Em Cuba existe uma forte vontade de defender a soberania e a Revolução
Raquel Ribeiro regressou há pouco de Cuba, onde em representação da Associação de Amizade Portugal-Cuba, participou num comboio de solidariedade que levou toneladas de medicamentos para o país. Em entrevista ao Avante!, testemunha a brutalidade do bloqueio norte-americano e a vontade férrea do povo cubano de resistir e defender a sua soberania e e a sua Revolução.
A direcção da Revolução cubana está unida
Em que contexto visitaste Cuba?
Estive 10 dias em Havana em representação da Associação de Amizade Portugal-Cuba, participando no comboio de solidariedade “Nuestra America”, organizado pela “Progressive International” e em que participaram diversificadas organizações e entidades. Partimos de Milão a 17 de Março, onde se reuniram associações, partidos políticos, sindicatos, organizações de solidariedade com Cuba, de 19 países europeus e do Mediterrâneo, num total de 120 participantes. Levámos cinco toneladas de medicamentos para hospitais e centros de saúde cubanos.
Às delegações europeias juntaram-se delegações da América Latina e dos EUA, incluindo numa flotilha de várias embarcações que partiu do México a 19 de Março, também carregada de várias toneladas de medicamentos, equipamentos hospitalares, painéis solares, entre outros materiais.
O que visitaste e em que iniciativas participaste?
No primeiro dia, realizámos um intercâmbio com funcionários do Ministério de Saúde Pública, onde se encontrava igualmente o vice-ministro de Cuba para a Saúde, Julio Guerra, e Aleida Guevara, médica e filha de Ernesto “Che” Guevara, estudantes da Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM). Participaram igualmente Fernando González, presidente do Instituto Cubano de Amizade com os Povos, e Gerardo Hernández, coordenador nacional dos Comités de Defesa da Revolução. Este encontro traçou o panorama sobre os impactos na saúde, mas também noutros sectores, do recrudescimento do bloqueio a Cuba, imposto pelos EUA a 29 de Janeiro, com a tentativa de impedir o país de importar petróleo.
Aleida Guevara salientou o esforço que os médicos fazem diariamente para conseguir chegar ao trabalho, com a escassez de transportes, bem como as muitas dificuldades com a falta de medicamentos sobretudo para doenças crónicas. Na sequência deste encontro, as delegações europeias visitaram o Hospital Central “Hermanos Ameijeiras”, o Instituto Nacional de Oncologia e Radiobiologia, o Hospital Pediátrico-Universitária “Borrás-Marfan” e o Hospital Gino-obstétrico “Ramón Gonzalez Coro”. A AAPC visitou este último, onde deixámos algumas das caixas que trouxemos. Fomos recebidos pelo director, Otto Rafael Recio, que nos contou que apagões interrompem cirurgias, que muitas vezes passam a ser iluminadas por telemóveis ou lâmpadas de emergência até que os geradores comecem a funcionar, pondo em risco a vida de pacientes. A actual conjuntura, garantiu, não é já «um mero bloqueio» mas uma «asfixia total» com o intuito de «destruir psicologicamente» o povo cubano.
Visitámos depois uma iniciativa de parceria entre o Ministério de Agricultura de Cuba e uma empresa italiana de café e o CENESEX – Centro Nacional de Educação Sexual, instituição criada pela Federação de Mulheres Cubanas e o Ministério de Saúde Pública, em 1989, como centro de educação sexual, que se expandiu como centro de investigação e ensino sobre sexualidade, direitos reprodutivos e de género.
Visitámos igualmente três instituições que pertencem grupo Biocubafarma: Instituto Finlay de Vacinas (que desde 1991 desenvolve vacinas profiláticas e de prevenção de doenças infecciosas em Cuba, e que foi fundamental para a produção das vacinas da COVID-19, ou a meningite B); o Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGB, que existe desde 1986 com foco em engenharia genética e em hepatites), e o Centro de Imunologia Molecular (CIM, que desde 1994 trabalha em terapias contra o cancro e outras doenças do foro imunológico, incluindo vacinas investigadas, produzidas para a população cubana, e comercializadas internacionalmente). Estas três instituições permitem ao país, apesar das limitações impostas pelo bloqueio, situar-se na vanguarda da biotecnologia global.
Visitámos a Escola Especial “Solidariedade com Panamá”, para crianças com deficiências motoras e físicas, e a Escola Especial “Rene Vilches Rojas”, para crianças surdas e com deficiência auditiva. Cuba conta com centenas de escolas de Ensino Especial, que oferecem atenção médica primária e especializada, transporte, alimentação e programas de reabilitação adaptados a cada condição. O bloqueio dificulta a aquisição de baterias para próteses vitais para a estimulação auditiva (por exemplo), a obsolescência de equipamentos e a dificuldade de adquirir peças para reparação dos mesmos, mais a falta de combustível que afecta o transporte escolar.
