2026: uma odisseia na educação

Vasco Emídio

Das musas, diz-se que têm vindo a animar as penas dos poetas a cantar os feitos dos povos e seus heróis. Se comedida é a prosa que sai desta pena de ocasião, não pouco valorosos são, entretanto, os feitos dos heróis da vez. Afinal, que mares nunca dantes navegados chegam perto da condição de ser estudante em Portugal? Não nos prezamos a louvar Ulisses, Eneias ou Gilgamés. Cruzemos, juntos, por hoje, o cabo das tormentas do ensino português, e cantemos os jovens heróis dos nossos dias. Caro leitor, seja bem-vindo à odisseia da educação.

Perante ataques, estudantes respondem em luta pelo ensino de Abril a que têm direito!

Foto montagem


Conte espingardas e alabardas. Diga adeus à mulher, marido, filhos. Prepare os mantimentos. Se é para embarcar na viagem, mais vale ir preparado. O caminho é longo e incerto, e o destino é menos certo que um passo em falso rumo ao abismo. Terminará em canudo na mão? Num emprego mal pago? Noutro país?

Começa, em todo o caso, numa escola. Trouxe o impermeável? Será preciso. É que aqui chove a potes – pelos buracos no tecto, em cima de professores e alunos, no refeitório… E quando não chove, ora faz um frio de gelar, ora não se aguenta o calor. Melhor seria trazer umas mantas. Ou umas regatas.

De como as tempestades cruzam e as oficinas se constroem

Deste micro-clima fala-nos Daniel, de Almada. «Não há dignidade na minha escola», disse. Pudera! Relata o jovem que, na época das chuvas, pavilhão e refeitório ficam interditos. O culpado é o de sempre, e nem por isso menos útil de recordar – o desinvestimento na escola pública, agora agravado com a transferência de competências para os municípios.

A próxima alocução não aborda matéria distante. João é estudante na Escola Profissional da Moita. Caro leitor, trouxe farnel? Não? Devia, é que no profissional é costume não haver cantina. Fora isso – dá nota – é «passar horas sem fim na escola» e ter de «desistir da sua vida pessoal». Afinal, os horários são longos e toda a falta tem de ser compensada, nem que seja em tempo de férias.

Além disso, não pense que por não haver pavilhão, não há exercício físico – na escola de João, foram os alunos do curso de soldadura a carregar os baldes de cimento para construir a oficina.

De como o pensamento se nega e o exame se impõe

Da importância da liberdade de pensar já muito se escreveu, e não cabe ao texto presente meditar sobre o seu alcance e possibilidade. Gostaria, o leitor, de maiores elucubrações? Está com azar, que o Governo não deixa. Assim garante Maria Rita, do Porto, ao referir os «ataques ao nosso pensamento crítico». É o caso da disciplina de Cidadania e da educação sexual, alvos predilectos dos reaccionários de plantão.

A oradora denota o facto de que mesmo quando há liberdade para pensar, de que serve quando não há ninguém para a conduzir nas aulas. É que faltam professores. Muitos e a várias disciplinas, fruto de carreiras crescentemente desvalorizadas. Como aprender, então? Sugerimos o auto-didatismo – o mindset empreendedor está tão em voga…

Que me diz, caro leitor? Já viu que chegue por estas bandas, e quer já dar o salto para a faculdade? Tenha calma, que a viagem ainda vai a meio. Ou não esclarecesse Afonso, de Sesimbra, sobre o obstáculo à jornada que representam os exames nacionais, «instrumento injusto de avaliação» e «elemento de elitização do acesso ao ensino superior». Palavras duras? Acha? Repare que, como esclarece o jovem, os exames não só reduzem anos de aprendizagem a umas míseras horas, como têm uma vincada marca de classe. Afinal, quem consegue pagar explicadores, por exemplo?

De como a luta não verga mesmo perante amarras

Queira o leitor acomodar-se para a próxima paragem. Aconselho a meter os braços dentro do batel, que a bucha é dura, mas a luta é mais. Principalmente quando a vontade de participar é tão forte.

Desta vontade nos fala Joana, de Sintra. Na sua escola, os estudantes não medem esforços para ter a sua ouvida, seja convocando uma reunião geral de alunos, seja organizando um protesto. No primeiro caso, relata, foram impedidos. No segundo, não desarmaram, mesmo com maior número de polícias que de manifestantes.

