- Nº 2729 (2026/03/19)

Em Lisboa e do Porto um forte clamor pela paz, a soberania e a solidariedade

Em Foco

Apesar da chuva que teimou em cair, foram muitos os que – em Lisboa e no Porto – saíram à rua para combater as ameaças e agressões dos EUA e defender a paz, a soberania e a solidariedade com os povos – e assim também os direitos e condições de vida dos trabalhadores, da juventude e do povo português, sobre quem estão a recair algumas das consequências da política de confrontação e guerra do imperialismo.

Ainda não tinha começado e já se percebia que a manifestação “Paz, soberania, solidariedade. Fim às ameaças e agressões dos EUA!” iria ser expressiva, tal foi a abrangência alcançada na sua convocação: ao CPPC, à CGTP-IN, ao MPPM, ao Projecto Ruído e a tantas outras entidades que a promoveram juntou-se mais de uma centena de organizações, das mais variadas áreas de intervenção, no apelo à manifestação e no apoio aos seus objectivos. E na tarde de sábado, mesmo sob chuva persistente que caiu tanto em Lisboa como no Porto, essa convicção foi confirmada: a luta pela paz, contra o imperialismo e a guerra, voltou a sair às ruas com força, num tempo em que é tão necessária.

Em Lisboa, o percurso entre a Cidade Universitária e Sete Rios, com passagem junto à Embaixada dos EUA, fez-se ao som de palavras de ordem permanentes, também inscritas em faixas e cartazes: contra a agressão norte-americana e israelita ao Irão e ao Líbano; pelo fim do genocídio e da ocupação da Palestina; de solidariedade com os povos de Cuba, da Venezuela, do Sara Ocidental, que há muito se batem pela sua soberania, independência e direito ao desenvolvimento e que enfrentam por estes dias graves ameaças. Em vários momentos foram também referidos os conflitos na Ucrânia e no Sudão e as ameaças dos EUA à Colômbia, ao México, ao Brasil e também à Gronelândia.

Da Batalha à Trindade, no Porto foram também muitos a gritar contra a guerra. “Pela Paz! Pela soberania! Pela solidariedade!”, pelo fim às ameaças e às agressões dos EUA! “Paz sim, guerra não!”. Santa Catarina, Fernandes Tomás e Rua da Trindade também testemunharam as reivindicações: “Pela Paz, todos não somos demais!” Palavras de ordem que, não sendo novas, são prementes: “Pela Paz e por Abril, somos muitos, muitos mil!”; “Cuba Vencerá”; “Venezuela soberana é bolivariana”; “Israel é violência, Palestina é resistência!” E tantas, tantas outras…

Nas duas principais cidades do País estiveram muitos dos que compreendem a realidade por detrás de toda a propaganda e vêem na escalada de agressões, ameaças, ingerências, bloqueios económicos e outras formas de opressão contra países e povos, na guerra e no militarismo, uma tentativa dos EUA e seus aliados de procurarem manter o seu domínio no plano mundial, hoje em evidente declínio. As consequências, essas, são dramáticas para milhões de pessoas – e podem ser ainda mais, à medida que aumenta o risco de um conflito de trágicas proporções.

Postura do Governo afronta Portugal de Abril

Se todas estas exigências eram dirigidas em primeiro lugar aos que desde há décadas constituem a principal ameaça à paz no mundo, os Estados Unidos da América, não poupavam outros: as potências do G7, da NATO e da UE, sempre subservientes ao imperialismo norte-americano; Israel, naturalmente, instrumento central da estratégia dos EUA para o Médio Oriente; mas também os sucessivos governos portugueses, e particularmente o actual, por ignoraram o que a Constituição lhes impõe, desde logo a defesa da paz, da solução política dos conflitos e dos direitos dos povos; o desarmamento geral, simultâneo e controlado; a dissolução dos blocos político-militares.

No Porto, a vice-presidente do CPPC, Manuela Branco, foi categórica na condenação do Governo português por estar «alinhado desde o primeiro momento com a agressão militar dos EUA e Israel ao Irão, incluindo com a permissão da utilização da Base das Lajes e envolvendo Portugal nesta violação dos princípios do Direito Internacional e da Constituição da República Portuguesa». Em Lisboa recordou-se o apelo da manifestação, no qual se rejeita o «alinhamento do Governo português com a confrontação, o militarismo e a guerra» e se reafirma o valor e actualidade dos princípios inscritos na Constituição da República Portuguesa.

O compromisso dos presentes com a luta pela paz e a solidariedade fez-se ao som de Grândola, Vila Morena, hino da Revolução de Abril e compromisso pela construção de uma “terra da fraternidade”. Novo encontro ficou já marcado para Lisboa a 30 de Março, Dia da Terra da Palestina, para exigir o fim do genocídio e da ocupação, a concretização do Estado da Palestina independente e soberano, e ainda o fim da agressão ao Irão e ao Líbano, a paz no Médio Oriente e no mundo.

 

As duas faces da moeda imperialista

Tivesse sido “só” uma manifestação de apoio aos povos que resistem a agressões ou ameaças e já teria valido a pena realizá-la, pois a solidariedade é a ternura dos povos e importa travar a “lei do mais forte” nas relações internacionais. Mas o que esteve em causa na manifestação de sábado não foi apenas a solidariedade com outros – e tão importante que é alargá-la –, mas a própria luta em defesa das condições de vida dos trabalhadores, da juventude e do povo português, sobre quem já recaem os efeitos da guerra, desde logo com o aumento do preço dos combustíveis e de outros bens essenciais.

 

Não pode ser o povo a pagar a factura da guerra

O PCP solidarizou-se com a manifestação “Paz, soberania e solidariedade! Fim às ameaças e agressões dos EUA!” e os seus objectivos. Em Lisboa, o Secretário-Geral do Partido, Paulo Raimundo, reafirmou a necessidade de travar a loucura da guerra, que se sabe como começa «mas não se sabe como acaba». O dirigente comunista acusou ainda o Governo de ter «arrastado o País para esta guerra, e nós estamos todos a sofrer as consequências».

Num quadro marcado pelo súbito aumento de preços dos combustíveis, Paulo Raimundo questionou que contributo darão as grandes empresas dos sectores petrolífero, da grande distribuição, da banca – que têm vindo a amealhar lucros históricos – ou se serão apenas os trabalhadores e o povo a suportá-lo. «Não podemos admitir e apelamos a que o povo não permita que sobre uma vez mais para si pagar a factura da guerra e do militarismo».