Palestinianos denunciam violações do cessar-fogo na Faixa de Gaza
Os EUA anunciaram o começo da “segunda fase” da aplicação do denominado plano para a Faixa de Gaza, mas os palestinianos denunciam a continuação dos ataques perpetrados pelas tropas israelitas.
Desde o começo do cessar-fogo, tropas israelitas violaram-no 1244 vezes, matando ou ferindo 1693 palestinianos
A resistência palestiniana reiterou, no sábado, 17, a sua total rejeição das contínuas violações israelitas do cessar-fogo na Faixa de Gaza, reclamou a pressão internacional para lhes pôr fim e mostrou-se céptica em relação à “segunda fase” do chamado “plano de paz”, impulsionado pelos EUA.
Para os palestinianos, os mais recentes ataques israelitas confirmam a continuação da sua política de sabotar os compromissos assumidos e perturbar os esforços declarados para estabelecer a paz na região. As constantes violações israelitas obrigam os mediadores e os países garantes a pressionar o governo de Telavive, acrescentam.
Segundo o gabinete de imprensa da administração da Faixa de Gaza, desde a entrada em vigor do cessar-fogo, em 10 de Outubro de 2025, até 15 de Janeiro, o exército israelita assassinou 449 palestinianos e feriu 1246 outros. Nesses 95 dias, os militares cometeram 1244 violações do cessar-fogo, incluindo 402 incidentes de tiroteios directos contra a população, 66 incursões de veículos do exército em zonas residenciais e 581 ataques e bombardeamentos.
Nesse período, ingressaram na Faixa de Gaza pouco mais de 24 mil camiões carregados com ajuda, apenas 43% dos 57 mil que deviam entrar como parte do compromisso alcançado.
“Segunda fase”
A situação na Faixa de Gaza entrou alegadamente numa nova etapa, após a criação da denominada “comissão de tecnocratas palestinianos”, encarregada de dirigir temporariamente o território. A resistência anunciou na semana passada que decidiu desmantelar as instituições que governam a Faixa de Gaza e facilitar a transição.
No dia 15, começaram no Cairo as primeiras reuniões da recém-formada comissão, encabeçada por Ali Abdel Hamid Shaath, antigo vice-ministro palestiniano, depois dos acordos alcançados na capital egípcia, na véspera, entre as diferentes facções palestinianas. A Turquia, o Catar e o Egipto, como países mediadores, saudaram a formação da comissão.
É indicado que esta comissão coordenará o seu trabalho com o dito “Conselho da Paz”, encabeçado pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, e um órgão executivo, encarregado de supervisionar o financiamento da reconstrução da Faixa da Gaza. O denominado “plano Trump” teve origem numa proposta inicialmente apresentada por países árabes e muçulmanos, cujo conteúdo foi posteriormente alterado por EUA e Israel, procurando impor termos que ferem a soberania e os direitos do povo palestiniano.
O “plano” pretende ocultar a urgência de pôr fim ao genocídio, cumprir o cessar-fogo e assegurar o acesso irrestrito da população palestiniana à ajuda humanitária. E que a questão fundamental que se coloca é o cumprimento das resoluções das Nações Unidas que apontam à concretização do Estado da Palestina, nas fronteiras anteriores a Junho de 1967, capital em Jerusalém Oriental e o cumprimento do direito ao retorno dos refugiados.
O presidente do Conselho Nacional Palestiniano, Rouhi Fattouh, destacou que a comissão nacional foi respaldada por todas as forças palestinianas e reiterou que a Faixa de Gaza é parte integral do Estado palestiniano e que não é possível nenhuma solução política justa sem que tal seja respeitado.
«É só tinta sobre papel»
Os habitantes da Faixa de Gaza mostram-se cépticos face ao anúncio do início da segunda fase do cessar-fogo no território, tendo em conta as contínuas violações israelitas dos compromissos acordados.
«A segunda fase já começou. Por que razão [os militares israelitas] não se afastaram para que pudéssemos regressar?», questionou Abu Jameh, de 63 anos, em declarações à agência de notícias Safa. «Desde Maio do ano passado que nos vimos obrigados a abandonar os nossos lares, passámos as noites na rua, em mesquitas e em escolas», contou. Em relação aos EUA, afirmou que «quem anunciou a segunda fase deveria obrigar Israel a retirar-se para lá das fronteiras». E mais: «Estamos fartos e cansados das constantes deslocações forçadas».
«Onde está a segunda fase? Os bombardeamentos, as balas, os helicópteros, os ataques… Tudo continua na mesma!», lamentou Abdullah Baraka, de 45 anos, residente na localidade de Abasan al-Kabira. Opinou que o anúncio feito pelo enviado especial dos EUA para o Médio Oriente, Steve Wittkopf, é «só tinta sobre papel». E criticou os permanentes ataques do exército israelita: «Tiraram-nos a vida na primeira etapa, regressámos e continuaram a disparar sobre nós».
Por sua parte, Ismail Maarouf, residente em Beit Lahia, assinalou que a população quer voltar às suas casas aconteça o que acontecer. Denunciou as deslocações forçadas na Faixa de Gaza e enfatizou que os seus habitantes só terão descanso na sua terra: «Queremos que os soldados ocupantes se retirem como foi acordado», insistiu.
Novo plano colonial para a Cisjordânia
O governo regional palestiniano de Jerusalém denunciou a construção de uma estrada por parte das autoridades israelitas para ligar os colonatos na Cisjordânia a Israel, um projecto que considerou uma violação das leis internacionais. Em comunicado, a entidade criticou a iniciativa conhecida como Rota 45, que consolidará os planos de anexação de terras palestinianas a norte de Jerusalém e a leste da cidade.
Tal obra realiza-se em paralelo com ampliações massivas de estradas de circunvalação que se estendem desde o posto de controlo militar de Hizma até à área de Ayoun ao-Haramiya. O objectivo é criar uma rede de estradas ligada e transversal que sirva os colonatos e fortaleça o controlo israelita sobre esta zona da Margem Ocidental.
Na semana passada, a Comissão Palestiniana contra o Muro e os Colonatos condenou o anúncio israelita sobre a construção de 3401 habitações para israelitas no chamado Corredor E1, uma medida que divide em dois a Cisjordânia. O chefe da instituição, Um’ayyad Sha’ban, advertiu que a Autoridade de Terras de Israel emitiu uma grande licitação para levantar blocos de edifícios nessa zona, apesar da rejeição mundial quanto à colonização por parte de Israel da Cisjordânia.
O ano passado ocorreu uma escalada sem precedentes no ritmo de licitações coloniais. Recentemente, a comissão denunciou que as forças militares e os colonos israelitas executaram 23.827 ataques contra palestinianos e suas propriedades na Cisjordânia, em 2025.




