- Nº 2713 (2025/11/27)Cerca de três centenas de pessoas assistiram, no dia 21, ao concerto «Camões, expressão cultural de um mundo em mudança». A iniciativa foi promovida pelo PCP no Conservatório de Música de Coimbra e nela participaram quase 20 artistas de diferentes áreas e expressões culturais.
O concerto de sexta-feira foi uma das muitas iniciativas do vasto programa próprio que o PCP decidiu levar a cabo, em 2024 e 2025, em torno das comemorações do V Centenário do nascimento de Luís de Camões. Entre dezenas de exposições, debates e colóquios, o nascimento do ilustre poeta português foi celebrado pelos comunistas, até porque, como explicou Paulo Raimundo na abertura do concerto, comemorar Camões é «também contribuir para fazer mais forte a nossa forte gente». Comemorar Camões é, considerou o Secretário-Geral do Partido, «afirmar o pensamento avançado, descobrir e respeitar as diferenças culturais, dar combate às injustiças e desigualdades, é afirmar a cooperação, solidariedade, respeito e soberania dos povos, fazer frente à guerra e lutar pela Paz».
«É justo questionar como é que, com tanta coisa para fazer e em tempos tão difíceis, que exigem tanto e cada vez mais de todos nós, tempos de aperto na vida da maioria dos jovens, mulheres, trabalhadores e reformados, tempos de injustiça, promoção de ódio, divisão, de incertezas, perigos e de desesperança para o povo, por que razão o PCP se lança de forma tão profunda e empenhada nas comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões», observou.
«Pois bem», retorquiu, «avançamos com estas iniciativas porque Camões é, como afirma o lema das comemorações, o “poeta do povo num mundo em mudança”». «Avançamos», continuou, «pela sua actualidade e porque é fundamental que o povo conheça a obra do poeta que lhe deu voz, porque é imperativo intervir pela verdade histórica que confronta a mentira e a manipulação».
Camões foi manipulado
pelo fascismo…
«A obra de Luís de Camões foi manipulada pelo fascismo, procurando com ela dar cobertura ideológica a um regime opressivo e ao colonialismo com tudo o que o envolve», acusou Paulo Raimundo. No entanto, assegurou, Camões «não é o poeta dessa gente», nem do «medo, do individualismo, da resignação, manipulação de consciências, da censura, repressão» ou do «terror». Camões é, antes, do «Renascimento, desse pensamento novo que confronta o velho pensamento dogmático de classes dominantes que procuraram reprimir e conter, nomeadamente através da Inquisição». O poeta, explicou o dirigente comunista, «nunca foi protegido pelo poder nem pelos privilegiados do seu tempo».
Camões é o «poeta da aventura portuguesa nos oceanos, da descoberta mútua e das relações entre os povos, das trocas comerciais e culturais, das novas rotas, novas estrelas e dos novos céus. É o poeta do aguçar dos sentidos, das capacidades de descrição, do raciocínio, experimentação e do conhecimento», salientou.
… mas o seu lugar
é junto do povo
«Assinalar Camões, pelo que foi, o que representa e quem representa na sua obra, é dar um contributo para o combate a ideias e concepções retrógradas, reaccionárias e bafientas que alguns procurar recuperar e difundir», afirmou Paulo Raimundo. «Mas é mais», assegurou, é «dar voz a esse povo por ele sempre exaltado, esse povo que lutou para defender a independência nacional, esse povo que com as suas mãos contraria sempre, mais cedo ou mais tarde, o conformismo que alguns querem impor».
«Comemorar Camões e a sua obra é lembrar sempre que as lutas de hoje – pelos salários, pensões e os direitos, contra o pacote laboral e na construção da greve geral, pelo direito à habitação, saúde, escola pública, à cultura – se inscrevem no mesmo processo histórico de denúncia e combate às injustiças e desigualdades em que Camões, ressalvada a diferença de contexto e de tempo, se inseriu de forma extraordinária», salientou por fim.
No final do concerto, Vladimiro Vale, membro da Comissão Política, dirigiu vários agradecimentos, nos quais incluiu os artistas e técnicos envolvidos no espectáculo, o próprio conservatório, entre outras entidades e pessoas, como João Monge.