Reunimos igualmente com a Associação Hermanos Saiz, que reúne jovens artistas, escritores, intelectuais e promotores culturais do país até aos 35 anos e organiza eventos culturais.
Finalmente, dia 20 de Março fomos recebidos no Palácio das Convenções pelo Governo cubano e outros representantes políticos do país, num evento em que participaram também políticos estrangeiros, como membros do Parlamento Europeu e de partidos políticos do Uruguai, Brasil, Colômbia, EUA, assim como embaixadores, deputados, artistas, intelectuais e activistas. Juntaram-se aí mais de 650 visitantes, oriundos de 30 países, representando 140 organizações sociais, políticas, culturais e de solidariedade com Cuba.
Em que sectores são mais visíveis os efeitos do cerco petrolífero?
Há sectores como a saúde, a distribuição alimentar, os transportes e o turismo em que são mais visíveis os efeitos. Na saúde, devido à falta de energia, unidades de Cuidados Intensivos e Urgências estão comprometidas, tratamentos de doentes crónicos estão em risco, com milhões de pessoas com doenças crónicas (incluindo milhares de doentes que necessitam de cuidados contínuos) e mais de 32 mil grávidas particularmente vulneráveis (dados do Ministro da Saúde Pública). Mais de 96 mil cubanos estão em lista de espera para cirurgias, desses mais de 11 mil são crianças; o sistema de saúde foi forçado a priorizar procedimentos adiando cirurgias não urgentes (dados do vice-ministro dos Negócios Estrangeiros).
A escassez de combustível afecta igualmente o abastecimento de água porque a maioria das infra-estruturas de bombagem dependem de electricidade.
Nos alimentos, a falta de combustível para máquinas agrícolas e transporte perturba a cadeia de abastecimento alimentar e o sistema de racionamento e a cesta básica regulada foram afectados: com ajuda do México e da China, o governo tem tentado colmatar a escassez da cesta básica. Escolas e universidades apenas operam à distância, só escolas pré-primárias e primárias continuam em regime presencial; muitos trabalhadores do sector público foram colocados em regime de licença ou trabalham apenas alguns dias por semana; muitos serviços de transporte público foram cortados, dificultando a mobilidade. Na economia e turismo, vários países emitiram alertas de viagem, hotéis fecharam e a falta de combustível para a aviação levou ao cancelamento de voos regulares de companhias internacionais; pequenos negócios e agricultores enfrentam custos de transporte proibitivos e falta de bens essenciais.
Cuba produz cerca de 40 mil barris de petróleo por dia, o que satisfaz aproximadamente um terço das necessidades. Ainda assim, tem vindo a diversificar a produção de energia eléctrica. O governo tem estado a instalar milhares de sistemas fotovoltaicos em comunidades isoladas e em serviços como lares de idosos, centros de dia, centros policlínicos, agências bancárias e escritórios administrativos. Estes sistemas foram também instalados em casas com crianças ou idosos com problemas de saúde dependentes de electricidade permanente, e centenas de trabalhadores dos sectores da saúde e educação receberam módulos de energia portáteis alimentados por painéis solares.
Em meados de Março, o governo decidiu que os cubanos residentes no estrangeiro, incluindo nos EUA, possam investir e ter propriedade de negócios no país. O sector agrícola foi identificado como prioridade.
Qual o estado de espírito reinante entre a população?
O Governo cubano tem acelerado a transição para energias renováveis através da introdução de equipamentos fotovoltaicos, mas apesar disso não é ainda suficiente para cobrir as necessidades: desde o final de Janeiro os apagões são muito mais longos e prolongados. Isto é profundamente desgastante. É muito difícil estudar, trabalhar ou cozinhar. Sem energia eléctrica muitas casas também não conseguem bombear água. Muitos cubanos deixaram de ter acesso a gás e estão a usar carvão para cozinhar.
Com a limitação dos combustíveis veio também a diminuição no turismo, que é uma das formas como o país consegue ter acesso a divisas para importar bens. Tudo isto gera uma espiral de escassez e ansiedade muito grande. Mas também é isso que é o bloqueio: uma guerra física, porque a população sente-se fisicamente atacada, na escassez, nas dificuldades quotidianas, na luta de todos os dias, mas também uma guerra psicológica porque o intuito é, precisamente, quebrar, desmoralizar, fazer sucumbir o povo cubano.
