Novo ano começa mais caro… outra vez!
A entrada no novo ano tem-se vindo a tornar sinónimo de novas subidas dos preços de bens e serviços como a carne, os ovos, as portagens, as rendas, os transportes ou o pão. Só na alimentação, a subida é 30,5 por cento mais alta do que a subida homóloga de 2021.
Há mês a mais para os salários e pensões
Os anos sucedem-se e a notícia repete-se. «Aumento de preços prejudica melhoria das condições de vida», anunciava o Avante! ainda no número de 11 de Janeiro de 2018. Poucos anos depois, a situação repetia-se: «Preços aumentam em 2022» (6-1-2022), «Novos aumentos somam-se à maior subida de preços dos últimos 30 anos» (5-1-2023), «A vida dos portugueses está mais cara em 2024» (4-1-2024) e «Subidas de preços tornam clara a necessidade de nova política» (9-1-2025). E este ano, a situação não se altera.
Tal como referiu Jorge Pires, membro da Comissão Política do Comité Central, numa declaração à imprensa sobre a subida dos preços no início do novo ano, no dia 2, «o nível médio da subida dos preços dos bens e serviços consumidos pelas famílias […] está, hoje, 17,7 por cento mais alto do que em 2021». Além disso, sublinhou, «as despesas das famílias com produtos alimentares subiram 30,5 por cento, e com a habitação, electricidade, gás, água e outros combustíveis, que representam mais de 50 por cento das despesas médias mensais, subiram 22,1».
Para o dirigente comunista, está claro que «o orçamento mensal das famílias esgota-se quase na sua totalidade com as despesas com alimentação, habitação e transportes, sendo o seu aumento bem superior ao valor reflectido na inflação».
«Sendo graves, estes aumentos não podem ser vistos isoladamente. Os preços dos bens e serviços que compõem o cabaz de compras das famílias portuguesas sofreram um grande aumento desde o surto inflacionista iniciado no segundo semestre de 2021», recordou Jorge Pires.
O estado da arte do empobrecimento real
«Com as actualizações salariais e de pensões nos últimos anos a ficarem sistematicamente aquém das subidas dos preços dos bens e serviços essenciais, os trabalhadores, pensionistas e reformados têm visto o seu poder de compra estagnar ou degradar-se e as suas condições de vida piorar», frisou o dirigente comunista.
Em particular, Jorge Pires chamou a atenção para o facto de, hoje, mais de 2,5 milhões de trabalhadores terem uma remuneração base mensal inferior a mil euros, ao mesmo tempo que o limiar da pobreza se situa nos 723 euros mensais, e o salário mínimo nacional (SMN) acaba de ser fixado em 920 euros. «Um valor muito aquém das necessidades dos trabalhadores que, depois de efectuado o desconto de 11 por cento, se situa pouco acima do limiar da pobreza», assinalou.
«Com tão baixos níveis salariais, percebe-se que a propagandeada descida do IRS […] pouco signifique para muitas centenas de milhares de trabalhadores, que pouco ou nada beneficiam dessa descida. Com tão baixos níveis salariais, não constitui surpresa que 460 mil trabalhadores, meio milhão de reformados, 140 mil desempregados e 295 mil crianças façam parte dos dois milhões de pobres do nosso País – 18,6 por cento da nossa população», asseverou.
O estado da arte do empobrecimento real dos portugueses mostra como há mês a mais para os salários e pensões: é visível na falta de verdadeiras políticas de valorização dos salários e pensões, principalmente quando se compara o seu aumento com a subida dos preços nos últimos anos. Do início de 2023 para o início de 2026, o SMN subiu de 760 para 920 euros – um aumento de 21,05 por cento. Da mesma forma, e no mesmo período, o valor mínimo da pensão de velhice e invalidez no regime geral da Segurança Social passou de 291,48 para 341,08 euros – mais 17,02 por cento.
No entanto, e como fez questão de realçar Jorge Pires, nenhum destes aumentos foi capaz de acompanhar as subidas de preços nos últimos quatro anos em produtos e serviços essenciais para a larga maioria das pessoas. Neste período, o pão e os cereais aumentaram 31,5 por cento. A carne, 36. O leite, queijo e ovos, 33,8. Os produtos hortícolas, 33,2. As gorduras e óleos, 28. O peixe, 26,2. A fruta, 24,4. Os combustíveis sólidos, 26,9. E as rendas dos novos contratos de habitação, 33. Também neste período, a prestação média do empréstimo à habitação subiu 55 por cento.
Face a tudo isto, como responder?
