Uma imensa multidão afirmou Abril e os seus valores e a vontade de defender as suas conquistas
No dia 25, no 52.º aniversário da Revolução, autênticos rios de multidão brotaram de tantos cantos do País para afirmar que Abril e os seus valores estão vivos e o povo e os trabalhadores – quem mais beneficiou de todas as suas conquistas – estão prontos para os defender.
Milhares e milhares por todo o País celebraram Abril que resgatou o povo da opressão fascista
Ao longo da sua história, por muito massacrada que tenha sido, o povo português demonstrou sempre saber resistir. Ainda que em dimensões, contextos e com motivações diferentes, é um traço assinalável de quem vive e trabalha – nascido, criado ou imigrado – neste rectângulo à beira-mar plantado. Há 52 anos, iniciou-se um capítulo maior dessa história, ainda por terminar. Invariavelmente, a dureza da vida afirmou-se e revelaram-se as intenções dos malfeitores de Abril.
Hoje não é diferente: a vida aperta e o custo de vida é cada vez mais insuportável. São as casas, em rendas ou créditos bancários, com preços inacessíveis para quem vive do seu salário. É o acesso à saúde, com um SNS, profissionais e utentes, que resistem a incessantes tentativas de desmembramento que dificultam o acesso a cuidados. São os salários, estagnados e a perder poder de compra, face a preços na alimentação, combustíveis e serviços que escalam sem parar. É a educação, com um acesso que procuram elitizar no ensino superior, e degradado nos outros níveis de escolaridade. São as privatizações, que insistem em vender ao desbarato o que importava estar em mãos soberanas. É o direito à paz, cada vez mais ameaçado pela submissão a interesses externos, que ameaçam uma vez mais arrastar Portugal para um conflito que não é seu, uma afronta à Constituição da República Portuguesa. São os direitos laborais, postos em xeque pelo pacote laboral que o Governo procura fazer avançar a todo o custo, mesmo que tenha sido já rejeitado pelos trabalhadores (e é por isso tão importante que seja igualmente forte e abrangente a mobilização para amanhã, na jornada do 1.º de Maio).
Abril não é isto, a Revolução garantiu-nos exactamente o contrário: consagrou ao povo português, a todos os que vivem e trabalham neste País, um rol de direitos que tentam, lentamente e há décadas, delapidar – ainda que sem sucesso completo.
Abril é, afinal de contas, muito mais do que um voto numa urna. Foi e é um profundo programa de transformação económico e social, essencial para garantir a justiça social e a independência nacional.
No fim-de-semana passado, rios de multidão souberam resistir a tudo isto que nos tentam impor, numa ampla demonstração de força por todo o País. As avenidas da Liberdade e dos Aliados, em Lisboa e no Porto, respectivamente, foram molduras humanas deste sentimento de resistência, combatividade e vontade de avançar. Mas pelas restantes principais cidades do País também, com ecos em alguns outros países do mundo (Espanha, França, Reino Unido, Brasil...), a partir do movimento associativo, do movimento sindical e do Poder Local, do PCP e da CDU, em manifestações, concentrações, desfiles, concertos e festas populares, a que se somaram almoços, jantares, sessões e homenagens, provas desportivas e iniciativas para os mais pequenos. Foi demonstração, sobretudo, de que Abril vive e o povo está pronto para o defender.
Lusa
Pela verdade histórica ao lado da Revolução e do povo
«O País não era apenas pobre, atrasado (económica, social e culturalmente), tolhido pela censura, pelo analfabetismo, pela mal-nutrição e pela mortalidade infantil: estava submetido à repressão brutal que nenhum democrata esquecerá, sujeito a uma ditadura fascista que alguns evocam saudosamente. São os que não se conformam com a Revolução, que insistem num ajuste de contas com o 25 de Abril e com as suas conquistas, que procuram impor a sua narrativa revanchista», salientou Alfredo Maia, deputado do PCP, na sua intervenção na sessão solene comemorativa do 25 de Abril na Assembleia da República. Mas não há, continuou, «mistificações, saudosismos ou falsificações que apaguem os momentos exaltantes da Revolução que viraram a página e inscreveram as conquistas – políticas, económicas, sociais, culturais e civilizacionais – nas quais o povo tem um orgulho imenso e irrenunciável».
Sobre as muitas conquistas de Abril, consagradas na Constituição da República Portuguesa (CRP) há 50 anos, o deputado comunista recordou os que «tentaram tudo» para as impedir: «os grupos monopolistas e as forças reaccionárias», com recurso a «boicote económico, fuga de capitais», com as «tentativas de golpe» e com os «600 ataques violentos, entre os quais 310 à bomba, 136 assaltos e 58 incêndios, contra sedes de partidos de esquerda e sindicatos» (ver páginas 24 e 25).
Juventude está com Abril
«O que determina e determinará o 25 de Abril, a sua força, capacidade de esperança de presente e de futuro, cada uma das suas conquistas, com tudo que é preciso ainda fazer, que é muito – o combate à precariedade, o direito à habitação, saúde, a luta pela paz, o caminho para uma vida melhor e mais justa –, é esta força imensa, desta avenida cheia», afirmou Paulo Raimundo em declarações à imprensa, enquanto participava no desfile de dia 25 na Avenida da Liberdade, em Lisboa.
