A armadilha que a alternativa dispensa

Vasco Cardoso

Quem hoje disser que a demagogia, a mentira, os projectos ou o puro discurso reaccionário estão confinados ao Chega, ou é ingénuo ou está a tentar enganar alguém. Afinal de contas, quer o Chega, quer a IL, não inventaram nada. São, como em tempos alertámos, sucedâneos do PSD e do CDS. Foi aí que fizeram a sua incubação, ombro a ombro com Cavaco e Passos Coelho, com Manuel Monteiro e Paulo Portas, concretizando tudo o que o grande capital exigiu e que a luta não conseguiu travar até este decidir das vantagens de os apresentar com marca própria perante o “eleitorado”. A troca de camisola de muitos dos seus quadros – incluindo Ventura e Cotrim – não os obrigou a uma mudança radical de pensamento, foi mais coreografia.

É por isso que ninguém levará a sério as ditas “linhas vermelhas” ou o famoso “não é não” com que procuram separar uma suposta “direita democrática” da outra, a “radical”. Aliás, o destino convergente destas forças políticas esteve traçado desde o início como forma de ampliar apoios a uma política que PSD e CDS já tinham dificuldade em executar sozinhos. Dos governos regionais passando pela Câmara Municipal de Lisboa, até à viabilização de algumas das principais propostas do Governo de Luís Montenegro, foi uma questão de tempo, até que Chega e IL começassem a assumir esse papel.

Mas a emancipação do Chega e da IL dos seus progenitores não fez do PSD e do CDS novos defensores da democracia. A vertente reaccionária da sua política de confronto com a Constituição e os valores de Abril, apenas passou a ter uma cobertura mais ampla no plano parlamentar. Do Pacote Laboral às privatizações, da Lei dos Estrangeiros aos benefícios fiscais aos grupos económicos (IRC), da submissão à NATO à destruição do SNS, tudo exemplos de opções contrárias aos valores democráticos e que reúnem nos seu toda direita, mas não só. É que também o PS, com a “responsabilidade” e “sentido de Estado” que se lhe reconhece, seja para evitar “radicalismos”, seja para garantir essa espécie de “estabilidade”, não só tem viabilizado muitas das opções do Governo – desde logo os orçamentos do Estado de 2025 e 2026 – como tem alinhado em vários aspectos da narrativa reaccionária, como aconteceu recentemente no 25 de Novembro.

E no meio de tudo isto, é o PCP que, recusando cair na armadilha de centrar tudo no combate à extrema-direita, mantém acesa a chama da alternativa, afirmando um rumo, esse sim, de ruptura e mudança que tanta falta faz ao nosso país.

 



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