Nem um videozinho, senhores?
No domingo passado, o Jornal de Notícias chamou para primeira página a revelação de que há uma fuga aos impostos de 2,9 milhões de euros por dia em Portugal. No momento em que escrevemos, passaram mais de 48 horas sobre a chocante revelação sem ao menos um videozinho nas redes sociais da IL e do Chega, um cartaz, mesmo pequenino, um breaking news, uma mesa redonda com especialistas nos canais de notícias, directos da Tânia Laranjo ou da Ana Leal. Sente-se-lhes a falta, perante tamanha roubalheira.
Talvez o facto da notícia revelar que quem foge aos impostos são grandes empresas multinacionais os tenha tolhido. Falasse o JN de uma empresa ou de um serviço públicos, de um pilha galinhas ou dum imigrante, e o entusiasmo dos do costume seria outro.
O caso é grave: a investigação citada é de uma rede internacional de investigadores e activistas anti-fraude, que coligem dados sobre pagamento de impostos no plano mundial. Chegaram à conclusão que entre 2016 e 2021 houve em Portugal uma fuga de impostos no valor de 5 mil milhões de euros destas grandes empresas. Usaram expedientes legais e ambiguidades nas leis, em Portugal como no resto do mundo: sedes em paraísos fiscais, taxas de uso de marca e de propriedade intelectual entre empresas do mesmo grupo, royalties, taxas de know-how e preciosidades do género, planeadas milimetricamente por empresas como a Apple, a Google, a Nike, a Starbucks ou a McDonald’s. São também referidas ilegalidades, como evasão fiscal, contas secretas, falsificação de informações, concorrência desleal, etc.
A notícia ajuda com exemplos da ordem de grandeza do IRC que deixou de entrar nos cofres do país: corresponde a 8,6% da despesa em saúde, 10,6% dos gastos em educação, 101 euros por cada português. Um escândalo, uma vergonha, uma roubalheira: mas como é de multinacionais está tudo muito bem, baixam-lhes mais um bocadinho o IRC, e ficam todos caladinhos. Revelador, não é?




