Confissões oportunistas de vassalos transformados em presas
A questão decisiva é o desenvolvimento da luta dos trabalhadores e dos povos
Lusa
Com a intensificação da agressão militar, das ameaças belicistas e da imposição de medidas coercivas a diversos países – desde logo aos que aponta como seus “adversários”, mas também aos que designa como “parceiros” ou que afirma serem seus “aliados” – e a proclamada assumpção de, por todos os meios ao seu alcance, salvaguardar o seu domínio e estabelecer a sua supremacia no plano mundial, o imperialismo norte-americano eleva a sua política de confrontação a um novo e mais grave patamar.
Na sua autêntica fuga em frente e corrida contra o tempo, expressa na sua impetuosa sanha de forçar tutelas neocoloniais e o controlo e saque de recursos, que não poupa os mais próximos, os seus “aliados”, os EUA estão a exacerbar contradições com as restantes potências imperialistas, que se reúnem no G7 e que se vêem explicitamente compelidas ao papel de vassalos.
Enfrentando sérias dificuldades, de que é exemplo o imparável crescimento da sua monumental dívida pública, os EUA procuram, em função da sua premente situação, tirar partido das debilidades, interdependências e dependências das principais potências capitalistas – seja no âmbito do G7, da NATO ou da União Europeia –, que se têm alinhado e subordinado às suas “regras”, procurando garantir o seu quinhão, no imenso saque do mundo. No entanto, a contradição torna-se gritante e mais difícil de sustentar quando o predador passa também, e de forma clara, a ser presa do superpredador – veja-se, por exemplo, a ambição de controlo do território da Gronelândia por parte dos EUA.
Tal realidade atravessou o Fórum Económico Mundial, realizado recentemente em Davos, estando patente em diversas intervenções, como a de Donald Trump ou a de Mark Carney, actual primeiro-ministro do governo liberal do Canadá, personagem com um percurso em instituições da grande finança internacional, incluindo na Goldman Sachs e como governador do Banco do Canadá e do Banco de Inglaterra.
Não deixando de reafirmar-se como arauto do neoliberalismo e do militarismo, Mark Carney falou como quem vê o seu país – à semelhança de outros países, apelidados de “médias potências” – passar de “aliado” a presa dos EUA, “descobrindo” e enunciando o que há muito é uma evidência, mas que alguns continuam hipocritamente a tentar escamotear e a dissimular. No entanto, não fosse enfurecer a fera, Mark Carney não só nunca proferiu o seu nome, como optou por mencionar e responsabilizar outros países cujos objectivos e política nada têm a ver com os objectivos e a política do imperialismo norte-americano.
Para Mark Carney, a denominada “ordem mundial baseada em regras” foi boa enquanto se tratou de agredir, de se ingerir, de coagir outros países, lado a lado com os EUA. Afirma Mark Carney: «Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob aquilo a que chamávamos ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Pudemos implantar políticas externas sob a protecção destas regras.»
«Esta ficção foi útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou-nos (...)» afirma Mark Carney, reconhecendo que, por isso, participaram nos «rituais» e que evitaram, «em boa parte, apontar as lacunas entre retórica e realidade.»
Agora, quando se tratou da sua vez, Mark Carney confessa que: «Sabíamos que a história desta ordem internacional era parcialmente falsa. Que os mais fortes se eximiriam quando lhes fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima.»
Sem mencionar os EUA, o arauto do neoliberalismo e do militarismo queixa-se que estes «começaram a usar a integração económica como arma: tarifas como vantagem negocial, a infra-estrutura financeira como coerção, as cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a serem exploradas.» E como se estivesse também a falar do processo de integração da União Europeia, dispara: «não se pode “viver dentro da mentira” de benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da vossa subordinação.»
Contudo, imbuído dos interesses de classe que representa, o primeiro-ministro do Canadá nunca assumirá que, face à escalada agressiva dirigida pelo imperialismo norte-americano, com as ameaças que comporta para a soberania e os direitos dos povos e para o futuro da Humanidade, a questão decisiva que se coloca é o desenvolvimento da luta dos trabalhadores e dos povos em prol da Paz, dos direitos, da soberania, da solidariedade internacionalista, assim como a convergência de uma ampla frente anti-imperialista que enfrente e faça recuar o imperialismo e abra caminho à construção de uma nova ordem internacional de paz e progresso social.




