- Nº 2726 (2026/02/26)
Sociedade

O dia 8 de Março: um dia de descompressão ou de luta que pode transformar a vida?

Argumentos

O Dia Internacional da Mulher não nasceu como efeméride simbólica nem esvaziada de conteúdo. Nasceu da luta das trabalhadoras, da resistência organizada contra a exploração e da exigência de direitos laborais, dignidade e participação política. Um dia de luta capaz de agregar mulheres em torno da defesa de direitos e de uma vida em igualdade. Recordar esta origem é afirmar uma verdade essencial: os direitos nunca foram oferecidos, mas conquistados.

Hoje, no plano nacional, esta data mantém-se plena de actualidade e necessidade. Persistem violências, discriminações salariais, precariedade, vínculos e projectos de vida instáveis que atingem de forma específica as mulheres. São elas quem mais ocupam sectores mais desvalorizados e (mais) mal pagos; quem interrompe carreiras perante a falta de creches e equipamentos de apoio à família e quem suporta a sobrecarga das tarefas domésticas. A degradação do SNS, as dificuldades na escola pública ou o incomportável aumento dos custos com a habitação, que agravam desigualdades e tornam mais pesada a vida de quem assegura o dia-a-dia.

Simultaneamente, multiplicam-se discursos que procuram limitar a emancipação à esfera individual, ocultando as condições materiais concretas que impedem a liberdade. Promove-se uma ideia de “empoderamento” compatível com baixos salários, horários desregulados e mercantilização dos direitos, de liberdade em ser explorada. Mas, nada disto é emancipação, mas adaptação à exploração.

O Dia Internacional da Mulher não é neutro, nem simbólico

Entre flores e campanhas, constrói-se a ideia de um dia que alivia consciências sem alterar realidades – sob uma pretensa unidade –, que oculta o contributo das políticas de direita (e dos seus responsáveis) no agravamento das condições de vida, na degradação de serviços públicos e no incumprimento de direitos fundamentais. A mesma pretensa unidade em torno da libertação das mulheres, enquanto alguns pactuam com a mercantilização do corpo da mulher e com a exploração sexual na prostituição e na pornografia, branqueando mercados milionários à custa da violência sobre milhões de mulheres. Esta falsa liberdade serve interesses e, também, por isso, defender os direitos das mulheres implica recusar o proxenetismo e qualquer sistema que transforme o corpo em mercadoria, ou que se alimente da exploração.

É neste quadro que a Manifestação Nacional de Mulheres, promovida pelo MDM, assume particular importância. Mais do que assinalar uma data, afirma reivindicações concretas: igualdade salarial, valorização do trabalho, direitos laborais efectivos, serviços públicos universais, protecção na maternidade, defesa dos direitos sexuais e reprodutivos, prevenção e combate a todas as formas de violência. Reúne trabalhadoras, jovens, reformadas, estudantes e migrantes, dando expressão colectiva às suas aspirações e reforçando a organização necessária para as concretizar.

Queremos condições reais para viver com liberdade e dignidade. Porque a igualdade constrói-se. E constrói-se, lutando também nas acções no âmbito da Semana da Igualdade, promovidas pela CGTP-IN, e na Manifestação Nacional de Mulheres, que se realiza a 7 de março, em Portalegre, e a 8 de Março em 19 cidades, em todo o País.

Mas a luta não se faz apenas com indignação, mas também com alegria e esperança. Participar é afirmar que a liberdade não se resume a palavras e que a dignidade não pode ser adiada. É transformar um dia simbólico num movimento contínuo capaz de transformar a vida.

Porque o 8 de Março não serve para descomprimir da exploração. Serve para a combater e para abrir caminho a uma sociedade mais justa, onde viver com direitos seja regra e não privilégio.

Dia 8 de Março, todas à rua, porque não nascemos para aguentar, mas para transformar.

Tânia Mateus