Kristin, o vácuo e a UE
Os impactos da tempestade Kristin não surgiram no vácuo. O que com isto se quer dizer é que os efeitos devastadores daquela tempestade não estão desligados das vulnerabilidades do território nem do enfraquecimento da capacidade de preparação e resposta de Portugal face a eventos desta natureza.
Muitas das dificuldades nacionais que a tempestade Kristin revelou são produto directo das políticas promovidas e apoiadas pela União Europeia (UE) e executadas convictamente por sucessivos governos, incluindo o actual Governo PSD/CDS, que governa apoiado por IL e Chega e com a cumplicidade do PS.
O mínimo que o Governo português poderia fazer seria reclamar junto da UE os apoios (financeiros e outros) necessários para fazer face à difícil situação que enfrentam as populações nas regiões atingidas pela tempestade Kristin. Mesmo sabendo que esses apoios da UE, por mais significativos que fossem, não compensariam o País nem as populações pelos prejuízos que as políticas da UE já causaram.
No entanto, e em sentido contrário, o Governo português parece querer poupar a UE ao gasto das verbas e à maçada da decisão desses apoios. E, ainda por cima, parece apostado em encontrar na tempestade Kristin mais um pretexto para prosseguir e aprofundar as políticas promovidas ou impostas a partir da UE.
Analisando os impactos da tempestade e as dificuldades em responder à destruição que causou não é difícil compreender que a tempestade Kristin não aconteceu no vácuo, aconteceu no contexto que decorre das políticas e imposições patrocinadas pela UE.
Os condicionamentos e constrangimentos orçamentais, a falta de investimento público e a dependência de fundos comunitários, o abandono do mundo rural, a desvalorização dos serviços públicos e o enfraquecimento da sua capacidade de resposta, a desresponsabilização do Estado em múltiplas áreas, incluindo a Protecção Civil, a privatização de empresas e sectores estratégicos – com destaque para a energia, as telecomunicações, os transportes e também a construção –, o desmantelamento do aparelho produtivo e o desaproveitamento de recursos e capacidades nacionais, a prioridade dada ao sector dos serviços – em especial ao turismo – com a consequente desvalorização da indústria, da agricultura e das pescas são alguns dos traços que caracterizam as vulnerabilidades do território sobre o qual se abateu aquela tempestade e o enfraquecimento da capacidade de preparação e resposta do País à devastação causada por eventos deste tipo.
Quem queira um País mais preparado para lidar com estas situações sabe que o caminho a fazer é o inverso, é o do controlo público de empresas e sectores estratégicos, é o da valorização e desenvolvimento da produção nacional, é o do reforço do investimento público, é o do reforço da capacidade de resposta dos serviços públicos e do papel do Estado nos aspectos mais relevantes da vida nacional.
E esse caminho exige enfrentar as imposições da UE que vão em sentido contrário.




