De Lisboa para a América Latina e Caraíbas: (mais) um abraço solidário e combativo

Em Portugal, como um pouco por todo o mundo, não cessa a solidariedade aos povos da América Latina e das Caraíbas, e em particular ao povo da Venezuela, após a brutal agressão norte-americana de 3 de Janeiro, que resultou no sequestro do presidente Nicolas Maduro e da esposa, a deputada Cília Flores. Depois das concentrações de 5 de Janeiro (há outras acções marcadas), realizou-se em Lisboa uma sessão de esclarecimento e solidariedade, em que se deu voz aos povos da Venezuela, de Cuba e do Brasil e aos que por cá sempre estiveram ao seu lado na longa – e dura – luta pela soberania, o progresso social e a paz.

Os povos têm o direito de trilhar os caminhos de desenvolvimento que livremente decidirem

Promovida no dia 13 pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) e pela Associação de Amizade Portugal-Cuba (AAPC), a sessão contou com a participação da embaixadora da Venezuela, Mary Flores, do embaixador de Cuba, José Ramón Saborido Loidi, e dos activistas brasileiros Pedro Prola, do Núcleo de Lisboa do Partido dos Trabalhadores (PT), e Moara Crivelente, investigadora e dirigente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e de Luta pela Paz (CEBRAPAZ). Isabel Camarinha e Sandra Pereira representaram, respectivamente, o CPPC e a AAPC.

O local onde a sessão se realizou também merece referência: a Casa do Alentejo é, desde há muito, palco de múltiplas acções de solidariedade internacionalista e de luta pela paz, o que deve orgulhar o heróico povo alentejano, também ele solidário e combativo. A assistir – e a participar – estiveram representantes de várias organizações, como a CGTP-IN, o Projecto Ruído ou a Associação Nacional de Sargentos, e muita gente indignada e preocupada com o rumo perigoso que o imperialismo norte-americano impõe à Humanidade.

Esta sessão não foi ponto de partida nem de chegada. Ali falou-se das concentrações de dia 5 – em Lisboa, no Porto e em Braga – e do que está para vir: para breve está prevista a entrega de uma Carta Aberta ao presidente dos EUA, Donald Trump, promovida por seis organizações portuguesas; para os dias 20 e 23 estão marcados protestos em Coimbra e Évora; no dia 24 é apresentado ali mesmo, na Casa do Alentejo, o livro “Venezuela, a montanha acima das nuvens – uma hipótese de crónica”, de Rui Pereira; e estão a ser preparadas iniciativas nos distritos de Setúbal, Porto e Faro.

O 20.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, convocado para Caracas no próximo mês de Julho, será também expressão dessa solidariedade. O Comité Nacional Preparatório foi já constituído e o Projecto Ruído é uma das associações juvenis que o integra.

Das intervenções proferidas (de que publicamos alguns excertos) sobressaiu um forte contraste com aquela que é a narrativa do imperialismo, que todos os dias nos entra em casa pela voz de responsáveis políticos e toda a espécie de “analistas” e “comentadores”. E, com consciência plena das dificuldades, a confiança na possibilidade de travar o passo ao imperialismo e construir um mundo melhor e mais justo.

 

Organizações promovem Carta Aberta a Donald Trump

A Associação de Amizade Portugal-Cuba, a Associação Portuguesa de Juristas Democratas, a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional, o Conselho Português para a Paz e Cooperação, o Movimento Democrático de Mulheres e o Projecto Ruído – Associação Juvenil lançaram uma Carta Aberta ao presidente Donald Trump, na qual «exigem o fim das ameaças, da ingerência e da agressão dos EUA à República Bolivariana da Venezuela, assim como a outros países da América Latina e das Caraíbas; reclamam a libertação do Presidente Nicolás Maduro e da deputada Cília Flores; instam ao cumprimento dos princípios do direito internacional; e solidarizam-se com a luta dos trabalhadores e do povo venezuelano e de outros povos pela sua soberania e direitos, nomeadamente pelo direito a viver em paz».

Para além das organizações promotoras, várias outras já subscreveram a carta, que continua aberta a novos apoios.

 

 

A verdade, arma de luta contra o imperialismo

«O presidente Nicolas Maduro não foi capturado, foi sequestrado mediante o uso ilegítimo da força. Em segundo lugar, o presidente Maduro não representa um “regime”, como alguns procuram simplificar para o deslegitimar. Representa o governo bolivariano da Venezuela, herdeiro do projecto histórico iniciado pelo Comandante Hugo Chávez e reconhecido em eleições livres pelo povo venezuelano segundo a nossa Constituição. É importante dizê-lo com clareza, porque as palavras importam e porque a narrativa que se constrói em torno de um país pode ser utilizada para justificar agressões que violam o direito internacional.

A agressão ocorrida em madrugada de 3 de Janeiro constituiu mais uma etapa da política sistemática de assédio, asfixia económica, criminalização e desumanização contra a Venezuela. (…) Perante a agressão, o Estado venezuelano não colapsou (…). Desde esse momento, exerceu plenamente as suas funções, assegurando a estabilidade institucional e avançando nas vias de diálogo nas relações diplomáticas baseadas no respeito e apego à Carta das Nações Unidas. (…)

Convoco-vos (…) para construirmos juntos uma agenda internacional de solidariedade e mobilização activa para exigir o regresso do nosso presidente e da primeira dama, assim como o respeito pela soberania dos povos.»

