Manifestação de estudantes do Ensino Superior

Milhares provam que a sua tradição é mesmo a luta!

Milhares de estudantes de todo o País encheram, na terça-feira, 24, as ruas de Lisboa, numa poderosa manifestação que comemorou o Dia Nacional do Estudante em luta pelo Ensino Superior de Abril, público, gratuito, democrático e de qualidade. A manifestação decorreu sob o mote «A nossa tradição é a luta».

Pelo Ensino Superior de Abril, público, gratuito, democrático e de qualidade


Quem passasse, naquele início de tarde, pelo Rossio, talvez se questionasse sobre o que é que ali se passava. Os turistas foram mesmo inquirindo à medida que iam passando. A praça estava tomada.

De gente, é certo, vinda dos quatro cantos do País, todos jovens, sorridentes, gritando pelos seus direitos, uns vestindo roupa comum, outros envergando o traje académico ou camisolas das suas faculdades e associações. Todos eles estudantes.

De faixas, cartazes e estandartes, que coloriam as até então brancas pedras do Rossio, cada uma com uma reivindicação diferente. E eram tantas! «Por um Ensino Superior de Abril», «Mais camas em residências públicas», «A educação é um direito, merecemos mais respeito», «Licenciada hoje, emigrada amanhã». Algumas, representavam problemas específicos de cada instituição de Ensino Superior (IES) ou faculdade, como a da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, que reclamava contra a «política dos 3 R’s» («reforma curricular», «retirada do shuttle» e «reaumento do prato social»).

A praça estava, ainda, a transbordar de palavras-de-ordem, de «propinas e Bolonha, é tudo uma vergonha» a «acção, acção, acção social não existe em Portugal».

Aos turistas, a resposta era a mesma, fosse repetida em inglês, português ou “portunhol”: trata-se de uma manifestação nacional de estudantes, a comemorar o seu dia e a lutar pelos seus direitos.

No caminho de Abril

Do Rossio, a manifestação partiu para o Chiado, daqui para a Calçada do Combro, longo caminho a descer e a subir, passando pelo coração da capital, até alcançar a frente da Assembleia da República.

Ainda nos primeiros passos, sob o olhar imponente do Elevador de Santa Justa, a primeira paragem. Do cimo de um prédio, estudantes lançavam cravos vermelhos, que eram agarrados pela multidão. Da mesma varanda, e perante “vivas” dos manifestantes, uma gigantesca faixa era estendida, apelando, em letras rubras, ao «fim da propina».

O caminho seguiu, e em todo o seu comprimento iam sendo exclamadas novas e vibrantes palavras-de-ordem. «Para a guerra vão milhões, p’ró ensino só tostões», «não é só um caso, são milhares de estudantes com as bolsas em atraso», ou, em tom de cântico, «olé olé, senhor ministro, ai se gosta de propinas, ai venha cá e pague as minhas», são alguns dos exemplos.

No percurso, a manifestação ainda pôde aplaudir Paulo Raimundo, que encabeçava uma delegação do PCP. Em declarações aos jornalistas, o Secretário-Geral mostrou-se solidário com os estudantes, tanto das faculdades como das escolas (ver caixa).

«Têm razão para estar na luta», asseverou, valorizando reivindicações como melhores condições de estudo ou o fim das propinas. «O Governo quer impor que quem tem dinheiro, estude. Quem não tem, fica de fora».

Volta e meia, a marcha parava. Os estudantes acocoravam-se, sob um profundo e longo coro. «Dói...», diziam. Mais alguns se baixavam. «Dói…», continuavam. E então, quando já estavam todos de cócoras, lançavam-se aos saltos, gritando a plenos pulmões «dói, a propina dói, a propina, dói, a propina dói, dói a propina». A luta é mesmo alegria.

«Somos milhares»

Na praça junto ao Parlamento – demasiado pequena para a imensa multidão –, Amélia Saraiva, presidente da Associação de Estudantes (AE) da FCSH, que conduziu aquele momento de encerramento do desfile, saudou os presentes. Aproveitando o momento, deixou claro que a luta dos estudantes é «inseparável da luta pela paz», considerando que o dinheiro que é gasto na guerra serviria, por exemplo, para aumentar os apoios da acção social escolar (ASE), manifestamente insuficientes.

