Kristin, o vácuo e a UE

João Oliveira

Os impactos da tempestade Kristin não surgiram no vácuo. O que com isto se quer dizer é que os efeitos devastadores daquela tempestade não estão desligados das vulnerabilidades do território nem do enfraquecimento da capacidade de preparação e resposta de Portugal face a eventos desta natureza.

Muitas das dificuldades nacionais que a tempestade Kristin revelou são produto directo das políticas promovidas e apoiadas pela União Europeia (UE) e executadas convictamente por sucessivos governos, incluindo o actual Governo PSD/CDS, que governa apoiado por IL e Chega e com a cumplicidade do PS.

O mínimo que o Governo português poderia fazer seria reclamar junto da UE os apoios (financeiros e outros) necessários para fazer face à difícil situação que enfrentam as populações nas regiões atingidas pela tempestade Kristin. Mesmo sabendo que esses apoios da UE, por mais significativos que fossem, não compensariam o País nem as populações pelos prejuízos que as políticas da UE já causaram.

No entanto, e em sentido contrário, o Governo português parece querer poupar a UE ao gasto das verbas e à maçada da decisão desses apoios. E, ainda por cima, parece apostado em encontrar na tempestade Kristin mais um pretexto para prosseguir e aprofundar as políticas promovidas ou impostas a partir da UE.

Analisando os impactos da tempestade e as dificuldades em responder à destruição que causou não é difícil compreender que a tempestade Kristin não aconteceu no vácuo, aconteceu no contexto que decorre das políticas e imposições patrocinadas pela UE.

Os condicionamentos e constrangimentos orçamentais, a falta de investimento público e a dependência de fundos comunitários, o abandono do mundo rural, a desvalorização dos serviços públicos e o enfraquecimento da sua capacidade de resposta, a desresponsabilização do Estado em múltiplas áreas, incluindo a Protecção Civil, a privatização de empresas e sectores estratégicos – com destaque para a energia, as telecomunicações, os transportes e também a construção –, o desmantelamento do aparelho produtivo e o desaproveitamento de recursos e capacidades nacionais, a prioridade dada ao sector dos serviços – em especial ao turismo – com a consequente desvalorização da indústria, da agricultura e das pescas são alguns dos traços que caracterizam as vulnerabilidades do território sobre o qual se abateu aquela tempestade e o enfraquecimento da capacidade de preparação e resposta do País à devastação causada por eventos deste tipo.

Quem queira um País mais preparado para lidar com estas situações sabe que o caminho a fazer é o inverso, é o do controlo público de empresas e sectores estratégicos, é o da valorização e desenvolvimento da produção nacional, é o do reforço do investimento público, é o do reforço da capacidade de resposta dos serviços públicos e do papel do Estado nos aspectos mais relevantes da vida nacional.

E esse caminho exige enfrentar as imposições da UE que vão em sentido contrário.

 

 



Mais artigos de: Internacional

Israel continua a atacar Gaza e a sabotar o cessar-fogo

A continuação dos ataques israelitas à Faixa de Gaza provocaram, nos últimos dias, quatro dezenas de mortos palestinianos. Entretanto, no quadro da implementação da segunda fase do denominado “plano de paz”, os países que têm mediado as negociações anunciaram a reabertura, condicionada, da passagem fronteiriça de Rafah.

Cuba condena escalada de agressão dos EUA

O presidente dos EUA, Donald Trump, assinou no passado dia 29 de Janeiro uma ordem executiva considerando Cuba como uma «ameaça invulgar e extraordinária» para a segurança dos EUA, como pretexto para agravarem ainda mais a pressão sobre o país.

EUA ameaçam Irão com nova agressão

Os EUA concentram forças militares no Médio Oriente ameaçando o Irão com uma nova agressão militar. Entretanto, em resultado dos múltiplos contactos e esforços em curso para fazer baixar a tensão no Médio Oriente, foram abertas portas à negociação. O Irão reitera que não procura a guerra, mas que que se defenderá se for atacado.

A África e Cuba

Os povos africanos, as suas forças progressistas, conhecem bem o papel fundamental que Cuba desempenhou na luta contra o colonialismo português e pela libertação da África Austral do jugo dos regimes racistas criados pelo imperialismo. Em 1965, em Conakry, na República da Guiné, Amílcar Cabral e Che Guevara...