- Nº 2718 (2025/12/31)
Dezembro é tempo de balanços e há um que analisamos sempre com interesse. Trata-se do relatório anual do SIPRI – instituto sueco que monitoriza as despesas militares e a produção e comércio de armamento no plano mundial. Quando na Europa Ocidental se difunde a tese do inimigo externo fortemente armado para justificar a opção militarista e belicista, então tal relatório torna-se ainda mais interessante.
Segundo esse relatório, em 2024 as despesas militares aumentaram 9,4%, para um valor recorde de 2,7 milhões de milhões de dólares. É o maior aumento desde 1988. É importante notar que este crescimento é, como o próprio SIPRI afirma, estrutural. Há 10 anos consecutivos que aumentam as despesas militares. Aliás, desde o início do século, só nos anos entre 2011 e 2014 é que não houve aumento. É ali que constatamos também que a NATO é responsável por 55% dos gastos militares; que se lhes juntarmos os seus aliados mais directos na Ásia-Pacífico (Japão, Coreia do Sul, Austrália) e no Médio Oriente (Israel) então essa percentagem sobe para 62%; que a Alemanha se tornou em 2024 o 4.º país do Mundo com maior despesa militar e que o Japão foi outro dos países que registou maior crescimento.
Mesmo assim poder-se-ia dizer que tal gasto era uma resposta a uma produção brutal de armamento de outros países. Mais uma vez deixemos o SIPRI falar. Em 2024, as receitas globais das 100 maiores empresas de armamento do mundo cresceram 5,9%, um dos maiores aumentos de sempre, atingindo receitas combinadas de 679 mil milhões de dólares. 49,5% desta facturação corresponde a empresas dos EUA. Se lhe juntarmos as empresas de países europeus membros da NATO esse valor cresce para mais de 70%. E se lhe juntarmos as empresas do Japão, Coreia do Sul e Austrália, e não contarmos sequer com Israel, então esse valor sobe para 80%.
São dados que clarificam quais as razões de fundo dos problemas e conflitos que estamos a viver. Como temos dito, as principais potências imperialistas apostam no militarismo e na guerra para contrariar o seu evidente declínio relativo no plano económico, comercial, científico e tecnológico. A guerra no Leste europeu, sobre a qual muito se tem dito e desdito, é uma consequência desse longo processo. Se provas faltassem sobre o que esteve e está verdadeiramente em causa, veja-se o conteúdo público das negociações. Mas não só. Junte-se o manto de silêncio que foi lançado sobre a continuação do genocídio e ocupação na Palestina, onde desde o início do dito cessar-fogo já foram mortos 400 palestinianos e feridos 1100; o silêncio e objectiva cumplicidade do “democrático ocidente” para com os crimes de pirataria e contra o direito internacional dos EUA nas costas da Venezuela e Colômbia; as sucessivas provocações dos EUA e do Japão à China; os recentes ataques de Israel no Líbano, e dos EUA na Síria; o papel de Israel e dos EUA na secessão na Somália para criar um território que receba os palestinianos expulsos da sua terra; a guerra no Sudão ou os bombardeamentos na Nigéria, com a cumplicidade de um regime comprado, que visa contrariar a onda de afirmação soberana que cresce no Sahel. A conclusão é simples: A crise profunda do capitalismo está a arrastar o mundo para uma situação perigosíssima, em que poderes caducos, transformados em caricaturas deles próprios (veja-se o recente Conselho Europeu), apostam em destruir tudo o que lhes faça frente. A resposta só pode ser uma: lutar pela paz, pela cooperação e contra o capitalismo!