Notícias do Bloqueio – Fascículos de Poesia
O melhor da poesia portuguesa comprometida com o real
«Aproveito a tua neutralidade,/o teu rosto oval, a tua beleza clara/para enviar notícias do bloqueio.»// «Tu lhes dirás do coração o que sofremos/nos dias que embranquecem os cabelos...»
Egito Gonçalves
As revistas literárias foram, durante um vasto período temporal, iniciado no final da guerra civil de Espanha e se prolongará até finais dos anos 1960, permanecendo nos nossos dias títulos como Vértice e Nova Síntese, os principais veículos para o processo crítico e doutrinário, ligado ao neo-realismo, em áreas como a literatura, a música, as artes plásticas, a arquitectura, o cinema, a fotografia, a história, a filosofia, o teatro e o ensaio, com críticos/teóricos como Mário Dionísio, Álvaro Cunhal, Bento de Jesus Caraça, Alexandre Pinheiro Torres, Augusto Costa Dias, Óscar Lopes, Mário Sacramento, António Pedro Pita, Vítor Viçoso e outros.
Em 1934, publica-se o primeiro número do jornal O Diabo, semanário de crítica literária e artística, designando-se como uma contribuição ideológica e política para a afirmação do realismo estético. Nele participou Álvaro Cunhal, com artigos em que defendia a noção de ideologia na arte e em 31 de Dezembro de 1938 Joaquim Namorado utilizará pela primeira vez o termo neo-realismo, num artigo intitulado “Do neo-realismo: Armando Fontes”1.
Notícias do Bloqueio (1957/62), alicerçada num projecto estético e interventivo determinado e «menos ecléctico, porque politicamente mais empenhado»2. Terá direcção colectiva, da qual faziam parte Egito Gonçalves, Daniel Filipe (com o qual Egito estabelecerá uma cumplicidade poética próxima e duradoura), Luís Veiga Leitão, Papiniano Carlos, Ernâni Melo Viana (que sairá da direcção no n.º. 3 da revista), e António Rebordão Navarro. Publicará também alguns poetas africanos ligados à luta de resistência contra o poder colonial e logo no 1.º número vários poemas de Carlos Drumond de Andrade a par de Papiniano Carlos. O envolvimento da revista nas causas e nas lutas sociais deste período é claro e frontal.
A Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP), acaba de publicar, em edição fac-similada, arrumados em “caixa” que reproduz a capa do 4.º Fascículo, um linóleo de Ângelo de Sousa, os nove números de Notícias do Bloqueio – Fascículos de Poesia, publicados ao longo de cinco anos, prosseguindo deste modo o seu projecto editorial de divulgação, de revisitação da nossa memória literária, dessa recuperável nostalgia, de que nos fala Eduardo Lourenço, tão necessária neste tempo de regressão civilizacional, em que a usura campeia e o caos alastra, graças ao capitalismo neoliberal.
A edição destes nove números destes fascículos de poesia, que revelou múltiplas e importantes vozes da nossa História da Literatura é, naturalmente, um assinalável e meritório acontecimento literário e cívico, não só pela pluralidade dessas vozes, mas por se tratar, a par do Novo Cancioneiro, cujos dez volumes publicados entre 1941/44, representaram, como anota Fernando J.B. Martinho, «uma espécie de manifesto, de afirmação programática do neo-realismo poético». O mesmo acontecerá, em parte, com Notícias do Bloqueio, embora o seu envolvimento ideológico e estético seja, em alguns casos, diverso do que determinara a pena e o engenho dos poetas do Novo Cancioneiro, embora a crítica e a denúncia acutilante do regime Salazarista se mantenha, nomeadamente em poemas de Papiniano Carlos, Egito Gonçalves, Maria Almira Medina, Orlando da Costa, Torga, Daniel Filipe, Gastão Cruz, João Rui de Sousa e nos poetas das ex-colónias, presentes no 6.º Fascículo: Kulungano, Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Knopfli, Rui Nogar e muitos outros.
Um 10.º Fascículo de Notícias do Bloqueio, com capa de Ana Biscaia, completa e actualiza o conjunto dos nove publicados, dado que a realidade de hoje, igualmente convoca à acusação os poetas, face ao genocídio perpetrado em Gaza. Neste volume é possível lermos palavras tão duras como as pedras da Intifada, em poemas de José Viale Moutinho, onde se diz «os norte-americanos […] fornecem as melhores metralhas/aos melhores preços: acabem com tudo/que o Tio Sam e a Besta farão um resort!; ou outros de Augusto Baptista, as paredes desmoronam pelo sopro dos mísseis, as crianças morrem de fome no caminho das sombras; e de Francisco Duarte Mangas, a crua realidade da nossa indiferença, a que também nos torna cúmplices dos crimes dos sionistas: Barra-se a crueldade/no pão fresco/ao pequeno almoço/cansados do genocídio a céu aberto/em sinal aberto/logo à noite temos futebol/rendamo-nos/ao melhor do mundo».
O melhor da poesia portuguesa comprometida com o real, a que denuncia as injustiças, o medo, a aversão ao outro, habita as 309 páginas destes 10 fascículos de poesia. Imprescindíveis, não apenas como exercício nostálgico, mas como bagagem para entendermos o longo, corajoso e fraterno caminho destas palavras que percorrem o nosso tempo – o antes e o hoje. Como barragem contra o esquecimento e a alienação.
Uma última achega para o magnífico prefácio/estudo de António Carlos Cortez.




