A precariedade não causa habituação

Margarida Botelho

Cotrim de Figueiredo foi questionado sobre o pacote laboral e teve uma tirada de antologia: «a precariedade não é em si uma fragilidade. É só uma habituação à mudança.»

Cotrim apresenta-se como fresco e moderno, grava tiktoks, escreve “imagina Portugal” nos cartazes. Mas tem uma cabeça velha. Defende o que de mais antigo existe no mundo. Como o resto da direita, AD e Chega incluídos.

Talvez Cotrim pense que o mundo é feito de pessoas com uma história de vida como a sua: nascido numa família que vivia da empresa fundada pelo bisavô, andou na Escola Alemã dos 4 aos 18 anos e tirou o curso em Londres. Diz que trabalha desde os 15 anos – mas na empresa da família. Foi administrador na Compal, CEO da holding do BPP, director-geral da TVI e presidente do Turismo de Portugal, quando o ministro da Economia era Pires de Lima, com quem tinha estado na Compal. Tudo por meritocracia e por ter um mindset adaptado à mudança, claro.

A precariedade que o pacote laboral traz não é a dos filhinhos das famílias que Cotrim defende, que tiram cursos em escolas privadas pagas pelos papás, estagiam nas empresas dos amigos, casam bem, fazem pausas para repensar as carreiras e recomeçar noutras empresas de outros amigos. Para as pessoas que não são da classe de Cotrim, a precariedade significa ficar desempregado regularmente, não conseguir ter casa, fazer planos ou ter filhos. Significa que despesas como comer fora, comprar sapatos ou levar os miúdos ao cinema são quase sempre impossíveis. Significa que uma doença, um acidente ou o fim do contrato são uma porta directa para a pobreza. Significa que o desespero do fim do mês leva a aceitar horários selvagens, trabalhos penosos, distâncias impossíveis, salários indignos.

Talvez Cotrim não consiga sequer imaginar, mas é exactamente dessa sua “adaptação à mudança” que estamos todos fartos. A estabilidade pode ser um tédio para quem sempre teve tudo. Mas é onde a vida começa para quem nunca teve nada.



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