A TAP e o favor que ainda nos fazem

Vasco Cardoso

Nem de propósito. Na semana em que terminou o prazo para a sinalização de interesse por parte dos “candidatos” à privatização da TAP, assistimos a dois acontecimentos que, no mínimo, introduzem grãos na engrenagem e contradições aos que se apressam a destruir empresas e soberania.

Nos Açores, vimos a poderosa Ryanair a elevar o patamar da chantagem sobre a região, ameaçando acabar com as ligações aéreas se entretanto as suas pretensões – mais uma centenas de milhões de euros de apoios públicos – não forem aceites. Ora imagine-se o que seria do País no seu todo se porventura deixasse de ter nas suas mãos uma companhia aérea de bandeira capaz de assegurar a continuidade territorial, a ligação às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, ou até, os fluxos de passageiros que alimentam grande parte do turismo e de outras actividades económicas fundamentais para Portugal. Ficaria à mercê dos interesses das multinacionais no transporte aéreo, como aliás já se encontra no plano dos aeroportos com as consequências que aí estão: a Vinci a ganhar como nunca e o País a perder como sempre.

Entretanto, por iniciativa do Ministério Público, a última privatização da TAP voltou a ensombrar a próxima. A realização de buscas na companhia aérea, em grandes escritórios de advogados e de consultadoria voltaram a dar visibilidade à denúncia que o PCP sempre fez: a TAP foi comprada com o dinheiro da própria TAP, num esquema obscuro, feito na 25.ª hora de um governo PSD/CDS já derrotado e que tinha como pivot dessa operação o mesmo Miguel Pinto Luz que agora dá cara por mais esta tentativa de assalto ao património público.

Apesar disto, o Governo e todos os que o acompanham nesta privatização, saudaram com entusiasmo o facto das três grandes multinacionais que já dominam os céus da Europa – Ibéria/British, AirFrance/KLM e Lufthansa – quererem juntar mais uma companhia aérea às várias que têm vindo a adquirir, numa estratégia em que os interesses do grande capital e das grandes potências da UE – que participam no capital destas multinacionais – se fundem, explorando e expropriando países da periferia, como é o caso de Portugal.

A privatização da TAP reúne apoios que vão do Chega ao PS, passando pelo PSD, CDS e IL. É o consenso neoliberal e antipatriótico que nos procura convencer que o grande capital alemão, francês ou inglês pode ser dono dos recursos do País, e ainda nos faz um favor.



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