- Nº 2731 (2026/04/2)A Direcção da Organização Regional do Algarve (DORAL) do PCP alertou, no dia 26, para a grave situação em que se encontra o funcionamento da justiça na região, agora ainda mais evidente pelas recentes denúncias feitas pelo Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP).
«O quadro descrito, marcado pela falta de profissionais, pela acumulação insustentável de processos e por condições materiais indignas, confirma que a comarca de Faro e, de forma mais ampla, os tribunais algarvios, se encontram numa situação de ruptura que compromete o acesso ao direito e à justiça por parte da população», afirmou, por sua vez, a DORAL. Para a organização regional algarvia, a existência de tribunais com infiltrações, gabinetes onde chove, equipamentos obsoletos, pragas, ausência de condições de segurança e até riscos para a preservação da prova (como sucede em Albufeira), não constitui apenas um problema de funcionamento interno e laboral, representa também uma violação objectiva do direito dos cidadãos a uma justiça digna, célere e eficaz.
Justiça mais distante
Segundo o Partido, no Algarve, esta situação «não é nova nem inesperada». Trata-se antes da «consequência directa de décadas de desinvestimento e de opções políticas que enfraqueceram o poder judicial, afastaram a justiça da população e promoveram a sua desvalorização». Aliás, a reforma do mapa judiciário, concretizada pelo governo de PSD e CDS em 2014 e nunca revertida pelos governos que se seguiram do PS, «concentrou serviços, encerrou valências e agravou desigualdades territoriais, tornando a justiça mais distante, mais cara e socialmente mais selectiva».
Ao mesmo tempo, acusam os comunistas algarvios, foi sendo promovida uma estratégia de desjudicialização e privatização, com a transferência de competências para entidades privadas, como notários e agentes de execução, e com o incentivo a mecanismos como a arbitragem, muitas vezes em prejuízo do interesse público. «Esta linha política, longe de resolver problemas, contribuiu para esvaziar os tribunais públicos de meios e para agravar as dificuldades que hoje se tornam evidentes», afirmam.
Situação inaceitável
O PCP tem vindo a alertar, consistentemente, para esta situação. Em 2018, o Partido defendia a construção de um novo Palácio da Justiça em Faro, capaz de concentrar os serviços dispersos e garantir condições adequadas ao funcionamento da comarca. Em 2019, questionava o governo sobre as insuficientes intervenções no Tribunal de Silves, alertando para a ausência de respostas estruturais para problemas há muito identificados. «O que hoje se verifica é o agravamento dessas mesmas insuficiências, fruto da persistente recusa em intervir na justiça enquanto função do Estado», lê-se num comunicado emitido pela DORAL.
Para os comunistas, é necessária uma resposta pública que rompa com este caminho e que reforce os meios humanos, com a contratação de mais magistrados e funcionários judiciais em número adequado, a valorização das suas carreiras e o fim de situações de sobrecarga permanente. O PCP exige igualmente um investimento na requalificação das infra-estruturas, a construção de novos equipamentos e a criação de respostas estruturais como um Tribunal da Relação no Algarve e a implementação dos Julgados de Paz.