«Há aqui um grande sinal de que toda esta gente está com Abril e que precisa que esse caminho seja retomado nas suas vidas. É isso que se impõe, que esse caminho seja cumprido todos os dias», acrescentou.
«Estão presentes aqui muitos jovens que sentem as respostas aos seus problemas na CRP e na Revolução de Abril e exigem isso. Verão a exigência pela habitação, do acesso à educação, à saúde mental, de tudo aquilo que são os direitos dos jovens. Curiosamente, ou não, estão todos consagrados na CRP e foram esses que Abril abriu. Os jovens estão com os direitos e com as conquistas, agora exigem, e bem, que elas tenham cumprimento nas suas vidas», salientou ainda ao valorizar a elevada participação de jovens no desfile e nas outras comemorações que se realizaram pelo País.
Roteiro das Casas Clandestinas
Inúmeras iniciativas culturais realizaram-se pelo País, de concertos a espectáculos e exibições de filmes. Em Lisboa, na manhã de dia 25, realizou-se um roteiro pelas casas clandestinas na freguesia de Alvalade, que contou com a participação dos resistentes antifascistas Conceição Matos e Domingos Abrantes e Manuel Rodrigues, membro da Comissão Política do Comité Central do PCP e director do Avante!. A iniciativa foi dinamizada pela CDU e foi guiada por Sofia Lisboa, deputada do PCP na Assembleia Municipal de Lisboa.
Na iniciativa explicou-se que as casas clandestinas não se destinavam a esconder do povo a actividade do PCP, mas sim a defender os militantes da repressão. O Partido foi ilegalizado a 28 de Maio de 1926 e a continuidade da sua acção só foi possível nas mais duras condições de clandestinidade, assente num reduzido, mas sólido quadro de funcionários inteiramente dedicados à luta revolucionária.
O roteiro passou pelas casas de, entre outros, Flora Magro e José Dias Coelho e Margarida Tengarrinha (em 1955 e 1956), onde Domingos Abrantes e Conceição Matos expuseram as suas experiências na clandestinidade, realçaram o papel das casas clandestinas na resistência à ditadura e o papel desempenhado pelas camaradas para o sucesso das mesmas. Já Manuel Rodrigues, numa das casas que acolheu uma tipografia clandestina, abordou o papel da comunicação com a população durante a ditadura, em particular a publicação do Avante! e d’O Militante.
Pelo meio, as muitas pessoas que participaram na iniciativa pararam no Estádio 1.º de Maio (local da celebração do 1.º de Maio de 1974), onde Sofia Lisboa recordou as centenas de milhares de pessoas que convergiram na Alameda D. Afonso Henriques. Um mar de gente, como disse, que avançou até ao então Estádio da FNAT. A grande mobilização popular ao 1.º de Maio validou e consagrou assim, seis dias depois, a Revolução portuguesa.
Todos ao 1.º de Maio!
Amanhã, em 33 localidades de todo o País, muitos milhares de pessoas vão participar na jornada de luta do 1.º de Maio, promovida pela CGTP-IN, que inclui iniciativas desportivas, de manhã, convívios já com tradição, concentrações, desfiles e manifestações, actuação de grupos musicais.
Com o foco na luta contra o pacote laboral e «pela vida melhor a que temos direito», a CGTP-IN pretende realizar uma grande jornada de combate dos trabalhadores, por melhores salários, direitos e serviços públicos.
Em Lisboa, a manifestação parte às 14h30, do Martim Moniz para a Alameda D. Afonso Henriques, onde intervirá o Secretário-Geral da CGTP-IN, Tiago Oliveira. No Porto, à mesma hora, a manifestação parte da Avenida dos Aliados, para percorrer as principais artérias da baixa e regressar.
A jornada de luta abrange ainda Viana do Castelo (14h30m, Praça da Liberdade), Guimarães (15h, Largo do Toural), Vila Real (15h, Praça do Município), Bragança (14h, Praça Cavaleiro Ferreira), Guarda (15h, Largo Dr. João de Almeida), Aveiro (15h, Largo da Estação), Viseu (14h30m, de Santa Cristina para o Rossio), Lamego (14h30m, Avenida Alfredo de Sousa), Mangualde (14h30m, Largo Dr. Couto), Castelo Branco (10h, frente ao Hospital), Covilhã (15h, Jardim Público), Tortosendo (10h, Praça da Liberdade), Minas da Panasqueira (todo o dia), Coimbra (15h, Praça da República), Figueira da Foz (9h30m, Jardim Municipal), Leiria (15h, Avenida 22 de Maio), Santarém (10h30m, frente à Loja do Cidadão), Portalegre (10h30m, Avenida das Forças Armadas), Setúbal (15h, da Praça do Brasil para o coreto da Avenida Luísa Todi), Sines (10h, Jardim das Descobertas), Évora (10h30m, da Praça Joaquim António de Aguiar para a Praça 1.º de Maio), Montemor-o-Novo (16h30m, Largo da Cooperativa de Habitação), Vendas Novas (18h30m, Jardim do Bairro José Saramago), Beja (10h, Casa da Cultura), Pias (13h, Barragem do Enxoé), Ervidel (13h, Barragem do Roxo), Faro (10h, Mercado Municipal), Funchal (10h, Largo da Assembleia Legislativa Regional), Ponta Delgada (11h, Parque Florestal do Pinhal da Paz), Angra do Heroísmo (10h, Praça Velha) e Horta (12h, Parque da Alagoa).




