Venezuela mobiliza-se contra a agressão dos EUA
Depois da agressão militar norte-americana à República Bolivariana da Venezuela e do sequestro do seu Presidente, Nicolás Maduro, e da sua esposa, na madrugada de dia 3, a vice-presidente Delcy Rodriguez assumiu as funções de Presidente encarregada. Nos dias seguintes, Trump repetiu ameaças de novas agressões contra a Venezuela e outros países, como Cuba, Colômbia ou México.
O objectivo da agressão dos EUA é dominar a Venezuela e apoderar-se dos seus imensos recursos
Os EUA levaram a cabo, no dia 3, uma agressão militar contra a Venezuela, com bombardeamentos aéreos em Caracas e outras regiões do país. Durante a agressão, forças militares norte-americanas assassinaram cerca de 80 pessoas e sequestraram o Presidente Nicolás Maduro e sua esposa, a deputada da Assembleia Nacional da Venezuela, Cilia Flores, levando-os forçadamente para os EUA, tendo ficado ilegalmente detidos em Nova Iorque.
Numa declaração proferida logo no dia da agressão, onde surgiu ladeado pelos secretários Marco Rubio e Peter Hegseth, Donald Trump afirmou que «agora vamos mandar no país» e que os EUA iriam «ter uma presença na Venezuela em torno da indústria petrolífera», para «extrair muita riqueza». Tanto nessa ocasião, como em afirmações posteriores, Trump e os seus secretários renovaram ameaças contra a Venezuela e estenderam-nas a outros países da região, como Cuba, Colômbia ou o México, mas também à Gronelândia, uma região autónoma da Dinamarca, referindo-se à Doutrina Monroe, que é novamente explicitada na chamada «Estratégia de Segurança Nacional» dos EUA, divulgada há semanas.
Numa nota do dia 3, a República Bolivariana da Venezuela repudiou e denunciou a gravíssima agressão militar, levada a cabo em Caracas e nos Estados de Miranda, Aragua e La Guaira. Um acto que constitui uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas que consagra o respeito da soberania, a igualdade jurídica dos Estados e a proibição da ameaça do uso da força nas relações internacionais.
O objectivo da agressão dos EUA, sublinha, é apoderar-se dos recursos estratégicos da Venezuela, em particular do seu petróleo e minerais, tentando quebrar pela força a independência política deste país.
As autoridades venezuelanas afirmam que os EUA não conseguirão alcançar os seus intentos, pois «após mais de 200 anos de independência, o povo e o seu governo legítimo mantêm-se firmes na defesa da soberania e do direito inalienável de decidir o seu destino», salientando que a tentativa de impor uma guerra colonial para forçar uma “mudança de regime”, em aliança com a oligarquia fascista, fracassará como todas as tentativas anteriores.
O governo bolivariano instou todas as forças sociais e políticas do país a repudiar o ataque imperialista e a activar os planos de mobilização. Em Caracas e noutras cidades, muitos venezuelanos saíram às ruas para condenar a agressão dos EUA à Venezuela e exigir o regresso do seu Presidente, Nicolás Maduro, e da deputada Cilia Flores.
Delcy Rodríguez Presidente encarregada
No sábado, 3, na véspera de assumir funções como Presidente encarregada da República Bolivariana da Venezuela, a até então vice-presidente Delcy Rodríguez proferiu um discurso perante o Conselho de Defesa da Nação, exigindo a Washington a imediata libertação de Nicolás Maduro e Cilia Flores. Denunciando que a agressão norte-americana viola flagrantemente a Carta da ONU, Delcy Rodriguez assegurou que o povo está organizado e preparado para defender a independência nacional, a soberania e a integridade territorial do seu país e que o povo venezuelano e a Venezuela jamais voltarão a ser escravos e colónia de nenhum império.
Já na qualidade de Presidente encarregada, Delcy Rodríguez anunciou na segunda-feira, 5, a criação de uma comissão de alto nível destinada a coordenar acções de diverso tipo para libertar Nicolás Maduro e Cilia Flores, integrada por representantes de distintas instituições do Estado. A comissão realizará acções políticas, jurídicas e diplomáticas para pôr fim ao seu sequestro pelos EUA.
«Cobarde e criminosa agressão dos EUA»
No dia 4, o ministro dos Negócios Estrangeiros venezuelano, Yván Gil, qualificou de «cobarde e criminosa» a agressão militar dos EUA. Durante uma reunião da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC), salientou que o 3 de Janeiro de 2026 «ficará como um facto obscuro na história da Nossa América. Nesse dia, o governo de turno dos EUA violou, de forma aberta e deliberada, a nossa Zona de Paz, proclamada por unanimidade pela CELAC em 2014», acrescentou.
Para o ministro, este ataque não é só contra a Venezuela: «Amanhã pode ser qualquer outro país que decida exercer a sua soberania. A CELAC enfrenta uma responsabilidade histórica. Os princípios não se negoceiam. Calar perante esta agressão equivale a dar-lhe aval».
Vergonhosa subserviência
Perante esta grave violação do direito internacional, o Governo português demonstrou uma vez mais, e de forma clara, a sua total submissão aos EUA. No comunicado que emitiu na segunda-feira, 5, o PCP denuncia o deplorável posicionamento assumido pelo Governo português, que não só não condena a agressão dos EUA como vergonhosamente tenta legitimá-la, tornando-se cúmplice desta flagrante violação do direito internacional.
«Só pode ser motivo de repúdio a vergonhosa tentativa do Governo português de apresentar como “benignas” as intenções assumidas pelo imperialismo norte-americano, de “governar” a Venezuela e se apropriar dos seus recursos petrolíferos, numa postura abertamente neocolonial. Posicionamento que confirma a natureza de um Governo disponível para vender o interesse nacional», denuncia o PCP.
