O próprio Mamdani, numa entrevista recente, admitiu que será a luta das massas, nas ruas, a decidir que retrocessos e avanços, que lutas e que cedências, a sua liderança assumirá.

A luta dos trabalhadores nunca nasce de um balão volumétrico, asséptico e desinfectado. É um ser vivo que cresce, comete erros, sofre, aprende e, acreditando no termómetro de Engels, às vezes amadurece.

 



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