- Nº 2735 (2026/04/30)

A URAP celebra 50 anos: a história, a memória e a firme intervenção antifascista

Argumentos


Fundada há já meio século, a 30 de Abril de 1976, a União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) iniciou a sua actividade quando ainda decorria o processo das grandes transformações políticas, económicas, culturais e sociais iniciado a 25 de Abril, o tempo em que foram alcançados direitos e outras conquistas históricas como nunca tinha acontecido na vida dos portugueses. Foi, assim, criada no mesmo mês e ano em que foi aprovada, promulgada e entrou em vigor a Constituição da República Portuguesa.

Também filha da Revolução de Abril, a URAP tem, ao longo destas décadas, valorizado a luta dos portugueses e prestado homenagem às muitas vidas sacrificadas no combate antifascista, evocando a resistência levada a cabo por sucessivas gerações de homens, mulheres e jovens na longa caminhada para o 25 de Abril, luta na qual é reconhecido e merecedor de destaque o Partido Comunista Português, e já depois, neste novo tempo, a luta igualmente exigente e dura nas últimas décadas para denunciar, combater e conter as políticas de retrocessos levadas a cabo pelos sucessivos governos.

A URAP fazia e faz falta. Era e é necessária enquanto perdurarem discriminações, injustiças, a exploração e o domínio quase planetário do capitalismo e do imperialismo e as suas práticas desrespeitadoras da soberania dos povos e do direito internacional, geradoras de guerras e genocídios. A URAP é necessária para denunciar e combater os retrocessos e a fúria reaccionária da velha e da nova direita e extrema-direita que tem crescido em Portugal, na Europa e no mundo. Estas foram também as razões que levaram os antifascistas, democratas e ex-presos políticos a juntarem-se para a criação da URAP.

Desafio e testemunho

Participaram na criação da URAP membros da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (CNSPP), criada nos últimos anos do fascismo e que viria a ter um importante papel na denúncia do regime opressor, das prisões arbitrárias, das torturas e maus-tratos aos presos políticos e na ajuda e apoio às suas famílias. Atingido esse seu objectivo, o da libertação dos presos políticos, em 27 de Abril de 1974, os membros da CNSPP e ex-presos políticos, alguns que tinham estado no Campo de Concentração do Tarrafal, outros nas cadeias de Caxias, Peniche, Aljube, Angra do Heroísmo, Porto e Coimbra, decidiram avançar com a criação da URAP, a 30 de Abril de 1976. Ao assinalarmos os seus 50 anos, prestamos tributo a todos os associados e ex-presos políticos que ao longo de décadas a construíram.

A URAP assumiu esse grande desafio, o testemunho, a herança e o compromisso de preservar, divulgar a história e manter viva a memória da luta e resistência antifascista, esse livro de tantas páginas que nos dias que correm se continua a escrever. É essa a razão pela qual se tem empenhado junto das novas gerações em levar ao seu conhecimento esse património, promovendo encontros e sessões com alunos e professores em escolas e universidades, e por outro lado, sessões, colóquios e palestras que realiza pelo País, na maioria das vezes com a apresentação dos livros que publica.

Só nestes dois últimos anos, de 2024 e 2025, no âmbito da celebração dos 50 anos do 25 de Abril, a URAP realizou mais de 500 encontros/sessões em escolas no Continente e Regiões Autónomas, juntando dezenas de milhares de alunos e centenas de professores.

A URAP lembra o que significou a conquista da liberdade, escola para todos, transportes, estradas, água canalizada, electricidade, igualdade de direitos entre homens e mulheres, o estarem juntos na mesma escola e mesma turma, o que significou o fim da guerra colonial, entre tantas outras conquistas resultantes da luta de gerações e da Revolução do 25 de Abril, o acontecimento mais transformador e progressista da nossa história.

Lembrar também que neste mês de Abril se comemora os 50 anos da Constituição da República Portuguesa, a Lei Fundamental que importa conhecer e divulgar: a Constituição que abraçou e inscreveu os direitos sociais, económicos, cívicos, culturais, ambientais e tantos outros; que defende os jovens no acesso ao ensino, à Universidade, ao trabalho, à habitação, ao desporto, à cultura, ao lazer e ao fruir dos direitos; que nos defende, que devemos tomar como nossa, para melhor a afirmar, defender e fazer cumprir.

Luta necessária

A URAP está aberta a todos quantos procurem um espaço de intervenção para defender a democracia, resistir aos dogmas do pensamento único, lutar pela paz, justiça social e um mundo melhor.

A publicação regular do boletim da URAP, enviado a todos os associados pelo correio e por via electrónica, bem como a comunicação através das redes sociais, são expressões da imensa actividade que realiza em todo o País.

Neste 50.º aniversário, a URAP conseguiu uma sede em Lisboa, um espaço maior que permitirá melhores condições para a sua actividade e intervenção antifascistas. Melhores condições para a continuação da edição de mais livros, do estudo e levantamento – nome a nome – dos ex-presos políticos do fascismo. Melhores condições para cooperar com outros movimentos e associações, para o trabalho e cooperação com municípios na dinamização dos Museus da Resistência e na criação de outros Espaços de Memória, alguns já em projecto de elaboração.

O antifascismo continua a ser uma causa actual, porque têm proliferado em Portugal, na Europa e no mundo movimentos, grupos e partidos de extrema direita, de ideologia fascizante, aparentemente “anti-sistema”, mas saudosistas das velhas ditaduras e do colonialismo derrotados no século passado.

A URAP é necessária na luta contra o branqueamento do fascismo, na denúncia e combate contra a falsificação e reescrita da História, na defesa dos valores de Abril. A URAP continua a sua firme intervenção contra todas essas formas e expressões do fascismo e da guerra, luta onde cabem homens e mulheres de todas as idades que se queiram juntar neste largo espaço antifascista, erguendo também a bandeira da paz, da solidariedade com a luta dos trabalhadores, os povos e os resistentes antifascistas em todo o mundo.

 

José Pedro Soares