Epstein, fábula de um regime pedófilo

António Santos

É fácil ficarmos ofuscados pela escala dos “ficheiros Epstein”. Subitamente está lá tudo e estão lá todos, como que dissoluto, o tudo e o nada, numa pasta monstruosa de 3,5 milhões de emails, interminável crónica epistolar do tráfico de crianças e do abuso de menores, de torturas e assassinatos, de rituais e sociedades secretas, de espionagem e conspirações, de verdades e mentiras. Para evitar que o real significado do caso Epstein se dissolva na imensidão dos seus detalhes sórdidos ou na multidão dos envolvidos é necessário um afastamento higiénico, sair da sua tenebrosa ilha privada para ver que forma ela tem.

Os ficheiros Epstein são o poço moral do capitalismo: sempre que cai o balde e se puxa a corda descobrimos mais podridão. Globalistas e nacionalistas, liberais e conservadores, democratas e republicanos, financeiros e industriais, primeiros-ministros e príncipes, israelitas e estado-unidenses… todos negociavam com Epstein privilégios, segredos, e perversidades e muitos milhões. Bannon, ex-estratega de Trump, Larry Summers, secretário do Tesouro de Bill Clinton e conselheiro de Obama; Peter Mandelson, ministro de Tony Blair e ex-comissário europeu de Durão Barroso, Jes Staley, o dono da Barclays, o ex-príncipe Andrew, Elon Musk, o homem mais rico do mundo, Steve Tisch, magnata da indústria cinematográfica, Ehud Barak, ex-primeiro-ministro de Israel; Bill Clinton; Peter Thiel, dono da Palantir, são alguns entre os milhares de nomes profusamente citados como clientes, parceiros ou confidentes de Epstein. Convenientemente, nenhum foi formalmente acusado de qualquer crime, ou teriam de ser todos, a começar por Trump, que surge nos ficheiros do pedófilo 38 mil vezes, mais vezes do que na Bíblia surge o nome de Jesus. Os ficheiros revelam que no micro-cosmos da alta finança global não há muitos segredos nem divisões ideológicas mas, sobretudo, não há escrúpulos.

O fantasma de Epstein, que em 2019 apareceu enforcado na cela, assombra agora as carreiras dos seus amigos, a começar por Trump. O magnata convencera milhões de trabalhadores de que tinha um ego tão grande que poderia exercer a presidência como uma espécie de traidor de classe empenhado em perseguir os seus inimigos pessoais e a «drenar o pântano» das elites, inimigos comuns da classe trabalhadora estado-unidense. Os ficheiros Epstein demonstraram que a traição de classe é uma promessa que Trump simplesmente não pode cumprir. Se antes das eleições de 2024 Trump prometia expor a totalidade dos ficheiros Epstein, uma vez eleito recusou-se a fazê-lo até o Congresso lhe arrancar divulgações parciais e altamente censuradas. Pam Bondi, procuradora-geral de Trump, que jurava ter «a lista de clientes de Epstein em cima da mesa» de repente garantia que «a lista de clientes nunca existiu». O que é inaceitável para milhões de eleitores de Trump não é apenas a sua imoralidade, que já era sobejamente conhecida, mas a compreensão de que foram enganados: na Ilha de Epstein, Trump e Clinton eram iguais.



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