Poder pode, respondeu Bertolt Brecht
O mundo precisa mesmo de ser transformado
No âmbito das comemorações do 27 de Março, Dia Mundial do Teatro, os agentes teatrais multiplicam iniciativas para assinalar a data. Alguns aproveitam para debater o papel do teatro na sociedade motivados pela mensagem anual encomendada pelo Instituto Internacional do Teatro da UNESCO a uma personalidade, à partida, reconhecida na área. A tradição remonta a 1962 e a mensagem é lida nos teatros, um pouco por todo o mundo. Este ano será escrita por Willem Dafoe. Enquanto produzimos este artigo o texto ainda não está disponível. Ficamos assim desculpados por contribuir para o debate partindo de outro estímulo.
Mas apenas se for concebido
como um mundo possível de ser transformado
É bem conhecida a tese de Karl Marx onde é afirmado que «os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo». Estudioso de Marx, Bertolt Brecht reivindicou esse cunho, de filósofo, na sua muito fértil actividade teatral, tanto teórica como prática, enquanto director teatral, dramaturgo e encenador. «Creio que o mundo de hoje pode ser reproduzido, mesmo no teatro, mas apenas se for concebido como um mundo possível de ser transformado», foi a resposta de Brecht à pergunta «pode o teatro reproduzir o mundo de hoje?», lançada como mote de um debate.
Decorrente do pensamento de Marx, a tese de Brecht lança um desafio a quem faz teatro. Num tempo de agudização da luta de classes, da exploração, da crise do capitalismo que lança uma vez mais sobre os povos as garras do fascismo, da guerra, da destruição, do aumento do custo de vida, a quem interessa que esta realidade – e suas vis consequências na vida de todos – apareça aos nossos olhos como inevitável, como algo que não pode ser de outra maneira? A quem interessa esconder que as actuais relações de opressão podem ser transformadas? Logicamente, as ideias de imutabilidade e inevitabilidade servem a quem impõe que o mundo continue assim, ou seja, aos que dominam economicamente e, por isso, capturam também o conteúdo produzido com as ferramentas e os meios da produção cultural que são, em larga maioria, também por eles detidos.
Existem no entanto, no movimento teatral e artístico português, vastos meios de produção, ferramentas e pessoas – nas estruturas associativas, tanto amadoras como profissionais, entre outras de serviço público – em condições de ocuparem, na batalha pelo conteúdo em curso, o papel decisivo de responder de forma mais alargada ao desafio de mostrar o mundo como possível de ser transformado. Dizemo-lo porque acreditamos que muitos agentes teatrais concordarão connosco na ideia de que o mundo precisa mesmo de ser transformado, e que essa ideia precisa de acção em conformidade.
Terminamos relembrando parte de um poema de Brecht intitulado “Acerca do Teatro do Quotidiano”: Vê, aquele homem, ali na esquina! Está a mostrar / Como se passou o desastre. Está a expor / O motorista à crítica da multidão. Mostra como ele ia sentado / Ao volante; mas eis que imita, agora o sinistrado, / Simulando um velho. De ambos revela, apenas, / O suficiente para tornar o desastre compreensível, o suficiente / Para fazê-lo surgir perante os nossos olhos. No entanto, / Do modo como ele mostra, percebemos que não seria impossível escaparem ao desastre. / O desastre torna-se, assim, compreensível e incompreensível, / Pois ambos poderiam ter executado movimentos completamente diferentes; / E eis que mostra como poderiam ter sido / Esses movimentos para que o acidente não ocorresse. Não há / Superstição alguma, nesta testemunha ocular, / Não entrega os mortos a uma má sina, / Mas sim aos seus erros.