Concerto diversificado
e de qualidade
No palco do Conservatório de Coimbra estiveram cerca de duas dezenas de artistas, das mais variadas expressões culturais e artísticas. De alguma forma, todos eles foram capazes de valorizar Camões e demonstrar o engenho e arte do poeta através da sua própria criação artística.
Abriram a sala Filipa Peraltinha e Rita Carpinteiro, com o «Bailado das Tágides». Ao som de Carlos Paredes (com Bruno Costa na guitarra portuguesa e Nuno Botelho na guitarra) e com o mar, ora sereno ora tenebroso, como pano de fundo, embalaram o público para o espectáculo que se seguiu.
Do canto direito do palco surgiu Camões (interpretado por Francisco Paz) que dirigiu alguns dos seus versos ao público. Foi apenas interrompido por Filipa Paz (com texto de João Monge) que, em conjunto com Camões, abriu uma ponte de diálogo entre o século XVI e a época contemporânea. «E agora Luís?», questionou a actriz diversas vezes, ao longo da peça que se foi intercalando com os restantes momentos do concerto.
A soprano Ana Caseiro e o pianista Fausto Neves enlaçaram dois nomes maiores da cultura portuguesa, ao juntarem os sonetos de Camões com algumas peças para piano de Fernando Lopes-Graça.
Seguiram-se Inês Caldas (na flauta) e Júlio Dias (no cravo) que presentearam o público com temas musicais dos séculos XVI e XVII.
Já o fadista Hélder Moutinho – com Ricardo Parreira, na guitarra portuguesa, Mauro Resende, na viola, e Ciro Bertini, no baixo – cantou adaptações dos poemas camonianos Amor é um fogo que arde sem se ver, Verdes são os campos e, de João Monge, Dança dos peixes.
Ricardo Parreira voltou a acompanhar, desta vez, Sílvia Franklim (na voz), Luís Pedro Madeira (no piano) e Manuel Rocha (no violino). Surgiu como momento alto da actuação o fado Com que voz, popularizado por Amália Rodrigues, mas com letra de Camões.
Seguiu-se Valete. Este, ao público, agradeceu a oportunidade para mostrar alguns dos seus versos – de inspiração camoniana, mas dedicados à «mulher da sua vida». Musicou ainda alguns dos versos de Os Lusíadas em que surge o pessimista Velho do Restelo.
Foi Tim, vocalista dos Xutos & Pontapés, que encerrou o espectáculo. Ofereceu ao público os temas Voar e O homem do leme, música que quase poderia ser contemporânea de Camões, pois, como disse, «o mar é o mesmo, as pedras também, e a vontade do homem talvez também seja». Terminou com Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. A Tim, para cantar este último tema, juntaram-se todos os outros artistas que participaram no espectáculo.
«Camões não é a voz da reacção e do colonialismo. Camões é a voz do nosso povo, d’Os Lusíadas, a voz da insubmissão ante os privilégios, a voz do progresso social e científico, a voz da nação portuguesa, num elevado sentido humanista»
- Álvaro Cunhal na Festa do Avante! de 1979
Comemorações continuarão
até à próxima semana
No dia 29 terá lugar, em Lisboa, na Escola Secundária de Camões, o colóquio «Camões, poeta do povo num mundo em mudança». Com esta iniciativa encerrar-se-à o programa de comemorações do V centenário do nascimento de Luís Vaz de Camões, dinamizado pelo PCP.
O colóquio abrirá, pela 10h00, com uma intervenção de Paulo Raimundo, a que se seguirão diversas outras que abordarão dimensões relevantes da vida e obra de Luís de Camões. Entre os oradores da iniciativa estão Máximo Ferreira, Carina Infante do Carmo, João Luís Lisboa, Hélio Alves, António Carlos Cortez, Rita Marnoto, José António Gomes, Sara Reis Silva, José Augusto Esteves, Fausto Neves, Vítor Serrão, Maria João Brilhante e Paulo Cunha.
O colóquio que encerrará às 16h00 terá também um momento cultural, com Marco Oliveira e Ana Sofia, preencherá ainda a ocasião.