Morreu o escritor António Lobo Antunes
António Lobo Antunes morreu, no passado dia 5, aos 83 anos, após uma vida consagrada à escrita de mais de 30 romances e incontáveis crónicas, ensaios e poemas, que o consagraram, nas palavras de Lídia Jorge, como portador de uma «força inovadora».
«Conseguiu fazer o que se pensava impossível: juntar o modelo do romance psicológico do início do século XX com a narrativa histórica de um país», sublinha a escritora, citada pela Lusa.
Este «impossível» teve início com a publicação do primeiro livro, Memória de Elefante (1979), seguido, no mesmo ano, por Os Cus de Judas, enas décadas seguintes por obras como Manual dos Inquisidores (1996), Ontem Não Te Vi Em Babilónia (2006) ou O Tamanho do Mundo (2022).
Nascido em Lisboa em 1942, licenciou-se em Medicina em 1969, especializando-se em Psiquiatria. Em 1970, foi mobilizado para o serviço militar, servindo em Angola na Guerra Colonial.
Toma a opção da escrita a tempo inteiro em 1985. Porquê? Dizia que para responder à depressão, comum a todas pessoas. Rui Cardoso Martins, também escritor, citado pelo Diário de Notícias, lembrou uma história que Lobo Antunes lhe contou sobre esta opção: médico, trabalhando na pediatria do Hospital de Santa Maria, ter-se-á deparado com a morte de uma criança com cancro. Na crónica Um pé a baloiçar, nu, fora do lençol, é o próprio autor que nos conta que, após assistir à morte do rapaz, já enrolado num lençol, «um dos pés do miúdo baloiçava, nu, fora do pano». «Um pé minúsculo: continuo a vê-lo, desaparecendo ao fundo, na porta. Às vezes ocorre-me pensar que é para esse pé que escrevo».
Também Vitorino Salomé recordou à Lusa, o amigo que agora nos deixa, «o Senhor António – como gostava de ser chamado nas tabernas e restaurantes». Com as letras dele, cantou os versos como os que usou no álbum Eu Que Me Comovo Por Tudo E Por Nada (1992).




