2025: balanço de um ano de regime Trump

António Santos

Ao contrário do que Trump prometera e do que, contra todas as evidências, continua a afirmar, 2025 não foi o “ano dourado” de nenhuma “América Grandiosa”. Pelo contrário, o primeiro ano do segundo mandato ficou marcado pelo aumento da inflação, do desemprego, da ameaça de novas guerras e pelos recrudescidos ataques à classe trabalhadora. Trump prometia pôr “A América Primeiro”, mas pôs os bilionários em primeiro, e os trabalhadores em último.

O Estado, reduzido à função da violência
Concretizando os planos de Musk e Vought, o arquitecto do “Projecto 2025”, Trump eliminou, unilateralmente, mais de 30 grandes contratos colectivos de trabalho que protegiam mais de um milhão de trabalhadores de 40 agências federais e proibiu a negociação colectiva. Orquestrou uma purga sem precedentes no Estado federal, destruindo, paralisando ou enfraquecendo as instituições que protegiam os trabalhadores, as mulheres, as minorias e o meio ambiente, atirando para o desemprego mais de 300 mil funcionários públicos.

O antigo administrador da Amazon, David Keeling, nomeado por Trump para a pasta da Saúde e Segurança no Trabalho, recebeu ordens do Presidente para «não ter pressa a fiscalizar e ser rápido a cortar», e foi isso que fez. Para termos uma noção da escala, as 450 minas das montanhas Apalaches, que empregam mais de 27 mil trabalhadores, são agora fiscalizadas por dois inspectores.

Durante este mandato, os 1% mais ricos dos EUA foram presenteados com uma borla fiscal de 4,5 biliões de dólares, valor compensado com um corte de 1,5 biliões de dólares, ao longo de 10 anos, no orçamento nos dois grandes programas de saúde pública, o Medicaid e o Medicare e com o fim dos subsídios de apoio à compra de seguros de saúde para os trabalhadores mais pobres. Inicialmente, os democratas opuseram-se, levando à mais longa paralisação do governo federal da História, mas acabaram por ceder sem arrancar qualquer cedência a Trump. Ao mesmo tempo, Trump aumentou o orçamento da guerra para 925 mil milhões de dólares, o maior de sempre.

Greves, manifestações, resistência de milhões
Foi claro o sinal dado por Trump ao grande capital: podem avançar à vontade na luta contra o trabalho. Mas a luta dos trabalhadores não cessou e o ano ficou marcado por poderosas greves, muitas das quais vitoriosas: no Colorado, mais de 17 mil trabalhadores de três cadeias de hipermercados, em greve pela contratação de mais trabalhadores e por horários justos; no Michigan, 32 mil cuidadores domiciliários, pelo reconhecimento do seu sindicato, o que conseguiram; no Utah os professores conseguiram deter a proposta de proibição dos sindicatos na função pública; no Missouri e no Illinois, 3200 operários da Boeing, em greve por melhores salários e segurança no trabalho; no Connecticut, no mesmo sector e pelos mesmos motivos, 3000 operários da Pratt & Whitney; de costa a costa, cerca de 5000 trabalhadores da Starbucks, em greve de duração indefinida desde Novembro contra os baixos salários e por um contrato colectivo para todos os cafés da marca; na Universidade da Califórnia, 50 mil trabalhadores, em luta contra a precariedade, por aumentos salariais e mais acesso a cuidados de saúde; em 11 Estados onde a Airgas produz e armazena gases médicos e industriais, centenas de operários fizeram greves intermitentes.

Sete milhões de pessoas saíram à rua no Dia Sem Reis para denunciar as tendências fascizantes do regime de Trump e muitas centenas de milhares manifestaram-se contra a caça aos imigrantes levada a cabo por mercenários de cara tapada do ICE, que, num só ano, raptaram e deportaram mais de meio milhão de trabalhadores, tendo matado, pelo menos, 25 pessoas.

Quase todos os ataques de Trump aos direitos dos trabalhadores foram alvo de processos judiciais onde se evidenciaram as seguintes tendências: se na maioria dos tribunais de primeira instância os trabalhadores conseguiram vitórias iniciais, esse padrão já não é notório nos tribunais superiores. Quanto mais se sobe na hierarquia judicial, maior é a influência política de Trump e a frequência das sentenças favoráveis ao capital. O Supremo Tribunal, órgão judicial máximo dos EUA, deu razão a Trump em todos os casos que lhe chegaram.

 



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