António Chainho – uma guitarra para o aplauso geral
A obra de António Chainho é tão extensa como o leque de parcerias que estabeleceu ao longo da vida e os desafios musicais a que nunca se negou
Na Tasca do Faúlha, de São Francisco da Serra (Santiago do Cacém), entre conversas e petiscos, cantava-se o fado. Juntava-se gente dali e das redondezas para ouvir Amália na voz da proprietária, acompanhada à guitarra pelo seu marido. A cantora viria a dar à luz, em 27 de Janeiro de 1938, um rapaz a quem chamou António e que seria, por herança também, um nome maior do Fado de Lisboa.
Aos seis anos António descobriu os encantos do tanger cordas de aço e, aos treze, já subia ao palco acompanhado pelo viola de fado, alentejano também, António Parreira. Autodidacta, Chainho procurava nos programas de rádio ensinamento nas guitarras de José Nunes, Raul Nery e Jaime Santos para, depois, criar o seu próprio som, a sua técnica pessoal e um vocabulário musical inconfundível que marcaria profundamente o universo da Guitarra Portuguesa. Foi militar em Beja e em Moçambique, mas nunca deixou de ser guitarrista, acompanhando em palco os artistas que visitavam a colónia. Foi ali, em 1961, na pátria da FRELIMO, que viria a tornar-se músico profissional.
Regressado a Portugal, em 1966, fixa-se em Lisboa. Apresenta-se em diversas casas de fado, integra o conjunto de guitarras de Jorge Fontes, junta-se aos elencos das casas de fado A Severa, O Folclore e, mais tarde, do renomado Faia, onde conhece Carlos do Carmo, filho da fadista Lucília do Carmo. Em 1971 constitui um conjunto de guitarras que integra José Luís Nobre Costa (guitarra), Raul Silva e José Maria Nóbrega (violas), passando a acompanhar artistas de renome como Alfredo Marceneiro, Francisco José, Hermínia Silva, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, entre muitos outros.
Um Homem na Cidade
No Fado de Lisboa, António Chainho somaria o virtuosismo que lhe era natural ao engenho de acompanhador de Fado de Lisboa – uma espécie de metade do discurso fadista, em que a outra parte é cumprida pela voz. E é junto a Carlos do Carmo que levará o ofício de acompanhador a um lugar cimeiro, trabalhando em exclusivo com o Fadista ao longo de duas décadas (até 1991), repartindo com Raul Nery, as guitarras de um dos mais importantes trabalhos de sempre da música portuguesa – “Um Homem na Cidade”, sobre poemas de Ary dos Santos.
A obra de António Chainho é tão extensa como o leque de parcerias que estabeleceu ao longo da vida, tão variada como os desafios musicais a que nunca se negou. Grava discos (desde 1961) e programas de rádio e televisão, apresenta-se em salas esgotadas do Japão, Espanha, França, EUA, Inglaterra, Brasil, Suécia, entre outras. Edita em 1988 “A Guitarra e Outras Mulheres”, para as vozes de Ana Sofia Varela, Filipa Pais, Marta Dias, Teresa Salgueiro, Elba Ramalho e Nina Miranda; em 2003, leva ao palco o espectáculo “Ao Vivo no CCB”, composto por temas inéditos aos quais Marta Dias daria a voz e Fernando Alvim a viola.
Em 2001, António Chainho faz-se professor na Escola de Guitarra do Museu do Fado, considerando que «a Escola do Museu contribui para esta geração de novos guitarristas e para o aparecimento de novos valores».
Uma guitarra no meio da gente
António Chainho subiu muitas vezes aos palcos da Festa do Avante!, desde a primeira edição, em 1976. Recordaremos aqui a sua presença na Atalaia em 2015, apresentando na Festa o álbum “Cumplicidades”, com Paulo de Carvalho, Ana Bacalhau e Hélder Moutinho, entre outros, a seu lado naquele que foi um dos momentos altos da Festa em que celebrou 50 anos de carreira.
António Chainho recebeu, ao longo de seis décadas, louvores e honrarias – na sua Santiago do Cacém e além –, muitos aplausos em lugares do mundo inteiro. Em 13 de Setembro de 2024 resolveu afastar-se dos palcos. Para cenário final escolheu a Praça do Município de Lisboa, levando até ao último acorde um caminho feito entre os seus, entre o espaço comunitário da Tasca do Faúlha e o lugar, de todos também, de uma praça de Lisboa, rodeado de gente até ao fim.