Presente na concentração de segunda-feira, em Lisboa (ver texto nestas páginas), Paulo Raimundo considerou inaceitável que o Governo «procure legitimar ou relativizar esta agressão, adoptando uma posição de subserviência face à acção criminosa dos EUA». Defender os interesses dos portugueses e luso-venezuelanos, acrescentou o Secretário-Geral do PCP, «não passa por apoiar actos ilegais, mas por respeitar a soberania, o direito internacional e a autodeterminação dos povos».
«Venezuela não se rende soberania não se vende»
Na segunda-feira ao final da tarde, o CPPC promoveu em Lisboa, no Porto e em Braga, concentrações contra a agressão militar dos EUA à República Bolivariana da Venezuela, pela libertação de Nicolás Maduro e Cilia Flores e em defesa da soberania do país sul-americano. Em Lisboa, a iniciativa realizou-se junto à estátua de Simón Bolívar, libertador da América Latina e figura tutelar da Revolução bolivariana.
As palavras de ordem entoadas reafirmavam as razões do protesto: “Venezuela soberana é bolivariana”, “os povos dizem não à agressão, EUA do petróleo tira a mão”, “Venezuela não se rende, soberania não se vende” ou “imperialismo não é futuro, liberdade para Maduro”. As bandeiras, as faixas e os cartazes secundavam as reivindicações.
Em Lisboa, intervieram Isabel Camarinha (CPPC), Sandra Pereira (AAPC), Dinis Lourenço (CGTP-IN) e Inês Jorge (Projecto Ruído). No Porto, Joana Teixeira (AAPC), Paulo de Carvalho (USP/CGTP-IN), Manuela Branco (CPPC) e o professor Rui Pereira. Tomaram da palavra em Braga, Rafael Lomba (CPPC), Carlos Cruz (USB/CGTP-IN) e Bruno Oliveira (Projecto Ruído).
Nas várias intervenções denunciou-se a flagrante ilegalidade da agressão norte-americana e desvendaram-se as suas reais motivações: os EUA pretendem apoderar-se, de novo, dos imensos recursos naturais da Venezuela, país que tem as maiores reservas de petróleo do mundo e é rico em gás natural, ouro, água doce e diversos minerais raros de grande utilização industrial. Lembradas foram também as 1081 sanções e medidas coercivas impostas pelos EUA e a UE à Venezuela, para asfixiar a sua economia, prejudicar o seu povo e assim procurar derrotar o seu projecto emancipador.
Protesto mundial
A agressão militar dos EUA contra a Venezuela na madrugada do passado sábado motivou protestos um pouco por todo o mundo: contrastando com a vergonhosa submissão do Governo português, assim como da União Europeia, vários Estados – como Cuba, Brasil, Colômbia, México, China, Rússia e tantos outros – condenaram ou rejeitaram a agressão e exigiram a libertação do Presidente Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores.
Em Nova Iorque, junto ao local onde se encontram detidos, milhares de pessoas concentraram-se exigindo a sua libertação. Também em Chicago, Washington e outras cidades dos EUA, foram muitos os que saíram à rua contra a agressão miltar dos EUA e em defesa da soberania venezuelana.
Em Cuba, milhares de pessoas compareceram na Tribuna Anti-imperialista para repudiar a agressão norte-americana à Venezuela, nos quais foram mortos dezenas de cubanos que ali se encontravam em missão internacionalista, entoando palavras de ordem como «Abaixo o imperialismo!» e «Cuba e Venezuela, uma só bandeira». O presidente da República, Miguel Diaz-Canel, foi um dos oradores.
Em Espanha houve acções em várias cidades, como Madrid, Barcelona, Valência ou Vigo. Também no Brasil e na Argentina houve várias manifestações, assim como na Índia, no Paquistão, no Bangladeche e em muitos outros países.
Denúncia e solidariedade
Logo no dia 3, o PCP emitiu um comunicado em que reclamava o fim da agressão militar e a «imediata libertação do Presidente da Venezuela e demais cidadãos venezuelanos pelos EUA». Salientava o Partido que a agressão norte-americana visa «impor o domínio sobre a Venezuela e o saque dos seus imensos recursos, nomeadamente do petróleo, e representa uma ameaça à soberania e aos direitos dos outros povos da América Latina e Caraíbas e de todo o mundo, como mostram os bombardeamentos dos EUA a países do Médio Oriente e de África».
Numa nova tomada de posição, no dia 5, o Partido expressava a sua condenação dos «inaceitáveis intentos da Administração Trump de impor um governo fantoche na Venezuela, que garanta a apropriação por parte das multinacionais petrolíferas norte-americanas dos recursos que pertencem à República Bolivariana da Venezuela, ao povo venezuelano». E denunciava as «graves ameaças» contra diversos países latino-americanos e caribenhos, como a Venezuela, Cuba, Colômbia ou o México, que constituem igualmente «uma ameaça a todos os povos da América Latina e Caraíbas, e de todo o mundo». O que o imperialismo norte-americano proclama aberta e despudoradamente é, denuncia o PCP, o «propósito de impor o seu domínio político e económico sobre todo o continente americano, para explorar e saquear os recursos naturais».
Nesse comunicado, o PCP reafirmava ainda a «veemente condenação da agressão militar contra a República Bolivariana da Venezuela e o sequestro do Presidente Nicolás Maduro e da sua esposa por parte dos EUA» e apelava à «expressão da solidariedade com a Venezuela bolivariana e com a luta do povo venezuelano em defesa da paz e do direito a determinar soberanamente o seu próprio caminho».




