O Encantador de Sereias, de Augusto Baptista
Um livro assim desperta-nos para as coisas fecundas da vida
Num tempo em que a fasquia da qualidade literária, começa a colocar-se dramaticamente baixa; num tempo em que figuras mediáticas, obreiras de livros possidónios, despacham autógrafos como velas de procissão; do regresso, com trombetas e marketing apurado de uma escrita de pipocas e chá de tília, promovida a acontecimento mundano nas páginas das revistas de coração lorpa; escritinha que vende tanto como a música pimba anglo-saxónica e se pavoneia nos écrans das televisões como se de um detergente se tratasse; que se mostra nas fachadas de prédios degradados ao lado de cartazes do Tony Carreira; num tempo assim, a tocar o fundo (quanto mais se toca no fundo, mais ele desce), olhamos o céu e o negrume quase nos açoita, impiedoso.
Manuel Vasquez Montalban, ao referir-se há uns anos, cáustico como sempre, à vida cultural madrilena, aventava que a literatura se reduzirá, a breve trecho, a pouco mais que de cordel, para ler de pé no intervalo das copas e das tapas. Se este era, no início do século XXI, o panorama desolador sentido pelos nossos vizinhos ibéricos – cujo consumo cultural é incomparavelmente superior ao nosso, com uma literatura pujante, influente e de dimensão planetária – o que então dizer de um país onde apenas 15% da população lê com alguma regularidade, onde 4 milhões de almas se quedam sonolentas e passivas frente a écrãs de televisão a olhar a sordidez dos quotidianos enjaulados de um grupo de rapazes e raparigas que dizem banalidades com a convicção boçal de quem está a rasurar as badanas da história, fingem orgasmos frente ao olhar omnipresente das câmaras e só com muito esforço conseguem articular, ao longo de 24 horas de sujeição comum, mais de 100 vocábulos, incluindo parga de verborreia canhestra e larvar e os bués da gíria.
No panorama desolador das artes em Portugal, país cujos responsáveis por essa área (agora menorizada, com uma ministra que parece pouco focada na matéria e com um orçamento cada vez mais miserável, muito longe do 1% que os criadores reivindicam), cercados pela programação das estações televisivas, que impingem o telelixo recolhido em todos os esgotos audiovisuais do hemisfério, ainda há espaço para a leitura, ainda é possível produzir literatura que exija do leitor tempo e contemplação, como escreveu Maria Gabriela Llasol, ou simplesmente seja a festa da sensibilidade, como a definiu Werner Krauss? Literatura a fazer-se despertando-nos para outras profundezas da vida, a urdir-se de signos efabulatórios que reconduzam o leitor pelos caminhos das questões humanas e do racional, a um tempo arguta, organicamente límpida e envolvente – literatura para o gozo dos sentidos mas a inquietar-nos, a sorver-se devagar como vinho de velhas cepas, a desenvolver uma ideia nova que nos intranquilize e faça sentir vivos.
Um livro assim, a despertar-nos para as coisas fecundas da vida, entre o absurdo e um surrealismo remoçado, a envolver a denúncia da amargura dos quotidianos frustres, a tornar o real mais nítido e tocante, existe, está aí, malgrado ter quase passado em silêncio por entre o bulício das vulgaridades que alguns média, acriticamente, colocaram em pedestais de sebo: O Encantador de Sereias, de Augusto Baptista, livro raro, de um pícaro hodierno, mas com memória, cavalgando o território das mini-estórias de modo feliz e solar.
Claro que Augusto Baptista, obreiro hábil de livros afins, nomeadamente os que deu à estampa para públicos mais jovens (O Lobo Mau no Hospital; A Senhora Prestável), e outros que baloiçam perto de O Encantador de Sereias, como O Caçador de Luas, e esse notável, O Medo Não Podia Ter Tudo, livro escrito a duas mãos por Augusto Baptista e Francisco Duarte Mangas.
As estórias de O Encantador de Sereias, se nos remetem amiúde para os Contos do Gin, de Mário-Henrique Leiria, no que nelas habita de surreal – sendo o surrealismo de Augusto Baptista de outra fundura discursiva, enfocando com destreza no real quotidiano –, têm, quer na linguagem, quer nos temas e no seu original modo de abordagem, uma marca identitária, uma voz singular, que faz deste livro algo de novo, de estimulante, que rasga o cinzentismo de alguma prosa bárbara com uma lúcida gargalhada, com sereno, inteligente sentido de humor.
Vejamos alguns exemplos: «APAGÃO – A luz quando volta, tem ideia? – Antes, espero, que a democracia apodreça. Mas nunca se sabe.»; «O FOCO – Era um presidente de junta focado no seu projecto; só ouvia música de câmara»; «LENTES DE AMARGURA – De óculos escuros! – Ossos do ofício. Ossos do ofício. – Então conte-me… – Ando a fazer um estudo sobre o salazarismo. Os óculos são para avaliar como eram esses tempos. – Ah, assim não consegue. Para alcançar a coisa o meu amigo precisa de óculos escuros sim, mas com lentes de ver para dentro, lentes que dêem para ver a amargura da alma.» Esta “amargura da alma”, está igualmente presente em duas notáveis narrativas curtas: Noite de Natal e Carta ao Pai Natal.
Eis um livro para os dias de hoje, ao “contrário das ondas”: feliz, assertivo, denunciador.




