José Dias Coelho foi assassinado há 64 anos
Quase uma centena de comunistas e democratas participou, no dia 19, numa sessão de homenagem a José Dias Coelho, militante do PCP, pintor e resistente anti-fascista, morto pela PIDE na mesma rua lisboeta onde decorreu a iniciativa – na biblioteca que, hoje, leva o seu nome.
«Que um dia rirá melhor quem rirá por fim»
«Fazemos uma justa homenagem a um artista e homem da cultura», afirmou Paulo Raimundo, que interveio no encerramento da sessão, «e fazêmo-lo mais uma vez e todas as vezes, ano após ano, para prestar homenagem a José Dias Coelho, comunista, revolucionário, corajoso e firme combatente pela liberdade e a democracia».
O Secretário-Geral lembrou que, naquele mesmo dia em 1961, naquela mesma rua, no coração de Alcântara – que hoje se chama Rua José Dias Coelho – o pintor morreu, em plena flor da idade, com 38 anos, «cobardemente assassinado à queima-roupa pela PIDE».
«Podem tentar reescrever a história, podem tentar ilibar os carrascos, podem utilizar todos os seus poderosos meios e instrumentos, podem tentar tudo, que a verdade, como sempre, virá ao de cima [...]: o fascismo assassinou o homem que poderia ser tudo e tudo ter, mas que decidiu dedicar-se por inteiro à luta pela libertação do seu povo, à luta pela emancipação dos trabalhadores e dos povos, à luta pelo seu Partido, pela conquista da sociedade nova, pelo socialismo», destacou.
Após a intervenção, todos os participantes seguiram, em desfile, para a placa de homenagem a Dias Coelho, no local onde foi assassinado, onde foi depositada uma coroa de cravos. No início da sessão, Marta Sofia tocou algumas músicas, entre as quais A Morte Saiu à Rua, de José Afonso, escrita em homenagem ao comunista.
«Na curva da estrada há covas feitas no chão…»
Tal como foi recordado pelo Secretário-Geral, José Dias Coelho nasceu em Pinhel, com uma infância passada em Coimbra, contactando, já em Lisboa, no Colégio Académico, com figuras como Bento de Jesus Caraça, Lopes-Graça, Carlos Oliveira e Abel Manta. Cursa arquitectura e, depois, escultura, ambas na Escola de Belas Artes, onde adere à Federação das Juventudes Comunistas.
Com 32 anos, em Outubro de 1955, e após ter sido preso, torna-se funcionário do PCP e passa à clandestinidade, onde, nas palavras de Paulo Raimundo, «coloca o seu saber e a sua capacidade artística ao serviço da luta revolucionária do seu Partido», falsificando documentos com a sua companheira, Margarida Tengarrinha e criando gravuras para ilustrar o Avante!, entre outros. José Dias Coelho assumiu, igualmente, diversas tarefas na dinamização do trabalho unitário, seja na frente de solidariedade com os presos políticos e as suas famílias, seja em estruturas como o MUNAF, o MUD e a Comissão de Escritores e Artistas Democráticos.
«…e em todas florirão rosas duma nação»
«O fascismo assassinou o pintor, “o pintor morreu”, mas como cantou o poeta, “que um dia rirá melhor quem rirá por fim”, e assim foi, [...] a revolução chegou em Abril de 1974», sublinhou Paulo Raimundo.
O Secretário-Geral vincou, ainda, a necessidade de se ter força para retomar esse caminho de Abril, «esse caminho pelo qual tantos lutaram, esse caminho que foi objectivo de luta e de vida de José Dias Coelho».
«Não te dizemos adeus camarada!»
«No dia 19 de Dezembro foi assassinado a tiro pela PIDE na rua dos Lusíadas em Alcântara o camarada José Dias Coelho [...]. O crime foi cometido por uma brigada de cinco agentes da PIDE que saindo dum automóvel o assaltaram em plena rua, disparando dois tiros contra o nosso camarada, que não tinha consigo qualquer arma. Um tiro à queima-roupa, em pleno peito, deitou-o por terra e outro foi disparado com ele já no chão.
Isto passou-se cerca das oito horas da noite. Precipitadamente, os assassinos meteram o nosso camarada no automóvel e só duas horas depois o foram entregar, já a expirar, no Hospital da CUF. Que fizeram os bandidos da PIDE a este homem moribundo, nas duas horas em que o tiveram em seu poder? Sabemos que o nosso camarada ao chegar ao Hospital, tinha somente um bilhete de identidade consigo. Desaparecera a carteira, com 20 000$00, o retrato da filha, a própria aliança.
[…] Como Dias Coelho escreveu ao recordar a memória de Maria Helena Magro, falecida na clandestinidade, nós repetimos a seu respeito: «Não te dizemos adeus camarada! As tuas mãos cerradas vão com as nossas mãos cerradas. A tua voz vai com as nossas vozes cantar mais alto a liberdade do nosso Povo e, sob a bandeira do nosso Partido, os teus olhos hão-de olhar com os nossos olhos, o Portugal feliz que não viveste.»
Excertos de «A PIDE assassinou José Dias Coelho», Avante!, Série VI, n.º 312 (Jan. 1962), acompanhados da gravura que ilustrou esta peça.




