Noventa anos da Guerra das Espoletas assinalados em Peniche
A União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) e a Associação Amigos do Museu Nacional Resistência e Liberdade – Fortaleza de Peniche assinalaram, a 15 de Novembro, os 90 anos da Revolta Popular de Peniche, também conhecida como Guerra das Espoletas, com um roteiro pelos principais locais ligados aos acontecimentos de 1935. A iniciativa juntou dezenas de participantes e começou na Praça Jacob Rodrigues Pereira, com uma intervenção de João Neves, do Núcleo de Peniche e do Conselho Directivo da URAP, que guiou toda a visita.
O dirigente fez uma evocação histórica da luta dos pescadores, desencadeada pela proibição de pesca durante um ano aos barcos que recorreram a espoletas (dinamite), medida que levou à prisão de 62 mestres. Recordou ainda que naquela praça as famílias foram chamadas à resistência pelo toque a rebate dos sinos das igrejas. A população acabou por assaltar as camionetas da GNR que transportavam os mestres para a prisão das Caldas da Rainha, num movimento que levou ao fecho de comércio e escolas.
Álvaro Pato, vice-presidente do Conselho Fiscal da URAP e presidente da AAMNRL-FP, destacou a importância de preservar esta memória viva da resistência ao fascismo, que ultrapassa as paredes da Fortaleza de Peniche. O grupo deslocou-se depois ao edifício onde funcionou a Capitania do Porto, para onde os mestres foram levados após serem retirados das viaturas.
Já na actual Avenida 25 de Abril, junto ao monumento ao 25 de Abril, João Neves sublinhou o papel decisivo das lutas do povo de Peniche, em especial dos pescadores, para o derrube da ditadura, e o apoio dado aos presos políticos da Fortaleza. À frente da antiga fábrica conserveira, hoje escola secundária, descreveu a paralisação das operárias e a marcha popular rumo ao único portão de saída de Peniche, reforçada pelo toque a rebate da Igreja da Ajuda.
No antigo acesso à vila, o guia explicou como a população montou barricadas com materiais do estaleiro naval, incluindo um barco de pesca, e cortou comunicações oficiais, enquanto gritava: «Sem pesca, não há pão». Seguiu-se um confronto directo entre habitantes e forças repressivas, reforçadas pela PVDE. Pedras enfrentaram balas, e o pescador Francisco Sousa foi morto com um tiro na cabeça. O seu neto, José António Amador, acompanhou o roteiro.
Junto à Ponte Velha, foi lembrado que o estado de sítio foi declarado e que, no dia seguinte, a PVDE efectuou 45 prisões, com os detidos enviados para o Limoeiro, em Lisboa. No final do percurso, foi sublinhado que a luta terminou vitoriosa: a proibição da pesca foi levantada, os mestres e os 45 populares foram libertados e o governo viu-se obrigado a iniciar a construção do molhe Oeste, há muito reivindicado.
A Guerra das Espoletas permanece como uma das grandes marcas da resistência popular ao fascismo nos anos 30, num contexto de repressão, miséria e fome que afectava profundamente uma comunidade cuja frota, então condenada, representava 75% da pesca local.