Estes e outros problemas do Ensino Superior foram abordados por David Talete, membro da direcção da AE da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. «Mais uma vez, somos milhares», declarou, olhando, no palco, a multidão.

O dirigente associativo valorizou o facto de, como em anos anteriores, ter sido possível a construção daquela manifestação, assente na luta e que parte dos problemas concretos dos estudantes.

«Estamos aqui para dar um passo em frente», assinalou, lembrando que foi a luta que impediu que o Governo concretizasse as suas intenções de aumentar as propinas.

Antes do orador, interveio José Machado, presidente da Associação Académica de Coimbra, que, falando em nome das académicas, denunciou a proposta do Governo de revisão do Regime Jurídico das IES (RJIES), considerando-o um retrocesso ainda maior na representação dos estudantes nos órgãos das suas instituições.

«Não são miragens»

David Talete lembrou, ao longo da sua intervenção, as principais reivindicações expostas no apelo da manifestação, subscrito por dezenas de estruturas do movimento associativo (AE, académicas, núcleos, grupos, tunas e comissões de residentes). «As soluções», avançou, «não são miragens nem sonhos distantes».

Se o Governo continua a insistir no aumento das propinas e em abanar uma “reforma” caduca da ASE, os estudantes, afirmou, lutam por gratuitidade, com o fim das propinas, taxas e emolumentos, alicerçada em mais e melhores bolsas de acção social.

Se o Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior está executado em 13 por cento, com apenas 15 mil camas públicas para 175 mil deslocados, os estudantes lutam por alojamento, com mais camas em residências públicas, que assegurem a todos o direito a poder ter um tecto.

Se Luís Montenegro continua apostado numa revisão do RJIES que reduz ainda mais a presença estudantil nos órgãos das IES, os estudantes lutam por democracia e participação nas suas faculdades.

E se, sublinhou, perante estes e muitos outros problemas, os «responsáveis pelas nossas dificuldades» nada fazem, o caminho é só um: «O futuro dos estudantes só pode passar pela luta»!

 

«Não te deixes ficar!»

Termina amanhã a Semana de Luta do Ensino Secundário, que decorre desde dia 23. Sob o mote «Não te deixes ficar! Luta já!», a iniciativa exige melhores condições, valorização da avaliação contínua e democracia nas escolas, respondendo com protestos, concentrações e RGA ao apelo do Movimento Voz aos Estudantes e de dezenas de AE.

De todas as mais de 45 acções, que mobilizaram milhares de estudantes, são de destacar as manifestações em Faro e no Porto, no dia 24.

Na Invicta, o percurso teve início junto à Escola Secundária Soares dos Reis, de onde partiu rumo ao edifício da DREN, animado por tambores que ritmavam palavras de ordem como «Governo, escuta, estudantes estão em luta» ou «Ai não, exames não». Sobre estes, é o apelo que os classifica como momentos de avaliação que «continuam a impedir tantos [estudantes] de aceder ao ensino superior, a desvalorizar anos de estudo e aprendizagem por umas horas de exame».

Os estudantes também se comprometeram a «continuar Abril», exigindo mais democracia nas escolas. «São tantos os ataques aos nossos direitos, as tentativas de impedir RGA, inclusive com ameaças de processos disciplinares, as ingerências ilegais nos processos das associações de estudantes, tentando controlar quem, como e quando se pode candidatar; as limitações a actividades das AE, sem respeitar o seu direito à autonomia», refere o apelo.

A manifestação reuniu centenas de estudantes de todo o concelho.

Além de Faro e do Porto, estavam previstas, ao longo da semana, acções em Vila Franca de Xira, Cascais, Coimbra, Portalegre, Olhão, Lisboa, Amadora, Oeiras, Loures, Sintra, Aveiro, Moita, Almada, Sesimbra, Maia, Marco de Canaveses, São João da Madeira, Seixal, Braga, Gaia, Serpa, Oliveira de Azeméis, Amares e Alenquer.

 

 



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