Recuos dos EUA na “guerra comercial” contra a China revelam perda da hegemonia

O mundo unipolar, em que o imperialismo norte-americano ditava as regras a seu bel-prazer, pode ser já passado. Os últimos desenvolvimentos da “guerra comercial” contra a China, impulsionada pela administração Trump (que agravou a retórica e as medidas dos seus sucessores), parecem indiciar isso mesmo.

Os EUA recuaram em muitas das medidas que tinham imposto

As declarações do presidente norte-americano após o encontro com o líder chinês Xi Jinping, na Coreia do Sul – o encontro foi “espectacular”, “um 12 numa escala de zero a 10”, garantiu Trump –, devem ser relativizadas.

Da reunião saiu, para lá de promessas de visitas mútuas em breve, a suspensão por um ano das medidas restritivas impostas pelos EUA, primeiro, e pela China, depois: os EUA reduzem de 20 para 10 por cento as tarifas adicionais impostas a produtos chineses e a China suspende a tarifa adicional de 24 por cento que havia imposto em represália pela iniciativa norte-americana, mantendo em 10 por cento a taxa geral de importação.

A China suspendeu ainda as tarifas sobre a soja e outros produtos agrícolas norte-americanos, como gesto adicional de “boa vontade”, e adiado fica igualmente o controlo mais apertado sobre a exportação das chamadas “terras raras” (essenciais para os sectores tecnológicos), decidido pela China em resposta às medidas de restrição norte-americanas.

As principais cadeias mediáticas apresentaram este acordo como uma “cedência mútua”, da mesma forma que se referem a uma guerra comercial “entre” dois países – e não, como é na realidade, uma guerra imposta pelos EUA contra a China, que sempre condenou este tipo de práticas e se limitou a responder às restrições que lhe eram colocadas. Ainda em meado de Outrubro, semanas antes da reunião entre Donald Trump e Xi Jinping na Coreia do Sul, as autoridades chinesas reafirmavam a sua posição relativamente à chamada “guerra comercial”: «Seremos firmes se formos forçados a lutar e estamos abertos a negociações.»

Efeito bumerangue”
Uma questão poucas vezes referida, embora central, é o chamado “efeito bumerangue” de muitas das sanções norte-americanas, com consequências mais graves para quem as impõe (ou para os seus aliados) do que àqueles a quem são dirigidas: a Câmara de Comércio da União Europeia na China lamentou as consequências da chamada “guerra comercial” e dos próprios EUA chegavam sinais preocupantes, como o aumento do custo de vida, o agravamento do défice comercial ou a desvalorização do dólar. O recuo da administração Trump tem de ser visto a esta luz.

Do lado da China, as tarifas não terão tido os efeitos desejados pelo imperialismo: se é certo que até Setembro as exportações chinesas para os EUA caíram de 47 mil milhões (em igual período do ano anterior) para 34,4 mil milhões de dólares, não deixa de ser verdade também que as exportações chinesas registaram um aumento considerável este ano – na ordem dos seis por cento –, com o crescimento significativo do comércio com outras regiões e países. A China compensou por exemplo a diminuição das importações de soja e carne de vaca dos EUA com a aquisição destes mesmos produtos noutros locais.

 



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