João Abel Manta, o artista prodigioso
João Abel Manta é um artista e intelectual ímpar
Sempre alinhado com a esquerda em que se integrou jovem, no MUD Juvenil, João Abel Manta ficará para sempre conhecido como o “cartonista” do 25 de Abril que radiografou os momentos que balizaram a história do tempo que se viveu em aceleração apaixonada entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro. Eram comentários urgentes e acutilantes, feitos em cima do acontecimento. O que era e continua a ser espantoso é nunca perderem o norte, acertarem sempre no alvo com precisão rigorosa.
Esses seus “cartoons” são uma pequena parte da sua extensa obra gráfica desde os primeiros, publicados na revista de Arquitectura, aos que se seguiram no Almanaque, no suplemento literário do Diário de Lisboa, no JL ou nas ilustrações do “Dinossauro Excelentíssimo”, personagem que criou em parceria com José Cardoso Pires, em que se retratava Salazar-o-Botas, parceria que continuou no “Burro em pé”, uma peregrinação pelas comarcas de Portugal em demanda dessa personagem difusa, muito popular por essas paragens em que, repudiando as vulgaridades da caricatura e do sarcasmo, denuncia os anacronismos da organização mental do provincianismo, da mediocridade.
Arquitecto de profissão (um dos melhores conjuntos arquitectónicos de Lisboa, os blocos na Avenida Infante Santo, são projecto que realizou com Alberto Pessoa e Hernâni Gandra), pintor e desenhador por vocação, cartonista por gozo pessoal e para nosso gozo, o seu traço é de um rigor deslumbrante, filia João Abel Manta entre os Bordalos, os Steinbergs, os Daumier ou os François, colocando-o como um dos melhores “cartoonistas” de todos os tempos.
A história contemporânea de arte portuguesa tem em João Abel Manta um dos seus artistas maiores, com lugar destacado na pintura, no desenho, na ilustração, no cartoon, nas maquetas de cenários, na tapeçaria e na arquitectura. Raramente alguém verteu talento invulgar e ímpar por tão diversas áreas, realizando obras como os cenários para Shakespeare, a tapeçaria que foi premiada e figura no salão nobre da Gulbenkian, as ilustrações da “Arte de Furtar” e “Quando os Lobos Uivam”, as séries temáticas em que uma deslumbrante “Situação Shaskespeariana” coexiste com outras notáveis “A Mulher e o Pássaro”, “Situação Teatral-Gaslight”, “Santo Ofício” ou o desenho distinguido na II Exposição Gulbenkian, ou o já referido bloco de habitações na avenida Infante Santo.
Na última exposição que realizou na SNBA, o que demonstra num notável conjunto de 250 pinturas, em que evidencia nas paisagens das terras, marítimas e urbanas, nas narrativas tanto de mitologias recriadas como inventadas a introduzir reflexões filosóficas sobre os laços profundos das relações humanas, os seus relacionamentos com os universos circundantes recorrendo à sexualidade, aos afectos, aos trânsitos das idades, na muito extensa galeria de retratos de escritores, pintores, filósofos, actores, músicos, toda uma plêiade de intelectuais que com ele conviveu material e imaterialmente, o que deve ser sublinhado é o amor pela pintura posta em prática por mãos que conhecem em profundidade os segredos da arte dirigida e orientada por uma inteligência e uma cultura invulgares.
O que é evidente nessa exposição é que o paradigma da arte, enquanto crítica social e ideológica, limpa das alienações estéticas, é uma pulsão intemporal e interminável. É a exposição que condensa todo um trabalho de constante pesquisa que João Abel Manta desde muito jovem iniciou nas várias áreas do design, da arquitectura e da pintura, sempre a equacionar a necessidade de reinvestir nas artes, sublinhando e aprofundando a sua autonomia relativa e o seu contributo interventor na sociedade, subtraindo-as das contaminações dos desertos da arte pela arte.
A demonstração que para João Abel Manta à arte nada deste mundo é estranho, pelo que além de o interpretar o inventa. Estes quadros, todos os que antecedem, são uma descrição das paisagens sociais por quem nunca cede ao fácil, ao demagógico e que, com trabalhada perfeição oficinal, aguda inteligência, cultura de excelência sempre actualizada, caloroso racionalismo, inoxidável exigência colocam João Abel Manta como um dos artistas e intelectuais ímpares da historiografia portuguesa.