Certamente, não como sucessivos governos – e o actual, particularmente – têm vindo a responder. Em forma de resposta, Jorge Pires foi claro: «O que o País precisa neste novo ano é de uma nova política».
Assim, em vez dos milhares de milhões de euros que vão ser distribuídos em dividendos aos accionistas das grandes empresas, o PCP propõe um «verdadeiro choque salarial», com o SMN a subir para os 1050 euros e os demais salários a terem um aumento de 15 por cento e de, pelo menos, 150 euros.
Em relação às pensões, os comunistas advogam o seu aumento em pelo menos cinco por cento, com uma subida mínima garantida e transversal de, no mínimo, 75 euros.,
É ainda necessário, por um lado, controlar os preços dos principais bens e serviços integrantes do cabaz de compras das famílias, e, por outro, garantir o acesso à habitação, com a regulação dos preços e a descida de spreads e juros – a par da valorização de serviços púbicos e carreiras e da dignificação do trabalho.
«Estes são factores essenciais para melhorar as condições de vida do nosso povo e desenvolver o País», clarificou o dirigente comunista.
Os preços esticam, mas as carteiras não
Os principais jornais, empresas e associações patronais convergem numa ideia clara: os preços aumentam. Seja a justificação a inflação, seja a justificação um simples “porque podemos”, é certo que o ano começou mais caro para os bolsos dos portugueses.
Transportes
Neste sector, apesar de os preços dos passes se manterem, registam-se aumentos transversais nos bilhetes diários ou para determinadas viagens. Na Área Metropolitana de Lisboa, sobe o preço do bilhete combinado de autocarro e metro (uma hora) para 1,90 euros, do zapping para 1,72 e do contactless para 1,92. A tarifa nos autocarros da Carris atinge os 2,30 euros, 3,20 nos eléctricos e 4,20 nos ascensores (6,10 no Elevador de Santa Justa). O bilhete combinado Carris/Metro/Transtejo (24 horas) aumenta para 10,35 euros. Com subidas de 2,26 por cento em média, a CP apresenta novos preços, mais elevados, nos comboios urbanos: 1,50 a 3,90 euros em Lisboa; 1,65 a 6,60 no Porto; e 1,75 a 3,10 em Coimbra. As portagens nas autoestradas também sobem 2,29 por cento, sendo exemplo o percurso Lisboa-Algarve na A1, que aumenta para 23,80 euros, e as pontes 25 de Abril e Vasco da Gama, que podem subir de cinco a 10 cêntimos.
Luz, água e gás natural
Na electricidade, este mês, a factura já será mais cara no mercado regulado, com um aumento de um por cento dos preços – o que se deverá traduzir em mais 18 a 28 cêntimos. Também se prevêem aumentos na água, apesar de este valor variar de concelho para concelho. No caso de Lisboa, já se sabe que a subida será de 17 cêntimos. O gás natural irá manter o aumento registado a 1 de Outubro de 2025, de mais 1,5 por cento, devendo este valor manter-se até 30 de Setembro deste ano.
Telecomunicações
As principais operadoras do País – NOS, MEO e Vodafone –, apesar de ainda não confirmarem valores, já anunciaram aumentos na conta de telefone, televisão ou internet. No caso da Vodafone, por exemplo, a actualização será feita até ao valor máximo da taxa de inflação prevista para 2025.
Habitação
Apesar de ficar ao critério de cada senhorio decidir se aumenta ou não o valor da renda, sabe-se que estas poderão subir até 2,24 por cento. Se tomarmos como exemplo os valores das rendas medianas de algumas das principais cidades do País (de acordo com dados do sítio idealista.pt em Novembro de 2025), vemos o quadro geral de aumentos: em Lisboa, de 1810 para 1850 euros; no Porto, de 1250 para 1278; e em Faro, de 1663 para 1700. É de realçar que o crédito à habitação poderá subir, acompanhando a tendência crescente da taxa Euribor.
Alimentação
A Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (que representa empresas como a Auchan, o Pingo Doce ou o Continente) já anunciou que o preço da generalidade dos produtos alimentares volta a subir. Em concreto, destaca-se o aumento na carne e no peixe, que deverá rondar os sete por cento. No caso do pão e produtos de pastelaria, apesar de ainda não existirem valores concretos, a Associação do Comércio e da Indústria de Panificação aponta para subidas.
Correios e banca
Em média, o custo do envio do correio nos CTT aumenta 6,20 por cento, com uma subida de quatro cêntimos no serviço de correio normal nacional (até 20 gramas). No caso das comissões bancárias, com o novo ano terminou a isenção da comissão de amortização antecipada de crédito à habitação a taxa variável, cujo valor regressa nos 0,5 por cento.




