Discurso motivacional de Natal

Margarida Botelho

O “discurso motivacional” – como lhe chamou António Filipe – de Luís Montenegro na sua mensagem de Natal já foi muito comentado. E merece, porque é de facto um tratado: começando pelo que omite (salários baixos e custo de vida alto, problemas no acesso à saúde e à habitação, o pacote laboral), passando pelas concepções que revela.

Para lá das metáforas desportivas sobre jogar para empatar ou para ganhar, a mentalidade de Cristiano Ronaldo ou considerações sobre «a família portuguesa enquanto país e nação», o primeiro-ministro insistiu na ideia de que Portugal está «no caminho certo» e que é uma referência internacional, indo outra vez buscar um artigo de revista para validar a sua política.

Mas uma das coisas mais significativas que disse foi sobre salários – sem pronunciar a palavra, que queima. Diz Montenegro que temos todas as condições: «crescimento económico, estabilidade financeira, segurança, recursos humanos qualificados, apetência para as novas tecnologias, uma excelente localização geoestratégica, capacidade de diálogo no contexto internacional.» Ai sim? Então não se aumentam salários e reformas como é necessário, nem se investe nos serviços públicos como eles precisam, e ainda se apresenta um pacote laboral que impõe mais exploração, porquê?

Aparentemente porque «precisamos de ser mais eficientes e produtivos para atingirmos novos patamares de crescimento que tragam também novos patamares de rendimento». A conversa do costume. Para aumentar salários nunca é boa altura. É a teoria típica dos liberais, desmentida por todas as evidências, que defende que a acumulação de riqueza nos mais ricos há-de um dia começar a pingar para os debaixo.

Talvez as renas do Pai Natal se sintam motivadas com essa teoria. Mas a força que a greve geral mostrou, a luta que continua já na manifestação de 13 de Janeiro e depois disso, mostram ao primeiro-ministro e a quem o apoia que podem esperar tudo menos conformismo.

 



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