O garrote aperta e, como pode ver, caro leitor, não há outra resposta senão a organização. Desta nos dá nota Maria, do Conservatório de Dança de Lisboa, onde se contraria, todos os dias, a «tentativa clara de reduzir as associações de estudantes a meras comissões de festas», se dinamizam reuniões gerais e se constroem reivindicações alicerçadas nos problemas concretos do secundário.

Já foi a uma RGA? Não? Acho que não teremos tempo, mas pode ir a uma manifestação. Elas – como outras acções de luta – abundam cada vez mais na educação portuguesa, fruto de crescentes constrangimentos e da percepção, pelos estudantes, da necessidade de uma resposta à altura. Achava que não haveria espaço para o combate nesta odisseia?

Desta garra nos fala, em vídeo-conferência, Leonor, particularmente sobre a Semana Nacional de Luta do Secundário, de 23 a 27 de Março, com mais de 100 acções em todo o País – uma das quais em Faro, terra da jovem, com 500 alunos numa manifestação concelhia. «Conseguiu-se aumentar completamente o caudal de luta». Não é preciso dizeres, Maria, a garra sente-se a léguas!

De como o grau de ensino muda mas as moscas se mantêm

Chegamos ao destino final. Cansado? Nem descanse, que o Governo espreita com nova investida. Proteja a cabeça! Que era aquilo? Balas de canhão? Não, não, são as anunciadas reformas no ensino superior. O que está mau pode sempre piorar. A via sacra não tem fim…

Dela nos fala Tiago Antunes, recém-chegado ao ensino superior lisboeta. Um sobrevivente, de facto, como cada vez menos os há. Só este ano, o número de candidatos colocados diminuiu em cerca de 10 por cento. E, como refere, o Governo pretende ir mais longe, com a imposição – por ora pouco clara – de avaliações de numeracia, literacia e inglês para o ingresso na faculdade.

Mas como não há duas sem três, também aqui, em plena faculdade – com jovens, diz o povo, maiores e vacinados – se pretende apertar o garrote da democracia. O objectivo? Rever o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior para diminuir ainda mais a presença estudantil nos órgãos de gestão, contrapondo com um aumento das figuras externas, muitas das quais ligadas a interesses empresariais. Business, am I right?

Por seu lado, e como se os problemas já não fossem por demais, conta-nos Tiago Pancadas um pouco sobre os custos em frequentar a faculdade. São as propinas. São as bolsas que não chegam. É o alojamento para os estudantes deslocados, enredados na especulação imobiliária. Leitor, baixe a cabeça! Mais uma investida do Governo. Não só não cumpre o Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior, como não esconde intenções de aumentar as propinas.

Por tudo isto, os estudantes do superior também arregaçam as mangas e tomam para si o dever de lutar. Depois de «semestres cheios de luta por todo o País», refere o orador, todas as acções culminaram em cinco mil pares de pés a marchar na manifestação nacional de dia 24 de Março. Nem mais!

 

Aqui temos um retrato do inferno

Caro leitor, uma última paragem antes de voltarmos. É para ir ao «inferno». Tenha calma, não se agite. É meramente metafórico – na realidade, trata-se do rumo que o Governo quer ditar à vida da juventude. A palavra é de Paulo Raimundo, no final da sessão, onde esboçou considerações sobre a ofensiva geral do Executivo e da política de direita.

Com foco no ensino, explicou que é na educação que a ofensiva encontra campo fértil para atacar direitos – sendo, por isso, «uma peça» na dita “agenda de transformação” do Governo.

Os ataques à participação dos estudantes são muitos, e o Secretário-Geral lembrou que esta é uma batalha pela democracia. É nas escolas, afinal, que ela é vivida pela primeira vez. E deu um exemplo: quando o Governo tenta impedir – com um grupo de trabalho a reboque de uma polémica com ditos “influenciadores digitais” – «actividades contrárias aos interesses das instituições educativas» dentro das escolas, o que pretende é novo ataque ao direito dos estudantes de debater questões como a paz ou a igualdade.

A unidade dos estudantes, organizados num cada vez mais pujante movimento associativo, é fundamental na defesa do ensino de Abril, assegurou. Assim foi no passado, quando foi a juventude quem «começou por abanar» a maioria absoluta de Cavaco Silva. Assim é contra novas investidas. «O PCP conta convosco para as vossas lutas», afirmou.

A sessão, dirigida por Manuel Calejo, da Comissão Política da JCP, contou com uma alocução inicial de Francisco Garcia, presidente do Conselho Nacional de Juventude – plataforma de que a JCP é membro –, que destacou o papel e a importância do associativismo estudantil na luta pela democracia.

 



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