Os cubanos estão extremamente preocupados com a relação com os EUA até porque sabem – têm experiência disso! – que os EUA são capazes de tudo. O país já sofreu intervenções bélicas, atentados terroristas, sabotagens, desde o início da Revolução, mas a população invoca também o genocídio em Gaza, a agressão à Venezuela e ao Irão, como exemplos do nível extraordinário de violência do imperialismo norte-americano. Ainda assim, é precisamente por reconhecerem que estão sob ataque permanente dos EUA, agora agravado com o cerco energético, que os cubanos, independentemente da sua posição política, têm um sentido de soberania muito enraizado e o apoio às conquistas da Revolução é muito grande.
Há uma ampla rejeição da ideia de ingerência externa, em particular, das chantagens dos EUA. Independentemente dos rumos de natureza económica ou até política do país que cada um possa defender, a rejeição da ingerência externa e a afirmação da soberania nacional é um entendimento-base da sociedade cubana, que é uma das mais fortes heranças da Revolução. «Querem ver-nos no chão, rendidos e esmagados. Não o conseguirão, porque em Cuba há um povo disposto a defender as conquistas da Revolução», disse o presidente do ICAP, Fernando González, na recepção no Palácio das Convenções. «O que caracteriza o povo cubano não é a escassez que nos impõem, mas a capacidade de resistir e de jamais nos rendermos», concluiu.
Que caminho apontam o Partido e o Estado cubano para superar esta situação?
O Governo cubano afirma regularmente que não está “sentado” à espera que a situação se altere, sobretudo do lado dos EUA, e procura activamente soluções e alternativas, seja na diversificação das fontes de combustível (a chegada de um petroleiro russo nas últimas semanas é disso exemplo), seja na geração de energia por meios próprios. Na recepção às delegações internacionais, o Presidente de Cuba, Miguel Diaz-Canel, disse que «não parámos os nossos programas, não detivemos os nossos sonhos. Não estamos de braços cruzados. Estamos a fazer uma das maiores transições energéticas dos nossos tempos. Não estamos falidos. Falida é a política dos EUA contra Cuba».
Nesse discurso, Miguel Diaz-Canel insistiu em desmontar vários mitos e mentiras que visam Cuba e o povo cubano, sobretudo na guerra híbrida que os meios de comunicação do imperialismo impõem, com um rol de mentiras e desinformação. E, um a um, desmontou-os a todos: Cuba é uma ameaça à segurança dos EUA? «Somos uma ameaça pelo nosso exemplo, porque mesmo bloqueados nos asfixiam e ainda assim damos o exemplo», disse. Cuba é um estado patrocinador do terrorismo? Pelo contrário, Cuba tem sido vítima do terrorismo dos EUA, enumerando a «actualização da Doutrina Monroe» e o «desprezo que o governo norte-americano sente pelos países da América Latina e das Caraíbas», com ataques a «pretexto da luta contra o narcotráfico, acções extra-judiciais e o bloqueio naval à Venezuela». Cuba é um Estado falido? Um “Estado falido” que, em plena pandemia de COVID-19, «superou todos os sistemas de saúde pública dos países neoliberais», não «podia comprar vacinas» por causa do bloqueio, «convoca os seus cientistas que construíram os próprios ventiladores», «produziu as suas próprias vacinas, imunizou toda a população, foi o primeiro país do mundo a imunizar a população pediátrica».
O Presidente cubano reconheceu a possibilidade de «haver uma agressão», de facto, dos EUA e anunciou que todas as sextas-feiras se organiza o dia de preparação da Defesa Nacional e que foi accionado o plano da “Guerra de Todo o Povo”, a doutrina de defesa do país. Anunciou também a «consulta popular do novo programa de Governo e das novas estratégias para enfrentar a situação económica» que foi «melhorado com a participação» de vários sectores económicos e sociais. «Não nos rendemos», afirma Miguel Diaz-Canel: «Estamos a fazer a transição energética e vamos usar as renováveis, que eles não podem bloquear», «vamos comer o que formos capazes de produzir e não importar tanto», e estamos a trabalhar na «mobilização política e na unidade, continuar a defender a participação dos jovens nas decisões políticas».
Finalmente, em resposta a especulações nos média afectos à diáspora antidemocrática cubana nos EUA, Miguel Diaz-Canel afirmou que os membros do governo são gente comum, do povo, são descendentes de operários e trabalhadores: «não somos uma elite, não temos contas no exterior, não termos contas milionárias.» A direcção da Revolução cubana «está unida, as nossas decisões são colectivas e colegiais, e aí também participa o líder histórico da nossa revolução [Raul Castro] porque tem toda a legitimidade para estar presente, devido à sua experiência», afirmou.




