- Nº 2732 (2026/04/9)

Que o Espaço seja para toda a Humanidade

Argumentos


Foi há 65 anos, a 12 de abril de 1961, que o cosmonauta Iúri Gagárin se tornou no primeiro ser humano a viajar no Espaço. É-nos difícil, hoje, perceber verdadeiramente o que esse feito representou. Hoje, já quase 800 pessoas foram ao Espaço. Neste momento, há 14 seres humanos fora do planeta Terra. Sete na Estação Espacial Internacional (ISS), três na Estação Espacial Tiangong e quatro na cápsula Orion — os mais famosos no momento — que acabaram de sobrevoar a Lua, regressando à Terra precisamente um dia antes do 65.º aniversário do voo inaugural de Gagarine. É-nos ainda mais difícil de perceber como pôde o primeiro homem no Espaço cair na aldeia de Smelovka e dirigir-se para as boquiabertas Anikhayat Takhtarova e Rumiya Nurskanova, dizendo: «Não tenham medo! Sou um cidadão soviético como vocês, que desceu do Espaço, e preciso de encontrar um telefone para ligar para Moscovo!», tendo-lhe Takhtarova oferecido um copo de leite do seu farnel.

A conquista do Espaço foi sempre vista como um dos maiores feitos da União Soviética. Um país, uma união de 15 repúblicas, formalmente criado em 1922, nascido da Revolução Bolchevique de 1917. Extremamente subdesenvolvido até então, saiu da Grande Guerra para de imediato enfrentar três anos de guerra civil e, não muito depois, ser pesadamente fustigado na Segunda Guerra Mundial. E, porém, apenas 12 anos após o fim da Segunda Guerra, parte à conquista o Espaço.

«A Terra é azul! É linda!» — disse Gagarin —, primeiro ser humano a vê-la assim, afirmando depois ainda: «Ao orbitar a Terra na nave, vi como o nosso planeta é belo. Povo, vamos preservar e aumentar esta beleza, não destruí-la!». Preservar a Terra não é apenas preservar o meio-ambiente. É também preservar a Humanidade, respeitando povos, lutando pela Paz e pelo fim da exploração do Homem pelo Homem. A nossa própria Constituição, que celebrou 50 anos, plasma-o no seu artigo 7.º, 1: «Portugal rege-se nas relações internacionais pelos princípios da independência nacional, do respeito dos direitos do homem, dos direitos dos povos, da igualdade entre os Estados, da solução pacífica dos conflitos internacionais, da não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados e da cooperação com todos os outros povos para a emancipação e o progresso da humanidade.»

Em 1969, os Estados Unidos colocam Neil Armstrong e Edwin Aldrin na Lua. Outros dez os seguiram, mas pouco depois as atenções concentram-se essencialmente no nosso próprio espaço orbital. Em 1971, a União Soviética coloca em órbita a primeira estação espacial: Salyut 1. Os Estados Unidos colocam a Skylab em órbita em 1973. Seis outras estações Salyut se seguiram. Em 1986, a estação espacial MIR é colocada em órbita, funcionando até 2001. Em 1998, inicia-se a construção da ISS, em 2021, da chinesa Tiangong. Até hoje, a Humanidade já realizou mais de 7100 lançamentos espaciais, tendo colocado em órbita mais de 25 mil satélites. Apesar de alguns testes militares, ainda não houve conflito armado usando o Espaço e este tem sido palco de cooperações pacíficas internacionais.

Nesta precisa semana, quatro astronautas repetiram o feito da missão Apollo VIII, em 1968, sobrevoando a Lua, preparando o regresso das missões tripuladas à Lua e a construção da Base Artémis, uma base lunar no seu pólo Sul. No entanto, a linguagem de hoje não é tão progressista quanto a dos anos 60. Hoje, procura-se dominar o Espaço em busca do domínio económico do futuro. E a Paz, essa, não sobrevive à procura de domínios económicos. Basta olhar para o Mundo e reparar que temos hoje duas vezes mais conflitos armados do que em 1961.

O Tratado do Espaço Sideral das Nações Unidas, aprovado em 1967, diz logo no seu primeiro artigo: «A exploração e utilização do espaço sideral, incluindo a Lua e outros corpos celestes, deverão ser levadas a cabo em benefício e no interesse de todos os países, independentemente do seu grau de desenvolvimento económico ou científico, e incumbem a toda a humanidade.» Não o esqueçamos nunca!

 

Nuno Peixinho