Mary Flores, embaixadora da República Bolivariana da Venezuela


«O Governo Revolucionário de Cuba condenou nos termos mais enérgicos a agressão militar dos EUA contra a Venezuela, reiterando de forma categórica o apoio absoluto e a solidariedade à República Bolivariana da Venezuela e ao seu governo, exigindo enfaticamente a imediata libertação pelas autoridades norte-americanas do presidente Nicolas Maduro e da companheira Cília Flores. (...)

Ninguém pode duvidar que entre os objectivos do 3 de Janeiro na Venezuela está também o derrube do governo revolucionário cubano mediante o recrudescimento das sanções, do bloqueio, do corte do fornecimento de combustível para provocar o colapso do país e não param de acusar o governo cubano e o nosso Estado pela complexa situação criada no país.

Os que culpam a Revolução pelas severas dificuldades económicas que sofremos deveriam ter vergonha e ficar calados, pois sabem que estas dificuldades são o resultado das medidas draconianas de asfixia extrema que os EUA nos impuseram durante mais de seis décadas e que agora ameaçam intensificar. Cuba é uma nação livre, independente e soberana. Ninguém nos diz o que fazer. Cuba não ataca, é atacada pelos Estados Unidos há 66 anos, e não ameaça; prepara-se, pronta para defender a pátria até à última gota de sangue.»

José Ramón Saborido Loidi, embaixador da República de Cuba


«É necessário ampliar o diálogo nas nossas sociedades contra este tipo de acções ilegais e não ficarmos apenas fechados nos nossos círculos, aos que já estão “convencidos”. Temos de fazer uma disputa de narrativas e não permitir que se forme um consentimento ou indiferença social face a estas agressões.

É importante construir a unidade entre as nossas forças políticas e os nossos países, respeitando a diversidade e as diferenças, mas não deixando de reforçar as nossas relações, sabendo que o outro lado está articulado e apoiado pela maior potência do planeta, os EUA. (…)

Lembro a acção solidária do governo Lula, que enviou 100 toneladas de medicamentos após a destruição de um centro de distribuição em Caracas e a articulação junto de vários países no sentido de evidenciar o isolamento e o erro profundo da administração dos EUA nesta matéria. (…)

Há necessidade de criar frentes em defesa da paz e causas agregadoras como a democracia e a soberania dos países, o combate à fome (…).»

Pedro Prola, núcleo de Lisboa do Partido dos Trabalhadores (Brasil)


«Não é de hoje que os EUA vêem a América Latina e as Caraíbas como o seu quintal (…). A releitura da Doutrina Monroe, o chamado “Corolário Trump”, adiciona injúria e uma afronta de dois séculos aos povos da América Latina, desvelando algo que não é propriamente novo no conteúdo, embora pareça ser na forma. Os efeitos também poderão continuar agravando a situação internacional num momento em que atravessamos uma proliferação de turbulências estruturais.

Com isto, Trump intensificou a sua ofensiva contra a região, impondo medidas tarifárias descabidas contra o Brasil e, depois de invadir e sequestrar o presidente, elencar que medidas tomará para roubar um país inteiro, focando nos seus recursos e procurando impor uma tutela. Como uma demonstração de poder, redobra a ameaça a Cuba, ao governo de Gustavo Petro na Colômbia e ao governo do México. São posições intoleráveis que precisamos e continuaremos a repudiar, reforçando a mobilização popular.»

 

Moara Crivelente, Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e de Luta pela Paz (CEBRAPAZ)

«O momento exige que todos quantos defendem a paz, a cooperação, o respeito pela soberania dos povos, a resolução pacífica dos conflitos, prossigam a acção em defesa da paz e da solidariedade com a Venezuela bolivariana, com Cuba e outros países da América Latina e Caraíbas, com a Palestina e com todos os povos vítimas da agressão do imperialismo. Solidariedade que não começa agora, mas que é de sempre e que continuará. Esta iniciativa surge, assim, como forma de dar continuidade a uma forte onda de protesto e solidariedade que se tem vindo a desenvolver e que teve uma muito grande expressão nas acções convocadas pelo CPPC para o dia 5 de Janeiro (…).

Expressamos também profunda condenação pela posição vergonhosa do Governo português, que tem seguido um sentido de cumplicidade pelos crimes cometidos pelos EUA. Ainda na semana passada, ao arrepio da Constituição da República Portuguesa, Luís Montenegro defendeu que os EUA têm um papel na suposta transição pacífica e democrática na Venezuela e o ministro dos Negócios Estrangeiros considerou que a agressão teve “intenções benignas”.»

Isabel Camarinha, Conselho Português para a Paz e Cooperação

 

«As ameaças a Cuba são mais que muitas mas, convenhamos, não são de hoje: o povo cubano está há décadas a ser agredido pelas políticas norte-americanas (o criminoso bloqueio e outras medidas coercivas unilaterais) e – há que dizê-lo – é heróica, e eu diria mesmo exemplar, a capacidade de resistência daquele povo.

Se o imperialismo aumenta a ingerência, as ameaças, o intervencionismo e as agressões, respondamos com resistência, com mobilização nas ruas e com o reforço da solidariedade. A campanha de solidariedade com Cuba “Por Cuba! Fim ao Bloqueio!”, que a AAPC juntamente com outras organizações está a dinamizar, continua activa e continuamos a recolher bens materiais e financeiros para enviar para Cuba. Este mês vamos enviar, pelo menos, dois contentores.

É em solidariedade com Cuba, com a Venezuela e com os povos da América Latina que aqui estamos hoje e que aqui estaremos sempre que for necessário.»

Sandra Pereira, Associação de Amizade Portugal-Cuba